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Joaquim Franco

Expectativas de um Sínodo

Em conversas mais demoradas ou na rapidez de um café, é com frequência que alguém nos assalta com a pergunta. Até onde vai o Papa? O drama da Igreja e de Bergoglio passa também pela gestão de expectativas.

Francisco é a resposta a uma dupla espera. Dentro e fora da Igreja gerou uma onda de expectativa que foi crescendo com o tempo. Gerir essa expectativa fará a diferença para o mundo e para a Igreja, sabendo-se de antemão que o desfecho não agradará a todos.

Por fora, corresponde o discurso social, a denuncia corajosa - até da incoerência na Igreja -, a afronta ao poder da finança e à sociedade de consumo, a defesa da Criação. Para o mundo, Francisco tem aura messiânica.

Internamente, a reconfiguração da ortodoxia mantém a expectativa. O Sínodo sobre a família retoma a dificuldade histórica. Há muitos caminhos para o debate. Embora o documento de trabalho apresentado aos participantes, homens e celibatários na esmagadora maioria, estabeleça limites. Podíamos começar, por exemplo, pelas escassas políticas de apoio à família, pelas leis laborais que prejudicam a família, ou pelo papel da mulher na família, na sociedade, na Igreja. Mas a pressão mediática concentrou-se no acolhimento dos homossexuais e dos divorciados recasados. E as divisões, que são também um saudável sinal de diversidade e pluralidade, são evidentes até no episcopado português.

Projetam-se quase dois modelos de Igreja, mas o papa Bergoglio prefere ir à origem, ao evangelho, e revela a má gestão de expectativas, a fonte dos equívocos à volta do Sínodo. Francisco está a por a doutrina no seu devido lugar, passo a expressão, a reposicioná-la na vida dos crentes e da Igreja. Para o Papa, a doutrina não é um museu de normas que condicione o acesso ou promova a segregação. Deve estar a jusante da missão, como objeto que não fecha portas e admite a fragilidade humana. A vida e as suas contingências, o homem antes da sua condição de ser, prevalece sobre qualquer incapacitação doutrinária. Assim se compreendem as declarações de Francisco, consideradas revolucionárias, sobre as pessoas – sublinhe-se... pessoas - homossexuais e os divorciados. Em primeiro lugar está a “misericórdia” do sim, da porta aberta.

Há ainda uma Igreja de “castas” que continua a olhar o outro de cima para baixo, uma Igreja legalista e balizada, que segrega, quando o evangelho denuncia a hipocrisia e altera as coordenadas. Na verdade, só consegue vislumbrar o Alto quem caminha ombro a ombro, amparando os que mais precisam sem olhar ao que vestem, sem os distinguir pelo que gostam ou por aquilo em que acreditam. As narrativas do evangelho falam num homem que acolhe sem exigir condições. A mudança, a acontecer, ou a ser necessária, vem depois, pela experiência do acolhimento, do encontro surpreendente.

Pode esta dinâmica pastoral de Francisco transformar-se em linha de ação? Como plantar no terreno pastoral, como procedimento, a “misericórdia” que faz acolhimento para derrubar barreiras e reconstruir vidas? Ouvem-se vozes no Sínodo a defender diferentes atitudes pastorais, consoante a abertura cultural e a vivência pastoral de cada país ou diocese, reforçando o papel das conferências episcopais numa espécie de pastoral regional, que, na prática, existe desde que a Igreja assumiu na evangelização o dinamismo da inculturação. É apenas um dos caminhos possíveis.

Mas os mais legalistas citam artigos e articulados, cânones e legislações, para mostrar um cartão vermelho aos caminhos insondáveis da “misericórdia”. São guardiões do museu. Atirem a primeira pedra se forem capazes...

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