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Perfil

Luís Manso

O que parece não é. Ou é?

Jornalista

Dizem que sou parecido com o candidato presidencial apoiado pelo PCP. Amigos e conhecidos têm teimado em como as feições de Edgar Silva se encaixam, aqui e ali, no meu rosto. Não conheço o militante comunista. O que sei resulta do trabalho feito pelos meus camaradas de profissão (de assinalar o excelente trabalho do meu amigo Joaquim Franco, num retrato exemplar de Edgar Silva). E com cartazes país fora, repetem-se os olhares e comentários: “é que és mesmo parecido”. Mas não sou. Nem Edgar Silva é Luís Manso. Ambos nos batemos, presumo, por um Mundo mais justo e melhor. Pelos valores certos dentro da sociedade. Mesmo dentro do erro, daí retirar a virtude da aprendizagem. O que me leva a uma reflexão. Ao longo deste ano que agora termina, o tanto que parecia ser e não foi. Mais que isso: não é.

Os refugiados não são terroristas. Fogem do terrorismo. Acredito que Edgar Silva defenda o mesmo. Como qualquer candidato de bom senso. Os refugiados não trazem o terrorismo. Se é dele que fogem, é longe dele que procuram vida. Mais do que um abrigo ou paz, tentam encontrar um fio que os agarre à esperança de, simplesmente, respirar. O que por cá ainda fazemos sem pensar, têm eles o peso de saber que num segundo seguinte o podem deixar de fazer. Podem estar mortos. Recordo a conversa com uma pessoa amiga, há uns tempos, a uma mesa de café. Teimava na demagogia do perigo dos refugiados. Quando quis mostrar uma foto de um monte de crianças mortas num canto de Damasco, decidiu desviar o olhar. A verdade pode ser muito cruel.

Todos somos resultado de um fluxo migratório. Rejeitar isso é rejeitar o nosso passado. Fustiga-me a dimensão da falsidade de imagens e conteúdos manipulados para se espalhar uma mensagem de ódio. Os refugiados querem um refúgio. O ódio não se pode combater com ódio. E é a vida de cada um, um bem sagrado. E não me alongo mais neste tema. Para repetir. Os refugiados, por muito que pareçam terroristas, não são terroristas. É deles que fogem. Acrescentar apenas: nenhum dos atentados na Europa foi perpetrado por quem veio na vaga recente de refugiados.

Por cá, a direita ganhou as eleições e parecia o país que ia continuar o rumo dos últimos quatro anos. Sem maioria absoluta, a coligação Portugal à Frente acabou por dar um passo atrás e resultou num verdadeiro “puf”. A vitória que parecia acabou por não ser. A esquerda que se esgrimiu em troca de galhardetes acabou por juntar espadas no ataque ao Governo (o mais curto na história da democracia. Parece mentira, mas é verdade). Bloco, PCP estenderam a mão ao PS e lá os socialistas agarraram o poder. É António Costa primeiro-ministro e o país um barco empurrado pelas certezas de esquerda. Será o fim da austeridade? Entraremos no éden da recuperação? Irá ao cinzento do passado cair morto? De que será feito o brilho do futuro? A estas perguntas penso que nem o mais brilhante astrólogo terá resposta. Por muito que se apresente como verdade, há muito que os números de projeções e estimativas se relevam afastados da realidade. Para dizer, no fundo, que nisto de parecer e ser há muito que dizer. E de nada vale falar da mulher de César. Essa pode ficar em paz. António Costa parecia derrotado e saiu vencedor. Passos Coelho ainda seguiu para São Bento e parecia por lá ficar. Está na oposição. E deixa Paulo a porta do CDS. Mais uma vez. Irrevogável? Parece que sim.

Caro Edgar, não o conheço e dizem que somos parecidos. Fisicamente, muito parecidos. Não sei se é verdade. A minha mãe diz que sim. Os amigos mais próximos também. Tenho alguns benfiquistas ferrenhos. Outros, é claro, do Sporting. O que me leva a outro tema. Sem saber se o Edgar é de um ou de outro. Ou de outro. O inevitável tema “Jorge Jesus”. Parecia que estava “casado” com o Benfica. Parecia que, depois de tantos títulos, ninguém o tirava da Luz. Ganhou campeonatos, taças, levou as águias a finais europeias. E pronto. Acabou-se. Parecia que poderia ser uma eterna história de amor. Parecia, mas não poderia ser. O Jorge Jesus é um profissional de futebol. Terminada a missão num relvado pode decidir seguir para outro. E quanto a essas coisas de lealdade, basta recordar a história de Luís Figo e o adeus ao Barcelona a caminho do Real Madrid. O futebol é um desporto fabuloso. É também um negócio e uma profissão. Jorge Jesus não é um adepto do Benfica. É um treinador profissional. Seguiu para o Sporting e tem recuperado a dimensão alma e leonina. No final logo se vê, quem ganha isto do campeonato. Parece que pode ser o Sporting. Há que diga que pode ser o Porto. Quem sabe o Benfica?

E noutras contas, a da vida. Parecia que parte da sobretaxa ia ser devolvida no próximo ano. E ao que parece, assim não vai ser. Diz por aí, quem faz contas às contas do Estado, que o estado do Estado, afinal, não é lá muito famoso. E pode não haver dinheiro para cumprir promessas dos tempos de direita. Parecia também que o Banif até se poderia aguentar. E de repente, “puf”. Mais um que se junta aos outros, os que fizeram dos senhores da banca uns verdadeiros maus da fita. Mais um que leva para o Estado uma pesada fatura. Poderá chegar a 3.680 milhões de euros, um valor que ultrapassa dois por cento do Produto Interno Bruto. Parece mentira, mas é verdade. Tal como é verdade que a fatura, ao ser paga pelo Estado, é paga pelos contribuintes. E batem à porta da comunicação social mais uns tantos lesados, de um outro banco, mais um banco. Parecia que estavam bem, deram essas garantias aos clientes, mas não estavam. Pessoas que trabalharam uma vida inteira. E um Governo, ou governos, que andaram a dizer que iria o país conseguia esta ano ficar abaixo dos três por cento de défice do PIB. Parecia, mas não. Não vai ficar. Tudo isto tem um peso, pesado demais para muitos.

Parece que 2016 poderá ser melhor que 2015. Não acredito muito na realidade traduzida em função de parecenças. O que é não é o que parece ser. Tal como Edgar Silva, candidato a Presidente da República, nada é na totalidade, com o que é Luís Manso, Jornalista. Por muito que sejamos parecidos, fisicamente. É o que dizem amigos e camaradas. Até a minha mãe. E não me parece que seja de desconfiar. Nunca se desconfia de uma mãe.