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Bernardo Ferrão

E Passos, tropeça na dança de Marcelo?

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor de Informação

É indisfarçável. E só surpreende os mais desatentos. Passos e Marcelo andam de costas voltadas. A entrevista do líder do PSD ao SOL e a resposta do "dr. Rebelo de Sousa" – o episódio do "irradia felicidade" - foram a confirmação de que as coisas entre o Presidente "catavento" e o líder social-democrata não estão bem. A pergunta é: será que Passos sobrevive a Marcelo?

No discurso do 25 de Abril, o Presidente frisou que o seu mandato é, por natureza, "mais longo e mais sufragado do que os mandatos partidários", sublinhando que "não depende de eleições intercalares". O recado era também para Passos Coelho. Marcelo quis dizer-lhe: "habitue-se!".

Confesso que me custa a compreender a posição beligerante que Passos tem assumido contra Marcelo. Considero-a, do ponto de vista político, muito pouco sensata. Se Passos pretende colar Marcelo a António Costa (e às esquerdas) não só não o está a conseguir, como devia, em vez de atacar, aproveitar a onda e a crescente popularidade de Marcelo. Mas não, o líder social-democrata optou pela trincheira da sua coerência, à espera que a realidade lhe dê razão. Só que ao fazê-lo, fragiliza-se com o que diz mas também com as respostas prontas, e sorridentes, que ouviu de Marcelo.

É evidente que Passos não alinha com o Presidente. Mas é também evidente que a liderança social-democrata está num desalinho. Falta estratégia. Atira ao Presidente, mas cala-se nos debates com o primeiro-ministro. Mostra-se sem força anímica. Está retirado da arena da oposição, deixando-a quase em exclusivo para Assunção Cristas. Uma falta de comparência que António Costa aproveita o mais que pode. Dá gás a Cristas para diminuir Passos. Simples.

De há um mês para cá, Marcelo mudou ligeiramente o discurso. Sempre que comenta as questões da governação e as previsões económicas, o Presidente não só não se compromete como faz questão de passar o ónus para o Executivo: são eles que têm de provar. Passos devia ser o primeiro interessado em ter um Presidente independente e o mais fortalecido possível para quando chegar o momento do embate com o Governo – e esse momento vai chegar. Mas não, numa birra sem um racional que se perceba, Passos insiste em mostrar-se crispado, minando a relação com o Presidente, enervando o PSD, e permitindo que Costa explore uma espécie de bloco central entre Belém e São Bento.

Em 2014, numa entrevista que fiz a António Costa, o então presidente da câmara de Lisboa dizia que o seu grande adversário era Rui Rio – Passos era primeiro-ministro e líder do PSD e a intenção de Costa era fragilizá-lo. Ainda é cedo para dizer se Costa terá razão antes do tempo, mas no PSD já há alguns sinais de

incómodo com a liderança. Se estivesse tudo bem Maria Luís teria vindo pôr o dedo no ar? Andaria Luis Montenegro nos bastidores a sonhar com a sucessão? E será que se falava, como se voltou a falar, do nome de Rui Rio?

Por mais que tente sacudir a pressão, Passos sabe que a prova de fogo virá em outubro do próximo ano, nas autárquicas. Está nas suas mãos virar o jogo e decidir em que estado se quer apresentar a essas eleições. Até lá, pode não querer dançar com o Presidente, mas devia saber que as pedras que atira para Belém fazem ricochete e estão a faze-lo tropeçar. E por este andar não me parece que Marcelo lhe queira dar a mão.

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