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Paulo Garcia

O novo Visconde de Alvalade

Paulo Garcia

Paulo Garcia

Jornalista

Jorge Jesus é incontornavelmente a grande figura futebolística de 2015. Porque é o treinador bicampeão nacional em título e porque resolveu dar um pontapé no marasmo tradicional, aceitando mudar-se do clube onde conquistou esses mesmos títulos, diretamente para o seu grande rival que já não vê esses títulos há muitos anos.

E com esse arrojo provocou um terramoto de dimensões ainda não contabilizáveis. E fê-lo consciente dos riscos que corre..

E quando se parte para este tipo de riscos, ou se é louco ou há coragem. Terá de juntar-se uma confiança e um carisma que só alguns têm arte para abraçar.

O assumir do desafio, a capacidade de jogar jogos com doses de provocação acima do que é habitual... tudo isto deixa mossas e deixa feridas, ciúmes, invejas, azias que o tempo se encarregará de trazer ao de cima quando a altura devida chegar.

Por isso, Jorge Jesus é muito mais do que um excelente treinador. Provavelmente o melhor da atualidade!

Lembro-me de ter escrito, quando ele ainda era treinador do Sp. Braga, que estávamos perante uma personalidade que tinha tudo para se tornar (como se tornou) num mito.

Não retiro obviamente uma única vírgula, não só pelo que a sua carreira ditou desde que abandonou Braga para abraçar o Benfica, mas porque também não é mito quem quer.

Jorge Jesus é mesmo um mito e não um meteorito!

É um grande treinador de futebol. Nasceu para o ser.

E pode continuar a preferir a sardinha assada em vez de lagosta, parques de campismo em vez de hotéis de 6 estrelas, coçar o nariz em vez de procurar a pose certa para a câmara de televisão que o persegue... Jorge Jesus é Jorge Jesus para o bem e para o mal.

Jogou alto demais nesta passagem para o Sporting? Claro que sim!

O Sporting - e o tempo assim o confirmará, estou certo disso - não tem escudo protetor capaz de o resguardar. O Sporting atual tem, com o tempo, mais tendência para se proteger no manto sagrado que o seu treinador atualmente representa, do que o contrário.

Jesus sabe disso melhor que ninguém. Pensou nisso tudo antecipadamente.

E por isso também sabe a real importância de ganhar perante este cenário.

A vitória (a acontecer) será dele e de mais ninguém. Depois se verá como é que internamente esse eventual êxito poderá ser gerido e cavalgado. Para Jorge Jesus, isso é indiferente.

Ele sabe melhor do que ninguém o que é que anseia a massa adepta que o conduz nesta altura ao patamar de salvador da pátria.

E também sabe o que essa vitória trará de custos e feridas profundas à outra massa adepta que o idolatrou até há pouco tempo, em especial aos que acharam que até poderiam ganhar sem ele.

Por tudo isto, este é o grande desafio da carreira de Jorge Jesus: ganhar onde isso parece pouco provável. Ninguém lhe poderá levar a mal por isso.

O patamar que atingiu, a força que a sua imagem representa, fazem-no jogar nesse tabuleiro imprevisível com algum gozo até. E também sabe que este passo dado não tem muita margem de tolerância; ou ganha já... ou perde e sai!

As razões da sua contratação não apontam para projetos a médio/longo prazo, mas para vencer JÁ. Só assim será legitimado o risco e o custo que a sua contratação encerrou.

O futebol português atual tem o seu rosto, que provoca paixões e ódios, mas a quem ninguém ousa retirar o epicentro das atenções.

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