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José Gomes Ferreira

Estado de asfixia, numa economia de rendas e rendeiros

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Diretor-Adjunto de Informação SIC

​Sim, um dos maiores problemas da economia portuguesa é o peso excessivo do Estado. E a situação ainda vai ficar pior com a atual conceção de política económica no poder e nos partidos apoiantes. Mas quem acha que só o Estado tem um peso excessivo na economia portuguesa, está redondamente enganado. O Portugal das rendas e dos rendeiros está cada vez pior. Com o povo a pagar a troco de nada.

Neste início de ano, quase à socapa, ficámos a saber que os bancos decidiram aumentar os custos anuais dos cartões de débito em cerca de um terço. Mais 33 por cento de custo do cartão Multibanco, a troco dos mesmos serviços prestados. Isto é um aumento mais de 50 vezes acima da inflação. O Deutsche Bank determinou um aumento de 150 por cento.

Quando me vêm falar de real concorrência entre bancos, eu pergunto porque é que me cobram todos os meses entre 50 e 60 euros por mês numa transferência regular de cerca de 400 euros para uma escola no Reino Unido. E todos os bancos portugueses cobram praticamente o mesmo, para quem precisa não há fuga possível.

E pergunto também porque é que quando um pequeno empresário vai a um banco pedir crédito e lhe exigem sete por cento, quando bate a porta dos outros bancos para obter alternativas, a exigência é a mesma? Há concorrência? Onde?

Se a renda não vem por um lado, vem pelo outro. Se os portugueses repararem bem, os preços médios de comissões, taxas, spreads, juros e outras alcavalas cobradas pelo setor bancário é praticamente idêntico.

Nas telecomunicações, a mesma prática. Que razão há para aumentarem todos os anos a fatura dos telemóveis em 2,5 por cento, quando a inflação não chega a 1 por cento?

E na eletricidade? Com alegados aumentos médios de 2,8 por cento que, na prática, são a média aritmética simples de aumento entre os vários escalões de consumo, mas quando entramos em análise de médias ponderadas ou medianas, verificamos que só se referem a uma pequena parte dos consumidores e a maior parte apanhou com aumentos de 3 e de 4 por cento?

Rendas, nestes setores, que as há, há, e continua a haver. A Troika bem avisou contra as rendas excessivas, mas nós estávamos mais interessados em dizer mal deles e mandá-los embora. Agora, pagamos e calamos, cada vez mais.

Neste desmando, mais um assalto ao bolso dos pobres pequenos agricultores portugueses, lançado pelo Governo anterior, seria para rir se não fosse uma tragédia.

O Ministério do Ambiente decidiu proibir todos os pequenos agricultores de utilizar pesticidas e herbicidas nas suas plantações a partir de dia 1 de Janeiro de 2016. Para o poderem fazer terão de tirar um curso de utilização de herbicidas e pesticidas em empresas privadas certificadas para o efeito. Este curso custa em média 150 euros. Repito, 150 euros que serão pagos pelos desgraçados pequenos agricultores a jovenzinhos formados à pressa para lhes ensinar o que não sabem e eles, agricultores, já sabem há muitos anos.

Para esta ideia eu só tenho uma expressão: é uma roubalheira feita às populações com carimbo oficial do Estado.

Aproveito para perguntar ao ilustre político que inventou esta proibição para a transformar em obrigação de formação altamente lucrativa para alguns, porque é que não se lembrou de dar essa formação em juntas de freguesia, com funcionários do Ministério da Agricultura a ministrá-la. Funcionários que na maior parte dos dias não têm nada para fazer no ministério.

Já agora, uma outra pergunta: quantos jovenzinhos de aparelhos partidários do CDS, do PSD e provavelmente do PS, terão ido a correr fazer empresas de formação profissional sobre aplicação de pesticidas e herbicidas por esse país fora, antes da aprovação desta abstrusa lei? Uma análise ao capital social destas empresas daria certamente uma muito interessante investigação jornalística.

No Portugal que quer trabalhar, e que o deixem trabalhar, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu infernizar ainda mais a vida dos cidadãos que todos os dias, por necessidade profissional, atravessam a segunda circular em Lisboa. Podem circular a 80 km por hora em três faixas de rodagem, por pouco tempo. A Câmara vai gastar mais de 12 milhões de euros numa obra de fachada ecológica que reduzirá o número de faixas e a velocidade para 60 km por hora. O argumento de que os automobilistas poderão utilizar a CRIL não colhe, o túnel do Grilo já há muito que entope todos os dias.

Quem serão os acionistas das empresas de asfalto e urbanismo que estão a precisar de faturar com dinheiro público?

No Portugal de hoje, as poucas centenas de famílias que detêm mais de 25 milhões de euros de património e asseguram um rendimento anual de pelo menos 5 milhões de euros não pagando os impostos devidos, não cedem nem um cêntimo no controlo das suas rendas. E os seus serventuários vão aproveitando as margens da sua voracidade para extorquirem ainda mais dinheiro à população. Todos a cavalgar leis de um Parlamento e de uma classe política capturada até ao tutano.

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