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Cândida Pinto

A casa de Svetlana tem vista para os refugiados

Svetlana é uma croata que vive em Tovarnik.Tovarnik é uma pequena localidade rural de 2.500 habitantes e fica na fronteira Croácia-Sérvia.

A meio de setembro de 2015 Tovarnik estremeceu. Pelo meio da fronteira, na terra de ninguém, um carreiro continuo encheu-se de gente que deixava a Sérvia com destino a Tovarnik. Espalharam-se pela estação de caminho de ferro, ocuparam toda a rua das traseiras da casa de Svetlana. Um quilómetro e meio de refugiados sentados, de pé, de trás para a frente, sem saberem muito bem o que fazer. Não se afastavam da zona que lhes estava reservada. Porque aí iriam chegar autocarros que os levariam para outros destinos.

Tovarnik fica no campo. Há árvores de fruto um pouco por todo o lado. É debaixo delas que eles descansam nas longas travessias porque a sombra faz falta perante o sol abrasador de um verão tardio. Em cada grupo há alguém, um miúdo, que rouba uma maçã da árvore para a trincar com prazer. Os outros riem do pecado.

Svetlana já está a dormir. Eu e o repórter de imagem Rogério Esteves estamos em casa dela . Em Tovarnik não há hotéis e Svetlana aceitou alugar-nos quartos, vai acrescentar uns trocos ao seu rendimento neste mês de Setembro de 2015. Aliás a pizzaria estava cheia, ficou aberta até mais tarde, com lotação esgotada de jornalistas. No supermercado , muitos dos policias que rondam por toda a localidade , fizeram compras. A economia de Tovarnik vai sentir diferença.

Eles, os refugiados, estão perto, na rua ao lado. Isso inquieta Svetlana. Eles dormem na rua, ao longo do asfalto. Ela já os viu na televisão, mas não se aproxima deles. Eles serão o triplo dos habitantes de Tovarnik. Ouve-se uma voz ou outra mas a noite é tranquila.Tovarnik não perdeu a sua pacatez nocturna. Os croatas só querem vê-los entrar nos autocarros e partirem.

Estamos a seguir a rota balcânica por onde entram milhares de pessoas que fogem da guerra. 2015 é o ano em que chega cerca de um milhão de pessoas à Europa. Um deles é Said.

- Sabe para onde podemos ir?

Said está no cruzamento entre um campo de girassóis e a fronteira Sérvia-Hungria.

- Saí da Síria porque não aguentava mais.Cruzamos a fronteira com a Turquia à noite e a polícia começou a atirar. Um dos que pertencia ao nosso grupo morreu logo ali. Em todos os países a que chegamos só nos dizem: vão, sigam, vão !

- Chegamos aqui e encontramos uma fronteira fechada e uma violenta polícia que me feriu a perna.

- Eu agora não tenho país . Não posso voltar à Síria , à guerra na Síria , e por onde passamos ninguém nos quer deixar ficar. Eu só quero um pouco de segurança, sentir-me a salvo, vivo.

- Para onde é que acha que devo ir?

- Qual o caminho a seguir? Tem essa informação ?

Digo-lhe que a fronteira com a Croácia está aberta.

- Tem a certeza?

- E acha que vai ficar aberta ou também poderá fechar?

- E a da Eslovénia está aberta ou fechada ?

Surge um burburinho entre os que estavam sentados junto do campo de girassóis. Tudo se agita. Said apressa-se.

- Thank you! Thank you!

Corre para o autocarro que está a chegar sem saber qual será o próximo destino.

Horas depois, não muito longe, na fronteira entre a Sérvia e a Hungria, em Horgos, já é noite quando Rita chega e depara-se com a vedação de arame farpado e um bloco de policias do outro lado. Pergunta-me:

- Não vão abrir a porta?

Explico que a fronteira está fechada.

- E devo ir para onde ? Há outra aberta?

Se tiver documentos pode tentar, mas não, não tem nada. Nem faz ideia que país é esse do outro lado, guardado a arame farpado, a Hungria.

Seguiu os passos de um grupo, meio desligada, seguiu o fluxo. Não sabe onde está , só quer apanhar um comboio e ir para a Bélgica onde tem um irmão.

- O Daesh não perdoa ninguém, mata muçulmanos, mata cristãos , levou-me o meu marido. Cortaram-lhe a cabeça.

Ele era polícia em Mossul, no Iraque. Ela viu neste fluxo de gente a oportunidade de fugir, embora receosa que venham atrás dela. Deixou os filhos com amigos porque tinha medo de perdê-los na travessia do mar.

- Eu não sei nadar.

Rita chega à Europa mas está perdida.

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