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Tempo para o gratuito
23.01.2012 11:27
Temos sido bombardeados nos últimos meses pelo discurso da inevitabilidade. Há boas e más inevitabilidades. E vale a pena relembrar uma das boas inevitabilidades: estamos condenados à relação. Percorrendo o terreno da antropologia filosófica com Martin Buber, o homem é incompleto quando está isolado. O filósofo Ludwig Feuerbach acrescentava que "o homem individual, por si só, não possui a existência do homem em si mesmo". O "eu" só é com o "outro" - sou mais "eu" quanto mais for com o "outro" - e nunca ninguém será capaz de se realizar sozinho. Em dias de incerteza, condicionados pelo medo, urge a reflexão sobre essa riqueza gratuitamente ao dispor do homem: o tempo e a sua utilização.
Há dias, em simpática e construtiva conversa com um membro do governo - dadas as circunstâncias político-partidárias do executivo, parece-me a pessoa certa para o lugar que ocupa -, diante de uma assembleia de voluntários para falar sobre o Voluntariado, pensei em voz alta: Como interpretar esta tendência de reduzir o tempo para o gratuito, aumentando o tempo para o económico - refém da teoria do homo economicus - como parte de uma estratégia de equilíbrio estatístico-financeiro? E quais os riscos a médio e longo prazo?
As principais dinâmicas de construção de Felicidade estão na vertente gratuita da vida - no Ser - e não na vertente económica - no Ter -, embora esta seja também uma inevitabilidade. Foi o desequilíbrio nesta balança que nos trouxe até aqui. Na senda do modelo "capitalista", vivemos inebriados pela felicidade aparente do Ter, pelo artificialismo do consumo, iludidos pelo paradigma liberal da acumulação. Com vícios de soberba e rédea solta, secundarizando a ética e o "bem comum", construímos uma sociedade com menos tempo para o gratuito, ou seja, menos tempo para dar, gratuitamente, à dimensão do que é mais sublime numa Existência que não se questiona porque simplesmente… É, gratuitamente.
Será esta tendência para a redução do tempo para o gratuito um caminho seguro? E como entender esta tendência quando, ao mesmo tempo, se defende uma revolução de paradigmas? Quando se quer que o tempo novo seja de reencontro de afetos, de aprofundamento das relações, de partilha e disponibilidade para o(s) outro(s)?
Alguém naquela assembleia de voluntários, dirigindo-se àquele membro do governo, pediu mais atenção – tempo, entenda-se –, aos cuidados em família, para os idosos e para os filhos, na recuperação dos laços de vizinhança e do encontro entre vizinhos. O tempo para o gratuito é tanto para o ócio como para o aprofundamento das relações. Mas o que se tem verificado é uma tendência para o encurtamento do tempo para o gratuito… com impacto na família, na simbiose obrigatória com a natureza e o meio, no salto do eu solitário para o nós solidário.
Podemos apostar na qualidade do pouco tempo que nos é permitido para o gratuito porque, na verdade, tempo em quantidade não significa necessariamente tempo de qualidade. Este é um princípio básico nas relações humanas. Nos casais, entre pais e filhos, amigos… Mas o tempo disponível para o gratuito, no jogo da interdependência, é um bem demasiado precioso. "Ninguém é uma ilha".
É no tempo que se expressa o gratuitus, o sentido maior do Ser humano. O tempo conhece todos os sistemas e todos os sistemas vivem e morrem no tempo. No movimento da história, o tempo recuperará a razão contra todos os aparentes e circunstanciais pragmatismos políticos. Nem que seja para nos dizer... é tarde demais!
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