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José Gomes Ferreira

A fogueira da Nova Inquisição, que crepita nas Redes Sociais, está a queimar o Jornalismo

Há uma grande fogueira nas redes socais que está a ser atiçada pelos novos inquisidores dos tempos modernos. Os novos inquisidores, quando não gostam do Jornalismo Livre e Independente acusam os jornalistas que o praticam de serem do Partido A ou do Partido B ou C. Colam-lhes um rótulo à volta do nome, atiram-nos para a fogueira das redes sociais e atiçam as chamas. Os autos-de-fé são rápidos e eficazes. Basta um dos atiçadores dizer que um jornalista é um pau mandado do líder de um partido e logo a turba corre a ir buscar a fita do rótulo partidário e a colá-la ao nome desse jornalista em tudo o que é rede social.

Esta semana fui submetido a mais um desses autos-de-fé.

Ousei perguntar ao Primeiro-Ministro porque é que ele está a fazer uma determinada política e anda a dizer aos portugueses que está a fazer o contrário.

Ousei dizer a António Costa que os (bons!) resultados da sua governação de um ano e meio confirmaram duas coisas:

-Que o défice só se consegue reduzir com austeridade;

-Que a austeridade (nas contas do Estado) não é incompatível com o crescimento económico, pelo contrário, potencia-o.

Para fundamentar a minha interpretação, defini austeridade como a atitude ou propensão do agente económico, indivíduo, família, empresa, Estado, para gastar menos do que recebe e poupar uma parte para os tempos difíceis. Aplicada ao Estado, a política de austeridade traduz-se no corte de despesas e no aumento de receitas de forma a conseguir um saldo positivo e começar a pagar dívidas aos credores.

Ora esta política está a ser praticada em Portugal desde 2010, com os famosos PEC de José Sócrates e com todas as medidas que se seguiram incluindo as de Passos Coelho e as de António Costa, que não removeu a maior parte dos pacotes de austeridade dos seus antecessores.

Para a Nova Inquisição, eu cometi um crime: mostrei em grafismo, durante uma entrevista em direto com António Costa, que se mantêm em vigor os seguintes conjuntos de medidas de austeridade:

-Um aumento do IVA de 21 para 23 por cento em janeiro de 2011 (decidido em outubro de 2010), um imposto regressivo que abrange rico e pobre de igual forma e penaliza a atividade económica em geral;

-Um aumento do IRS para a generalidade dos portugueses em janeiro de 2013 (decidido em outubro de 2012 por Vitor Gaspar), através da redução dos escalões do IRS e do aumento das respetivas taxas;

-Um conjunto de cortes na despesa corrente do Estado (desde 2010), com a intensificação das cativações e do corte do investimento público em 2016;

-Um aumento de impostos como o ISP, IA, IMI e Imposto do Selo, destinado a substituir a reversão dos cortes de salários na função pública, pensões e subsídios, bem como a progressiva eliminação da sobretaxa de IRS.

Em consequência, ousei perguntar porque é que o primeiro-ministro anunciava uma política de fim da austeridade e fazia a contrária.

A resposta foi que eu estava errado, porque as medidas de austeridade para os portugueses tinham sido todas substituídas, permitindo aumentar o seu rendimento disponível. Esta resposta implica que a definição de austeridade do Governo atual consiste exclusivamente no conjunto de medidas que toca diretamente nos bolsos dos cidadãos.

Imediatamente muitos comentadores disseram que o entrevistado arrumou o entrevistador, que este estava a fazer o jogo da coligação de direita, que era um apoiante disfarçado da PAF, que estava a mando de Passos Coelho e que o resultado da entrevista foi a derrota de um certo tipo de jornalismo económico!

Pergunta: quem deu a um governo de um partido, apoiado por outros dois, o direito absoluto e exclusivo de definir a austeridade urbi et orbi, de uma determinada forma?

Um conjunto de medidas orçamentais que aumenta os impostos indiretos aplicados às decisões de consumo de todos e cada um dos cidadãos não é também uma forma de austeridade? Se por momentos têm mais dinheiro no bolso mas logo a seguir têm de o gastar pagando mais IVA, ISP, IA, IMI, Imposto do Selo, isso não é austeridade?

Se se mantêm os escalões e as elevadas taxas de IRS definidas por Vitor Gaspar até agora, isso deixou de ser austeridade por decreto? Se se cortam investimentos em ministérios e departamentos do estado degradando serviços e atrasando pagamentos a fornecedores isso não é austeridade?

Por outro lado, a política económica alternativa que foi anunciada aos portugueses na campanha eleitoral e no programa de governo em 2015, tinha o consumo interno como motor do crescimento económico. Apostava na devolução dos cortes de rendimento às famílias e no investimento público para ajudar a economia. Afinal, a informação oficial do INE diz-nos agora que, no último trimestre de 2016 e no primeiro trimestre de 2017, os principais motores do crescimento do PIB foram as exportações e o investimento privado. Precisamente os motores da economia desde o período de inflexão da queda do PIB, no primeiro trimestre de 2013. O que houve afinal foi uma continuidade e não uma mudança radical na política económica. Tal como na política orçamental.

