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Perfil

Joaquim Franco

O Desporto e a Fé, entre o Euro e os Jogos

A competição desportiva tem, na sua origem, uma dinâmica religiosa. De transcendência e de ética. A virtude – arete – do atleta vê-se pela sua capacidade de superação. Pelo encontro e desencontro com os (im)possíveis. O atleta prepara-se, com técnica e tática. Mas nem tudo depende dele e ele sabe disso. Na competição desportiva, o acaso é sorte ou azar dependendo do ponto de vista. Nos jogos clássicos, os gregos resolveram este problema que tanto intriga quem se esforça. Todos eram heróis, embora a glória viesse da vontade dos deuses. O melhor, o mais bem preparado, estaria sempre mais próximo da vitória, nos jogos olímpicos ou na odisseia de um combate bélico, mas a intervenção divina podia alterar o desfecho. Fora assim nas batalhas épicas entre gregos e troianos, era assim no terreno da competição desportiva. A esperteza de Ulisses foi inspirada no desespero de um deus feito homem com sede de vingança.

A competição desportiva tem, na sua origem, uma dinâmica religiosa. De transcendência e de ética. A virtude – arete – do atleta vê-se pela sua capacidade de superação. Pelo encontro e desencontro com os (im)possíveis. O atleta prepara-se, com técnica e tática. Mas nem tudo depende dele e ele sabe disso. Na competição desportiva, o acaso é sorte ou azar dependendo do ponto de vista. Nos jogos clássicos, os gregos resolveram este problema que tanto intriga quem se esforça. Todos eram heróis, embora a glória viesse da vontade dos deuses. O melhor, o mais bem preparado, estaria sempre mais próximo da vitória, nos jogos olímpicos ou na odisseia de um combate bélico, mas a intervenção divina podia alterar o desfecho. Fora assim nas batalhas épicas entre gregos e troianos, era assim no terreno da competição desportiva. A esperteza de Ulisses foi inspirada no desespero de um deus feito homem com sede de vingança.

Outras culturas religiosas desenvolveram a ideia de intervenção divina na história. No monoteísmo hebraico, a astúcia de David vem do “alto” para derrotar Golias. Era na conjugação de duas vontades, a humana e a divina - thelema – que desenhavam a explicação dos feitos heroicos e proféticos.

Não admira, por isso, a carga simbólica da competição desportiva. Num percurso de valores e significados, representa mais do que o esforço físico e anímico de um atleta. Pela imprevisibilidade - que garante o princípio da competição - constroem-se estádios, concentram-se multidões, fazem-se celebrações planetárias, ouvem-se hinos, sobem bandeiras, erguem-se taças, promove-se a autoestima.

Se os jogos Pan-Helénicos impunham tréguas sagradas, permitindo a livre circulação de inimigos para acesso à competição em Olímpia, as competições desportivas do nosso tempo paralisam o mundo mediático, elevando a emoção para um endeusamento transversal dos protagonistas. E se os jogos clássicos impunham rotinas, com ritos religiosos e civis, as competições mediatizadas, como um Campeonato da Europa de Futebol ou os modernos Jogos Olímpicos, acrescentam a capacidade de moldar ritmos e agendas mediáticas.

Na competição desportiva, enquadram-se “elementos de uma religião e a ampliação mediática é um investimento que reconstrói a emoção da pureza, o sonho do ideal desportivo em que todos são iguais na oportunidade, apesar da diferença real das capacidades, que a competição pode revelar” (1).

A técnica e a tática são determinantes, mas a imprevisibilidade está fora do domínio humano. “O «sobre-humano» conjuga-se também com a surpresa do imprevisível, e, nesta luta individual ou coletiva pela superação, constroem-se narrativas míticas e de fé. Em contexto religioso, o acaso pode ser ocasião. Em ambiente de competição desportiva, o vento, o sol, a chuva, os poucos milímetros do poste de uma baliza ou da pegada de um salto em comprimento podem fazer a

diferença entre a coroa da vitória e a resignação da derrota”. (2).

