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Joaquim Franco

A beleza última da relação

O fruir e o usufruir da beleza pressupõe códigos. Na contingência humana, implica a disponibilidade dos sentidos. Mas a natureza primordial está antes dos códigos e vive para lá dos sentidos. Quando acendemos uma vela em casa por falta de eletricidade, é um incomodo. Quando uma vela se junta a outra e a outra, cria-se um novo cenário que muda a perceção. O contexto carrega uma intencionalidade que há-de alinhar-se com uma ideia, permitindo a experiência da beleza.

À semelhança do sol, que tanto queima na praia como revela os contornos do sonho policromado de um vitralista, uma vela que ilumina uma escola na selva ou num bairro pobre tem a mesma natureza de milhares de velas juntas que magnetizam multidões, religiosas ou outras.

A experiência da beleza faz-se assim numa sintonia entre o que não muda - o real -, que já lá está, sempre esteve, e a circunstância do pensamento, dando uma leitura, um sentido ou um sentimento. É por aqui que pode também enquadrar-se o conceito de "dignidade humana" que está antes da condição de ser e de estar. Pode e deve incomodar, mesmo quando deslumbra. E deslumbra sem necessariamente tranquilizar.

O maio português traz uma referência visual, um cíclico quadro da emoção popular que arrasta o mistério desta natureza intrínseca. Jornais e televisões constroem a "imagem" de motivações insondáveis, imersas numa intimidade intransmissível, para refazer, ano após ano, caminhadas, dores e alegrias, uma presença, esclarecida ou ingénua, manipulada ou convicta, fé ou superstição. É o movimento de uma identidade religiosa tantas vezes incompreendida. Mas é nos lenços e nas velas, na história e testemunho de cada peregrino, que Fátima se diz e se revela sem segredos ou mistérios, como reação a uma procura - na devoção mariana ou em qualquer outra expressão de religiosidade menos convencional - ou a Procura, em si mesma.

Na cera derramada e no drama de um adeus, escorrem ínfimas parcelas do indivíduo e infinitas experiências dessa natureza intrínseca. A religião faz a mediação. Mas pode até haver quem tente a travessia sem mediação, entre a religiosidade - sentimental e experiencial, onde se procura uma resposta - e o mistério derradeiro - indizível e imutável, onde mora a pergunta. Um mistério a que a teologia chama também "ultimidade", o estado de todas as esperas, chegada e depósito último da esperança.

Nas palavras do professor de filosofia e teólogo Anselmo Borges, quando dizemos "ultimidade" estamos «a tentar dar resposta ao nosso perguntar sem limites», a «realidade última», que não podemos captar, o «fundamento último, e também o sentido último» (1).

Ser humano, auto-consciente e racional, é ser em dúvida - o Agora e o Depois... de onde e para onde? -, mas também ser em relação. A "verdade" procurada apela à corresponsabilidade e à interdependência. É um Encontro. «Estamos ligados uns aos outros, estamos ligados à terra, ao cosmos, e também a esse fundamento último» (2). Somos, em relação, o que sabemos que somos, o que julgamos ser e o que somos sem saber.

A experiência religiosa, no plano ritual e simbólico, faz a ponte entre a busca e o sagrado que os sentidos permitem sondar. Pode até introduzir a resposta, mas esta está e estará condicionada pelo contexto da inevitabilidade maior: a relação. Pela qual, por via da beleza, se faz a sintonia com a natureza intrínseca da existência.

(1) (2) Entrevista de Sarah Adamopoulos para Noticias Magazine, em 09/12/2007

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