Ousar dizer que a política económica e financeira do Estado agora em vigor não difere da anterior, foi igualmente entendido como uma blasfémia. O rótulo de obediência ao governo anterior foi imediatamente colado ao nome do jornalista e este foi atirado para a fogueira das redes sociais.

Tenho algumas perguntas a fazer aos novos inquisidores:

Onde estavam quando em 7 de setembro de 2012, imediatamente a seguir ao anúncio de Passos Coelho de um aumento da TSU de todos os trabalhadores de 11 para 18 por cento, com a correspondente descida da taxa a cargo dos patrões de 23,75 para 18 por cento, eu disse em direto que esta gigantesca transferência de riqueza do trabalho para o capital era inadmissível e que o Governo PSD-CDS-PP tinha de abandonar rapidamente esta injustiça sob pena de ter de enfrentar uma revolta geral das populações?

Onde estavam quando eu andei anos a fio a dizer e a escrever nos meus livros e artigos que, apesar de perceber a urgência inicial nas contas públicas, os cortes cegos de salários, pensões e subsídios tinham de ser substituídos por uma profunda reforma do Estado que trouxesse poupanças através do emagrecimento de departamentos e estruturas públicas, caras e absolutamente inúteis para o país? Onde estavam quando eu disse que o vice-primeiro ministro Paulo Portas só podia estar a brincar connosco quando mais tarde veio apresentar 60 páginas de um arremedo de reforma do Estado que um estagiário de economia escreveria melhor?

Onde estavam quando eu disse e escrevi que os contratos com certas escolas privadas eram uma forma de roubar alunos das escolas públicas e dar milhões de euros de lucro aos amigos dos partidos?

Onde estavam quando eu disse, escrevi e repeti, que nunca se deve deixar privatizar a Segurança Social, ao contrário do que defendia o Governo anterior, porque os fundos e bancos o que querem é por a mão no dinheiro dos descontos para ganharem milhões à nossa custa e fugir às responsabilidades na hora do aperto?

Onde estavam quando eu critiquei a integração dos fundos de pensões dos bancos na Segurança Social, entregando alguns valores e evitando milhares de milhões de euros de responsabilidades no futuro?

Onde estavam quando eu critiquei a decisão de Passos Coelho e Vitor Gaspar de engordar a EDP para vender a bom preço levando com ela um dote de rendas garantidas que são uma desgraça para a economia e as famílias portuguesas como agora se vê claramente?

Onde estavam quando eu critiquei a privatização da ANA Aeroportos por ser feita através de um contrato decidido pela administração anterior que ficou em funções com os novos acionistas e que já permitiu mais de 14 aumentos de taxas aeroportuárias seguidos?

Já cá andamos há anos suficientes para perceber que as fogueiras da inquisição nunca se apagam totalmente.

Foram atiçadas em 1997, quando Portugal se endividava alegremente e construía exposições universais e autoestradas em regime de SCUT, com o dinheiro dos outros, desequilibrando perigosamente as contas externas. Perceber o que estava a ser feito naquele momento, dizê-lo e escrevê-lo, era sacrilégio;

Foram atiçadas em 2007, quando se assinavam ruinosas parcerias público-privadas para construir mais autoestradas, se afundava a Estradas de Portugal em dívida, se davam milhares de milhões de euros em contratos com rendibilidade garantida, de 16 e 17 por cento ao ano, aos amigos construtores e banqueiros. Tudo isso foi denunciado por uns, poucos, jornalistas que foram acusados de estar a puxar o país para trás e de andar a dar cabo disto!

Os mesmos jornalistas que ousaram levantar a voz contra uma mentira de estado gigantesca que era a liberalização dos mercados da energia, dando ainda mais rendas aos oligopólios da eletricidade e chorudas margens nos combustíveis, gás natural e de botija.

Os mesmos jornalistas que ousaram levantar a voz contra a aparente liberalização das telecomunicações, em mais um mercado em que os preços na comparação internacional treparam rapidamente para o pódio dos mais caros da Europa. Os mesmos que denunciaram e continuam a denunciar o escândalo das cobranças de comissões exageradas pelos bancos, espoliando os clientes.

Em 2017, a fogueira da Nova Inquisição volta a queimar o Jornalismo Independente, enquanto as araras do regime se riem.

Um dia o braço dos novos inquisidores chegará também às asas das araras do regime.

Quando as coisas correm mal, os bobos são os primeiros a ser escorraçados da corte.

O Jornalismo Independente está a ser posto numa fogueira cada vez mais difícil de controlar, a das redes sociais.

O regime que tolera os autos-de-fé até pode mudar de partido nas urnas de voto.

Os hábitos, esses, são mais difíceis de mudar.

José Gomes Ferreira, Jornalista

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