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José Gomes Ferreira

A espanholização da banca portuguesa

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Diretor-Adjunto de Informação SIC

Não tenho nada contra os espanhóis, bem pelo contrário. São muito mais organizados que nós, não nos querem reconquistar coisa nenhuma (já têm chatices nacionalistas que cheguem) e são o seguro de vida da nossa economia que beneficia sempre com a deles (porque em regra cai menos que a nossa e sobe mais que a nossa). Nem sequer tenho nada contra capitais espanhóis a dominarem as nossas empresas. Foram a garantia de continuidade de muitas das nossas cerâmicas, que já teriam fechado quase todas se não fosse o interesse dos empresários vizinhos no setor. Antes cerâmicas espanholas a funcionar cá que portuguesas fechadas e a apodrecer.

Dito isto, a espanholização de um setor vital para o país que é a banca está em marcha, é bem real e é um risco acrescido para a nossa economia.

Não, o risco não é por causa de as ações de cada vez mais bancos nacionais estarem a passar para os portfolios dos bancos castelhanos.

O risco é outro:

Santander, Caixabank, Sabadell, são bancos multinacionais, e até globais, sujeitos a várias regulações e supervisões cada vez mais exigentes. E sobretudo sujeitos a transparência acrescida para continuarem a obter financiamento em mercado monetário interbancário.

Como sabemos, o acesso da banca portuguesa a este mercado está vedado. O recurso em fonte de financiamento é o BCE contra a entrega de colateral em dívida pública, numa relação mais fina que um fio de coco permanentemente ameaçado pela tesoura da baixa da classificação de rating da canadiana DBRS atribuída a Portugal.

Para efeitos de financiamento dos bancos de capitais espanhóis à economia nacional, conta a qualidade dos projetos empresariais obviamente, mas conta muito o risco República Portuguesa.

O risco República Portuguesa mede-se em yields da dívida das Obrigações do Tesouro em mercado secundário.

Sabemos como tem sido importante a política de compra de dívidas soberanas pelo BCE para manter as yields em margem aceitável. Sabemos quão mais importante é a disciplina orçamental e financeira nacional para esse efeito, o trabalho de casa, mas por si só este fator não chega.

Basta uma instabilidade nos mercados, uma súbita variação de humor de um analista de uma grande casa de investimentos, uma ação concertada de short selling baseada em rumor ou, cá de dentro, uma notícia menos boa sobre a evolução da execução orçamental, para a acalmia dos juros derivar em tempestade violenta.

Primeira reação dos bancos de capitais estrangeiros, espanhóis à cabeça – reduzir a exposição ao risco Portugal, o mais depressa possível. Tradução, não emprestar mais às empresas, não renovar contas correntes e, mais grave, exigir pagamentos imediatos e integrais previstos em condições contratuais até então adormecidas.

Não, não é cenário de ficção. Já aconteceu. Pode voltar a acontecer.

Agora a espanholização da banca em curso:

-Santander , com Banif, todo espanhol.

-BPI, sem Isabel dos Santos, com mais Caixabank, praticamente todo espanhol.

-BCP, com angolanos da Sonangol em magreza de capital disponível, Sabadell espanhol sentado numa pilha de cash - risco de reforço espanhol.

-Novo Banco à venda, diretamente a institucionais, indiretamente em IPO na bolsa, com muitos espanhóis à espreita, risco de espanholização acrescido.

-Popular, espanhol até ao tutano.

-Bankinter, ex-Barclays em Portugal, idem.

Sobra quem? Sobra o quê?

-Uma Caixa Geral de Depósitos, do Estado, prestes a pedir a Bruxelas a transformação dos 950 milhões de euros de empréstimo nosso de contribuintes em capital e mais um aumento de 500 milhões de euros pelo menos, a sair igualmente do nosso bolso e a ir a défice; Uma ajuda de Estado acompanhada de uma mais que certa pressão da DGCompetition sobre uma futura venda parcial de capital da CGD – espanhóis novamente à espreita de oportunidade na privatização parcial do banco público português?

-Um Montepio a consumir cada vez mais capital por causa das sucessivas imparidades decorrentes de erros acumulados (comuns a praticamente toda a banca).

-Um grupo Caixa Agrícola, felizmente sólido, confinando em termos de banca a um setor específico.

E não sobra mais nada.

Falta capital nos bancos portugueses,

mais 500 milhões na CGD (além da transformação dos CoCo),

mais 300 no BCP, mais 150 no BPI,

a realizar até Janeiro de 2017.

Sobram exigências da Comissão Europeia, da DGComp, do BCE, do Banco de Portugal. O Bdp acrescenta agora mais exigências de rácios sobre as do BCE, na lógica da casa roubada e de mais trancas na porta.

Sim, os erros foram muitos e alguns bem recentes. A correção está a ser mais dolorosa em Portugal, país em que os bancos esperam 5, 6, 7 anos para recuperar os colaterais ou garantias dos empréstimos de entre a massa falida das empresas, sem os tribunais decidirem, quando essa espera na Europa se conta em meses.

Um país em que os fundos de compra de ativos em risco aos bancos, as Arrows da nossa vida, exigem 10 a 15 por cento de retorno (aumentado os hair-cuts ao máximo) enquanto exigem 5,5 por cento nos outros países europeus.

É neste cenário de tempestade sobre a banca, com Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República e António Costa na chefia do Governo, que os banqueiros portugueses estão a enfrentar os próximos meses. APB, Banqueiros, PM e PR, já se sentaram várias vezes à mesa, já beberam litros de café e já queimaram muitas baterias de telemóvel para falar do assunto. Vão ter de se sentar e falar muito mais vezes.

As soluções não são fáceis, com Bruxelas e Frankfurt a quererem juntar demasiados bancos banquinhos e banquetas em poucas marcas europeias.

A tendência é inevitável, convém não fazermos de ingénuos.

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