À sacralidade simbólica do evento desportivo, junta-se à vivência, individual ou coletiva, do sagrado. O Europeu de Futebol, que trouxe a Portugal e aos portugueses uma alegria inédita, transportou também esta dimensão. A serenidade de Rui Patrício enquadra-se numa experiência de meditação e fé. Próximo do grupo Bhakti Marga, do mestre Sri Swami Vishwananda, Rui Patrício promove uma prática de vida baseada no “Amor, Paciência e Unidade”, para, explica o movimento, “criar uma fórmula intemporal que indica tanto o objetivo, como o caminho para o atingir” (3). Vale a pena rever o guarda-redes nos minutos dos pontapés decisivos no jogo contra a Polónia e perceber o valor da concentração.

Noutra dimensão, vimos em várias ocasiões o treinador em oração, fechando os olhos e agarrando nas mãos o símbolo da sua devoção – a cruz. Membro do movimento católico dos Cursilhos de Cristandade, Fernando Santos transporta a fé para a vida de forma pragmática. A carta que deu a conhecer, apontando previamente a celebração da vitória, é um testemunho da força de uma convicção religiosa esclarecida, que atribui à fé o papel que a fé pode ter... para um cristão... no desporto, como em tudo na vida. Santos sentiu-se “iluminado e guiado”, mas define o conceito de omnipotência divina na vontade e esforço dos homens. A vitória portuguesa, que significou também a derrota de outros, não resulta da manifestação do Deus velho-testamentário, castigador, que decide e impõe. Contando também com o acaso, que simbolicamente ganhou contornos de hierofania quando uma bola foi ao poste da baliza de Patrício nos últimos minutos do jogo, é fruto de muito trabalho, engenho e abnegação. Santos dedica ao seu “Amigo” a “conquista”, agradece-Lhe ter sido “convocado” e por lhe ter sido “concedido o dom da sabedoria, da perseverança e humildade” para guiar a equipa.

Se o pensamento religioso clássico depositava na moira – o destino traçado pela intervenção direta dos deuses – a explicação para o imprevisível, a razão cruzada com a fé adianta-nos que ganhar e perder faz parte do equilíbrio da contingência desportiva e humana, e o agradecimento de Santos, em jeito de confissão, remete-nos para o papel inegável da fé.

Não cabe aqui fazer exercícios de teologia ou hermenêutica sobre íntimas e insondáveis convicções, seja de quem for. Acreditar, em contexto desportivo, com enquadramento religioso ou não, pode ter um valor que ultrapassa a mera razão da técnica e da tática. Não é apenas vontade ditada pelo querer e pela evidência das capacidades. É impulso de superação para lá do explicável no momento, ampliando e conjugando o que à primeira vista nem se vislumbra, elevando os limites.

Há 10 anos, Fernando Santos teve a gentileza de escrever umas palavras de contracapa numa aventura editorial chamada Um Menino chamado Natal, onde se fazia uma abordagem poética pelas narrativas da natividade cristã. Para ele, o mistério da fé é "Presente em cada dia e a vida continuada". E o que espanta é que isto ainda seja motivo para tanto espanto...

Nota: Os grandes eventos desportivos fazem-se no campo da competição e à volta. Se houve vencedores e vencidos no certame, também houve lições para a vida. A imagem de um “petit portugais” a consolar um adepto adulto francês vai para lá do fenómeno do futebol. Na era mediática, dos impactos virais, a compaixão inocente do jovem descendente de emigrantes portugueses faz-nos acreditar que é possível. O gesto daquele miúdo eleva-nos à essência...

(1) (2) FRANCO. J. (2013), A Celebração Planetária. In Olímpico, Coord Paulo Mendes Pinto. Lisboa: Edições Afrontamento

(3) www.bhaktimarga.org

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