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Joaquim Franco

O desafio da cedência

O discurso religioso, à semelhança do discurso político, reveste-se de uma semiótica de extrema cautela. O breviário político, como o religioso, está cheio de certezas absolutas, de teimosas balizas que enquadram a incapacidade de admitir - nas ideias, nos procedimentos, nos hábitos... - que a cedência faz parte da dinâmica do encontro, para fazer do tempo que passa um tempo de oportunidade. Não é fragilidade, nem é só contingência. Mas também não é opção. É uma boa inevitabilidade da existência humana. Num breve momento em que as barreiras do preconceito, político ou religioso, fossem tão inflexíveis que não permitissem o diálogo, não seriamos, sequer. É por aí que o homem se diz, que o homem se revela. Solidário, sem estar refém das ideias, mas sendo protagonista da história, que sendo também uma história de ideias, é antes uma história de relações, de cedências.

Até a capacidade de assumir compromissos, é inseparável da necessidade de saber quando ceder para evitar a fratura irremediável. E, antes de se fazer encontro, a aproximação requer a disponibilidade para a escuta, para acolher o que não se enquadra nos padrões do preconceito.

Ceder pode significar uma desistência. Mas, mais importante, é dar de si. Ceder é transferir uma parte. Só será capaz de ceder em consciência e liberdade quem recorrer ao discernimento para reconhecer no outro ou numa causa um depósito de confiança, dinâmico e mutável. No caso da política ou da religião, tendo como azimute o valor da pessoa e do bem comum.

Em tudo na vida - na família, no trabalho, na política ou na religião... -, somos à medida dos atos assumidos ou por assumir, das relações construídas ou por construir. Uma cedência pode ligar, porque deve responsabilizar. Não é só um ato social ou político. É também um ato religioso. Na essência, a vida não é mais do que uma espantosa oportunidade de fazer encontros, em contexto, num momento que é este entre o nascer e o ocaso, com liberdade criativa para descontextualizar e abrir caminhos inesperados, que rasgam o óbvio e vão para lá das evidências, cedendo, muitas vezes. Estranho é que se estranhem as imensas vias para, individual ou coletivamente, encontrar caminhos novos, experimentar novas possibilidades quando o que está já revela sinais de erosão.

É pela inevitabilidade da relação que se vislumbra um "nós". E se não há homem sem o ombro a ombro da relação e tudo o que ela implica, também não há Deus sem as procuras humanas e todos os seus equívocos.

Sugestões de leitura: Terramoto Doutrinal (Temas e Debates) de Carlos A. Moreira Azevedo, A Igreja não pode calar-se (Paulinas), textos inéditos de Óscar Romero, e Francisco de Assis, Renovador da Humanidade (Paulus) de Guedes de Amorim