sicnot

Perfil

Joaquim Franco

Brexit de longo alcance

Cerca de 52% dos britânicos, ingleses sobretudo, decidiram sair do espaço da União Europeia. Torna-se evidente que o projecto da União não é uma inevitabilidade, mas uma opção. As consequências políticas, económicas e financeiras começaram imediatamente a desenhar-se. Mas há outros impactos, menos visíveis na percepção mediática e imediata.

A história grandiosa do Reino Unido é também a circunstância histórica de um estigma. Na periferia, escudados pelo Canal da Mancha, os britânicos sempre se compreenderam, orgulhosa e patrioticamente, com um pé dentro e um pé fora da Europa, rejeitando o domínio de uma centralidade europeia. A vivência religiosa é também um reflexo desta particularidade. Há uma identidade insubstituível, na fé e na ordem, que atribui ao soberano, no caso, à soberana, o título de responsável máximo da estrutura religiosa dominante.

A saída do espaço da União pode ser vista como mais um balanço do corpo britânico, que desta vez tira o pé do continente para se equilibrar na ilha. Mas porque as relações entre estados e povos se faz também na balança da economia, e a economia tem hoje um peso determinante – berço da industrialização, o Reino Unido representa a quinta maior economia do mundo -, esta opção pode ter, a médio e longo prazo, um tremendo impacto social e cultural nas relações entre os europeus. A UE fica mais franco-alemã. Esta é a hora de o "centro" se repensar, reforçando o projecto pela periferia, sob risco de desagregação.

Revendo os resultados do referendo, constata-se que é sobretudo a geração pós-segunda guerra – da qual se esperaria o contributo da memória de um tempo em que gritar “independência” não tinha o peso político e social que tem hoje... - que pede a saída da União Europeia. Há muitos factores a ter em conta na grande desilusão com a UE, que obrigam a uma reflexão profunda. Não há uma versão monolítica sobre como deve construir-se ou o que deve ser o "ideal" europeu, ou a "identidade" europeia, se quisermos ir mais longe...

Não é de estranhar que o choque maior seja sentido nas novas gerações. A liberdade de movimento, de relações e encontros, por via de projectos ambiciosos de intercâmbio cientifico ou cultural, está a criar as primeiras gerações de europeus que usufruem de um espaço tão vasto de paz e acolhimento à escala europeia. Na verdade, as novas gerações já não se compreendem sem o espaço da União.

As lideranças religiosas europeias, que no embate com a laicidade se redefinem obrigando a própria laicidade a reenquadrar-se, não devem colocar-se à margem do debate. Visando a construção da paz na reconstrução da Europa, a UE pensada no pós-guerra é também um sonho de inspiração politico-religiosa. E convém não esquecer que, como todas as liberdades, a religiosa também se trabalha. Nenhuma liberdade é absolutamente adquirida.

Não foi por acaso que antes do referendo 37 líderes religiosos e pensadores britânicos – cristãos das igrejas autóctones, judeus, hindus, muçulmanos, budistas, filósofos... - se pronunciaram em conjunto para lembrar que a fé tem a ver com a integração e construção de pontes, não com segregação.

Nos últimos 70 anos, explicavam, a Europa da União viveu em paz, construindo pontes de entendimento entre diferentes e diferenças, as melhores ferramentas para a segurança e o sentido do colectivo.

Mas esta Europa da livre circulação é sacudida por uma crise de democracia, na coincidência de uma crise de migrações que arrasta a demagogia e o medo, e o Brexit estimula perigosos nacionalismos que ameaçam crescer sem rédeas.

Já depois do referendo, o arcebispo anglicano de Cantuária, Justin Welby, disse que a Grã-Bretanha tem de se reinventar no mundo e apelou ao espírito de “hospitalidade e compaixão para construir pontes e não muros”. Os bispos católicos de Inglaterra e Gales temem pelos “mais vulneráveis e desprotegidos, alvos fáceis de empregadores sem escrúpulos e traficantes de seres humanos”.

Se é a “vontade manifestada pelo povo”, entende o Papa, exige-se agora “uma grande responsabilidade de toda a Europa”, para garantir “a convivência de todo o continente”.

Na «teologia» dos Direitos Humanos, são os alicerces éticos e morais do projecto europeu que estão à prova. Que será do "génio meigo e profundo" da Europa cantada por Fausto Bordalo Dias, outrora palco das maiores atrocidades com o combustível da religião, que soube cruzar a razão com a fé naquele que será um dos seus maiores legados para a humanidade?

  • Paulo Macedo pede calma para o bem do banco
    1:45

    Caso CGD

    Paulo Macedo falou pela primeira vez desde que foi eleito o novo Presidente da Caixa Geral de Depósitos e, para o bem do banco público, pediu calma a todos. Passos Coelho veio dizer que a recapitalização da Caixa pode ter de ser feita no verão do próximo ano para salvaguardar o défice deste ano. Já António Costa preferiu não comentar as declarações de Passos e diz que o banco público há muito que precisava de ser recapitalizado.

  • Condutores continuam com dúvidas em como circular numa rotunda
    2:06

    País

    Circular nas rotundas continua a ser um problema para muitos condutores. Cerca de 3 mil foram multados nos últimos três anos depois da entrada em vigor do novo código, os números são avançados pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Os instrutores de condução dizem que a medida provoca mais confusão nas horas de ponta.

  • O que aconteceu à menina síria que relatava a guerra no Twitter?
    1:59
  • Youtuber Miguel Paraiso escreveu uma paródia musical para a Reportagem da SIC "Renegados"
    1:27

    Grande Reportagem SIC

    O youtuber Miguel Paraiso escreveu uma paródia musical para a Grande Reportagem SIC "Renegados". Desde ontem já teve 67 mil visualizações no Facebook. Imagine que ia renovar o cartão de cidadão e diziam-lhe que afinal não é português? Mesmo tendo nascido, crescido, estudado e trabalhado sempre em Portugal? Foi o que aconteceu a inúmeras pessoas que nasceram depois de 1981, quando a lei da nacionalidade foi alterada.«Renegados» é como se sentem estes filhos de uma pátria que os excluiu. Para ver, esta quarta-feira, no Jornal da Noite da SIC.

  • "A nossa guerra não deixou heróis, só vilões e vítimas"
    5:26

    Mundo

    Luaty Beirão é o rosto mais visível de um movimento de contestação ao regime angolano que começou em 2011, ano da Primavera árabe. Mas a par dos 15+2, mediatizados num processo que os condenou por lerem um livro, outros activistas arriscam diariamente a liberdade.