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Carla Castelo

O Acordo de Paris e uma história que tem de ser contada

Há aspetos positivos e negativos no Acordo de Paris. Juridicamente vinculativo, mas com compromissos voluntários de redução de emissões revistos a cada 5 anos, o acordo junta pela primeira vez todos os países, desenvolvidos, em desenvolvimento e emergentes, num esforço comum mas diferenciado para conter o aumento da temperatura bem abaixo dos 2ºC, se possível 1,5ºC. Mas nesta história há que contar outra, ainda maior.

No rescaldo do Acordo que saiu ontem da Conferência do Clima de Paris, é importante ver o que há de positivo e de insuficiente neste acordo mundial, que parte de compromissos nacionais voluntários, de acordo com as capacidades que cada país entende que tem. Por um lado, é um primeiro passo coletivo das 196 partes (195 países mais a União Europeia) da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Um primeiro passo conjunto que estabelece o objetivo de reforçar a resposta global à ameaça das alterações climáticas, através da redução de emissões de gases com efeito de estufa, da adaptação aos impactos adversos, e do financiamento aos países em desenvolvimento para que essa trajetória de baixo carbono e elevada resiliência climática seja possível.

Um primeiro passo que visa conter o aumento da temperatura média do planeta “bem abaixo dos 2ºC” em relação aos níveis pré-industriais, e prosseguir esforços para limitar esse aumento a 1,5ºC, reconhecendo que isso reduziria de forma significativa os riscos e impactos das alterações climáticas.

Por outro laldo, é um acordo que deixa de fora setores de atividade como a aviação e o transporte marítimo, grandes emissores de gases com efeito de estufa, e que, partindo dos compromissos voluntários dos países, não chega para cumprir o objetivo dos 2ºC muito menos o de 1,5ºC. Já que, feitas as contas às reduções em cima da mesa, estamos numa trajetória de aumento da temperatura média do planeta próximo dos 3ºC, o que obrigará a uma revisão em alta desses compromissos nacionais no sentido de cortes cada vez mais significativos mesmo antes de 2020, a data para a entrada em vigor do Acordo de Paris. Só que numa linguagem por vezes vaga, e com demasiadas recomendações, e poucas obrigações, o efetivo cumprimento de cada país pode ficar comprometido.

O que quer dizer que, ao nível nacional, regional e local, é preciso que as organizações não governamentais e os cidadãos estejam atentos e exijam o cumprimento do que for sendo prometido.

E aqui entram também os jornalistas.

Muitos cientistas têm dito que, se queremos impedir que a temperatura média do planeta não suba mais do que 1,5ºC e prevenir impactos potencialmente catastróficos, temos de por fim à extração de combustíveis fósseis até 2050.

Um jornal de que gosto particularmente, e que é também um dos jornais britânicos mais respeitados a nível mundial, o The Guardian, lançou este ano uma campanha pelo desinvestimento em energias fósseis, como o carvão, o petróleo ou o gás natural. O jornal apontou baterias a duas fundações – a Fundação Bill e Melinda Gates e o Wellcome Trust –, ambas com trabalho filantrópico meritório, mas também com grandes investimentos na indústria petrolífera e do carvão, em contradição com o desígnio de criar um mundo melhor.

A ideia de um jornal e de jornalistas tomarem partido e, inequivocamente, abraçarem uma causa, explicando porque o fazem, não é inédita, mas é pouco usual com esta dimensão e num tema que pode parecer puramente económico-financeiro.

A principal mensagem do “Keep it in the Ground” é que devemos manter os combustíveis fósseis no solo, em vez de continuarmos a perfurar cada vez mais fundo e mais longe, para depois queimá-los nos fornos das indústrias ou nos motores dos carros, contribuindo para a crescente concentração de dióxido de carbono na atmosfera, e para o desequilíbrio do efeito de estufa. Aquele efeito, tipo cobertor do Planeta, muito conveniente porque permite termos uma temperatura média global compatível com o nosso modo de vida, mas que, com a concentração cada vez maior de gases como o dióxido de carbono e o metano na atmosfera terrestre, está a ser exacerbado e a fazer com que a temperatura média global esteja a aumentar muito rapidamente e com efeitos potencialmente catastróficos para a qualidade de vida das pessoas.

O editor chefe, Alan Rusbridger, estava de saída após 20 anos à frente do jornal. Mas, 6 meses antes de sair do The Guardian, quis deixar um legado, porque sentia que faltava contar uma história, que o jornalismo tinha falhado nesse campo, e convenceu toda a equipa a escrever aquela que considera a mais importante história do mundo na atualidade: uma história sobre política e economia e, sobretudo, uma história sobre as pessoas.

A questão climática tem sido sempre vista como uma história ambiental. Uma questão de salvar o Planeta. Ou salvar os ursos polares. Mas na verdade a grande história das alterações climáticas, do que já está a acontecer (este ano marca 1º C de aumento da temperatura média global em relação ao período pré-industrial) e o que poderá acontecer até ao final deste século não é sobre o planeta (que sobreviverá com um clima diferente), nem só sobre ursos polares, ou outras espécies e ecossistemas ameaçados. É uma história sobre as pessoas, sobre perdas e danos. Uma história que nos afeta a todos. Mas que afeta sobretudo os mais pobres e com menos capacidade de se adaptar e de reagir a fénomenos extremos. A escassez de água e de alimentos, o surgimento de doenças, as cheias rápidas e destruidoras, o eventual desaparecimento de Estados-ilha são realidades com impacto direto em vidas humanas em todo o mundo.

A crise climática ameaça não apenas a biodiversidade e os ecossistemas, mas também a prosperidade e a própria paz, ao pôr em causa a segurança alimentar, o acesso a água, a produção de energia e as infraestruturas. Nalguns momentos da história contemporânea, como durante o Apartheid na África do Sul, puseram-se questões éticas que levaram a que não fosse possível para um jornal, ou um jornalista, alhear-se e não tomar partido pelo lado da justiça e dos direitos humanos. Será que nesta história não estamos perante uma questão ética que desafia um modelo de desenvolvimento assente numa relação profundamente desequilibrada com a natureza e na ideia de que é preciso “crescer” indefenidamente e a qualquer custo?

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