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Joaquim Franco

Francisco e Cirilo, momento decisivo

Quantos argumentos são necessários para impedir a ação? Perante um obstáculo, uma adversidade, uma tradição ou a força do hábito, como se comporta a atitude?

Ortega e Gasset ensaiou a resposta nos meandros da circunstância. E tão mal tratado anda o pensamento do filósofo espanhol. Se somos também a nossa circunstância, é preciso agir na circunstância para mudar o que somos. Ou, dito de outra maneira, podemos e devemos intervir na circunstância porque também a fazemos. A questão é saber se queremos.

Moldados pelo contexto, somos a medida do que julgamos ser e a surpresa do que nem pensávamos que seriamos capazes de ser ou de fazer se a circunstância tivesse bloqueado a força de vontade.

E o que vale a circunstância, o peso da história ou a memória ferida, perante um momento inesperado que possa desencadear novas circunstâncias?

Perguntava Holderlin, poeta de cabeceira de Jorge Mario Borgoglio, “o que valem as ações e os pensamentos dos homens ao longo dos séculos perante um único instante de amor?”

Vem a citação a propósito de um acontecimento que teve tanto de inesperado como de natural, porque refez o contexto… o encontro em Cuba do Papa com o Patriarca ortodoxo de Moscovo.

Na verdade, o esforço de aproximação entre as duas igrejas – separadas há quase mil anos - vem de longe, foi sendo construído pelos anteriores papas e patriarcas ortodoxos, mas sem a libertadora distância das circunstâncias da memória dos primeiros anos da cisão, do proselitismo, da guerra fria e das sobras da geopolítica regional. Na declaração de Havana, os dois dizem que “deploram a perda da unidade como consequência da fraqueza humana”, temem uma “nova guerra mundial” e estão determinados “a superar as divergências históricas” para dar uma “resposta comum” aos “desafios do mundo contemporâneo”.

Na diferença, são igrejas irmãs e não deixarão de ser diferentes e irmãs. Mas a perseguição dos cristãos, a ajuda humanitária aos refugiados, as desigualdades sociais com a gritante concentração de riqueza, a “crise” na família, a “defesa” da vida, a urgência do diálogo para a liberdade religiosa, a redefinição do cenário religioso e cultural, a reconstrução da Europa, a situação na Ucrânia, teceram novas circunstâncias para os líderes dos maiores grupos cristãos. E deram razão ao filósofo. O homem faz a rutura quando não fica paralisado e atua na circunstância. Francisco e Cirilo assumiram o tempo da oportunidade – o kayros –, criaram o momento, “o primeiro encontro” como disseram. O que pressupõe um esforço de continuidade, que pode passar pela visita de Francisco a Moscovo e pela ida de Cirilo a Roma. O discurso jornalístico chamou-lhe “encontro histórico”. A história dirá que foi um momento decisivo, protagonizado por duas pessoas maiores do que as circunstâncias.

Sugestões de leitura: Papa Francisco - Esta economia mata (Bertrand), de Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi; O Pacto das Catacumbas (Paulinas), de Xabier Pikaza e José Antunes da Silva; Um breve guia para Clássicos Filosóficos (Temas e Debates), de James M. Russell.

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