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José Gomes Ferreira

Corrupção no Brasil, Portugal ao espelho

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Diretor-Adjunto de Informação SIC

Todos os dias ficamos a conhecer novos pormenores dos vários escândalos que afetam a vida pública brasileira. Os casos são tantos e tão graves que perdemos a capacidade de armazenar todos os dados na memória. O destaque do que vamos retendo vai para a desesperada tentativa de Dilma Rousseff de ajudar o seu amigo ex-presidente, cuja boa memória de defensor dos pobres e explorados se desvanece mais rapidamente que uma tempestade tropical. Os pormenores são complexos, mas a matriz da corrupção é simples.

Um Governo voluntarioso usa as suas grandes empresas públicas para mostrar obra e fazer crescer a economia, seja na exploração do petróleo a uma profundidade tanta que afinal ficou abaixo da linha da rentabilidade, seja na construção de habitação social que afinal não é construída.

De caminho, a maior construtora do regime ganha contrato após contrato, os preços das obras sobem vertiginosamente ao cume do orçamento, o rio do dinheiro por fora engrossa o caudal do suborno e as listas dos felizes contemplados aparecem subitamente nas capas dos jornais e revistas.

Abençoada Imprensa, apesar de tudo algo livre – por quanto tempo?

Lá como cá, os indícios, as provas, as evidências que entram pelos olhos dentro, as acusações mais graves, só podem ser obra de uma maquinação contra quem tanto ajudou o país – Lula da Silva e José Sócrates, os injustiçados, os grandes líderes que a história colocará no pedestal dourado dos Fazedores, aqueles que foram malevolamente maltratados por juízes e investigadores mesquinhos.

Lá como cá, um clamor de indignação contra a divulgação de escutas de telefonemas e interrogatórios aos suspeitos, que nos empurram as verdadeiras e mundanas motivações deles pelos nossos ouvidos dentro – não pode ser, os Órgãos de Comunicação Social não podem servir para isto, é preciso trancar a privacidade dos pobres políticos num cofre inviolável.

Lá como cá, os políticos de topo não estavam sozinhos. Os menos sonantes esburacavam com igual ou maior afinco os alicerces da ética na Casa da Democracia.

Vão sendo conhecidos nas listas da corrupção do regime brasileiro e nas dobras das certidões autónomas e nos ficheiros centrais dos processos Face Oculta, Marquês, Furacão, Vistos Gold e Gaianima.

Lá como cá, muitos mais anónimos gestores públicos e privados deviam já estar expostos à luz da candeia da Justiça.

Por estes dias vemos uma Comissão parlamentar de inquérito ao Banif esmiuçar decisões, intenções e omissões de banqueiros, gestores, reguladores e governantes. O destino será o da Comissão BES / GES. Alguém sabia que estava a tramar alguém e a ganhar à custa de outrém, envie-se para a PGR, a Justiça que investigue.

Por estes dias não posso deixar de pensar no caso do ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos que regava empreendimentos imobiliários à beira-mar com muitos milhões de créditos, para fazer pingar outros milhões nos seus bolsos e nos dos amigos.

Por estes dias penso nos quase 40 mil milhões de euros de imparidades de créditos reconhecidos pelos principais bancos portugueses nos últimos oito anos.

Fonte boa da atual gestão da banca portuguesa – os administradores que agora estão a resolver os gravíssimos problemas deixados pelos banqueiros dos pergaminhos - pergunta-me com uma determinação cortante:

- Sabes tu quantos créditos milionários foram concedidos nos últimos 25 anos por administradores e diretores de bancos públicos e privados em Portugal, com o objetivo de conseguir alguns milhões de volta para os seus próprios bolsos?

Sim, corrupção na banca pública e privada em Portugal!

Corrupção que está na origem de imparidades gigantescas de crédito na banca privada e pública, que de uma forma ou de outra acabaram ou vão acabar por nos queimar os bolsos de contribuintes amansados.

Não.

Não é muito difícil perceber porque é que a elite portuguesa nunca deixará passar no Parlamento a figura do enriquecimento ilícito para titulares de cargos públicos.

E muito menos para titulares de cargos na banca e nas empresas privadas.

Mas como faz falta em Portugal um instrumento jurídico para moralizar os comportamentos de quem mexe com dinheiro dos outros, seja em que empresa ou instituição for.

Em Portugal, como no Brasil, corrupção em espelho.

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