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José Luís Peixoto

Visto de cima: Outros, x por cento

A SIC pediu a várias personalidades que dessem a sua opinião sobre o atual momento que se vive no país. Todos os dias, no decorrer da campanha, é publicado aqui um artigo de cada uma dessas pessoas, ligadas às mais diversas áreas, que normalmente não são chamadas a falar sobre politica nacional. A opinião de hoje é do escritor José Luís Peixoto.

Gonçalo Lobo Pinheiro

Nos discursos, nos almoços e nos debates da televisão, os políticos parecem sempre muito preocupados com cada voto. Um voto é precioso, representa uma pessoa. Por trás de um voto pode estar um idoso que só à custa de muito esforço se desloca, pode estar um jovem a votar pela primeira vez cheio de entusiasmo e ilusões. Por trás de um voto posso estar eu, podes estar tu.

Em Portugal, a cada eleição legislativa, há milhares de votos que não são considerados, que não têm qualquer expressão ou consequência. Todos os votos em partidos que não elegem deputados em qualquer círculo eleitoral, não têm representação.

Por outro lado, a circunstância de se viver em círculos eleitorais mais pequenos inibe o voto nas forças menos populares, condiciona a livre escolha. Mesmo com toda a convicção política, quem terá a ingenuidade de acreditar que podem ser eleitos deputados fora dos grandes partidos em Portalegre (2 deputados) ou Beja, Évora e Bragança (3 deputados)?

Nesses e noutros círculos eleitorais, os votos nas forças de menor expressão são inúteis. O adjetivo é forte e raramente é usado, é mais comum a expressão "voto útil". No entanto, se há uns que são úteis, tem forçosamente de haver outros que são inúteis.

Os partidos que conseguem assento parlamentar em algum círculo, mesmo que apenas um deputado, terão acesso a um apoio do Estado que variará consoante o número nacional de votos que alcançaram. Nessa conta, também entram aqueles que obtiveram em círculos eleitorais onde não elegeram. Ainda assim, não me parece que seja essa a expectativa e a função do voto.

Estas são questões que poucos parecem interessados em levantar. Campeões de retórica, não têm uma palavra para toda esta gente que se dirige aos locais de voto, que faz a cruzinha e que regressa a casa, como se não tivesse feito nada.

Além disso, há também os votos em branco, os nulos e o imenso zero eleitoral da abstenção. Nesta democracia, só conta quem cá está e quem sabe jogar. Agora ganham estes, depois ganham aqueles e, enquanto ninguém falar, assim continuará até ao fim dos tempos. Nesta democracia, é muito fácil ignorar os que não têm voz.

Sobre José Luís Peixoto

José Luís Peixoto nasceu a 4 de Setembro de 1974 em Galveias, Ponte de Sor.

É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa.

A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias traduzidas num vasto número de idiomas e estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras.

Em 2001, recebeu o Prémio Literário José Saramago com o romance Nenhum Olhar, que foi incluído na lista do Financial Times dos melhores livros publicados em Inglaterra no ano de 2007, tendo também sido incluído no programa Discover Great New Writers das livrarias norte-americanas Barnes & Noble.

Foi atribuído ao seu livro A Criança em Ruínas o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para o melhor livro de poesia.

O seu romance Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha em 2007, tendo sido finalista do prémio Portugal Telecom (Brasil) e do International Impac Dublin Literary Award (Irlanda).

Em 2008, recebeu o Prémio de Poesia Daniel Faria com o livro Gaveta de Papéis.

Em 2010, o seu romance Livro venceu o prémio Libro d'Europa, em Itália, e foi finalista do prémio Femina, em França.

Em 2012, publicou Dentro do Segredo, Uma Viagem na Coreia do Norte, a sua primeira incursão na literatura de viagens.

Os seus romances estão traduzidos em vinte idiomas.

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