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09.02.2012 20:39
Medicamento ministrado aos pacientes que ficaram cegos no Santa Maria não foi Avastin
Os dois oftalmologistas do Hospital de Santa Maria que hoje à tarde depuseram no Tribunal de Lisboa no processo do caso dos "cegos" defenderam que o medicamento ministrado aos seis pacientes não foi Avastin.
Joaquim Canelas, assistente graduado do serviço de oftalmologia do Hospital de Santa Maria e responsável pela equipa de clínicas no serviço de oftalmologia a 17 de julho de 2009, disse hoje perante o coletivo de juízes do Tribunal Criminal de Lisboa que a cegueira total ou parcial dos seis pacientes injetados naquele hospital a 17 de julho de 2009 "não pode ter tido origem infeciosa", mas sim "tóxica".
"Não se isolaram agentes infeciosos às análises que foram feitas aos pacientes na altura -- tanto ao sangue, como ao humor vítreo -- pelo que, a endoftalmite que apresentavam só podia ter origem séptica", disse, admitindo que o medicamento ministrado aos doentes não pode ter sido Avastin.
Para este médico, o medicamento ministrado aos doentes não foi o Avastin, uma vez que os resultados das análises efetuadas aos pacientes, depois de estes terem voltado a ser internados naquela unidade hospitalar com sintomas de cegueira, terem determinado valores completamente opostos ao que era suposto se os pacientes tivessem sido inoculados com aquele fármaco. De acordo com Joaquim Canelas, a presença de indícios daquele medicamento permaneceria durante três semanas tanto no humor vítreo como no sangue dos pacientes.
Já para outra médica que também depôs, a presença do fármaco no sangue seria de menos tempo já que se diluiria na circulação periférica. Tese oposta sustentou o advogado de defesa de Hugo Dourado, farmacêutico naquele serviço à data dos factos e coarguido no processo, que citou um relatório do Infarmed que indica que a presença daquela substância no sangue não perdura por mais de "três ou quatro dias".
Joaquim Canelas refutou completamente a hipótese de o medicamente ministrado aos doentes ter sido o Avastin ainda que este pudesse ter sido "contaminado". Os factos remontam a 17 de julho de 2009 quando seis pacientes cegaram total ou parcialmente depois de terem sido submetidos a tratamento com injetáveis no serviço de oftalmologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Os pacientes deviam ter sido inoculados com Avastin, uma substância utilizada no tratamento de retinopatias diabéticas, de que todos os doentes padeciam ainda que com tipologias diferentes.
Joaquim Canelas admitiu que à data dos factos desconhecia como se preparavam os medicamentos na altura -- o que ainda acontece hoje -- e sublinhou que agora sabe como se preparam as injeções de Avastin, por atualmente serem os médicos a fazê-lo e já em meio cirúrgico.
O Avastin é preparado pelos médicos desde dezembro de 2010, altura em que o serviço de oftalmologia de Santa Maria retomou as inoculações daquele fármaco, cuja utilização injetável em doentes do foro oftálmico esteve suspensa de julho de 2009 a dezembro de 2010.
Por seu turno, a oftalmologista Belmira Beltran, uma das médicas que administrou o injetável corroborou a tese do colega de que o medicamento ministrado não terá sido Avastin. "Nunca vi um quadro clínico com tanta gravidade como o que apresentavam os pacientes que foram internados na segunda-feira (seguinte à inoculação)", disse.
A médica contou que a 20 de julho um dos seis pacientes tratados com injetável se encontrava já no hospital, tendo esta unidade hospitalar contactado todos os pacientes tratados com injetável no dia 17 de julho. Naquele dia foram ministrados injetáveis a 12 pessoas: seis com Avastin e seis com Lucister, sendo que nenhum dos pacientes tratados com Lucister apresentava sintomas anómalos.
Belmira Beltran não inviabilizou, contudo, a hipótese de os pacientes terem sido inoculados com Avastin, ainda que este medicamento pudesse ter sido contaminado. E apesar de admitir que a cegueira daqueles seis doentes teve origem tóxica, não afastou completamente a hipótese de origem bacteriana, alegando que a medicina não é "uma ciência exata como a matemática".
Outra das novidades trazidas a este julgamento na audiência de hoje tem a ver com a manipulação dos fármacos ministrados a pacientes com diagnóstico semelhante aos que ficaram cegos.
À data dos factos a que o julgamento se reporta, podia haver aproveitamento de medicamento remanescente para o dia seguinte enquanto desde dezembro de 2010 o Avastin ministrado aos doentes é retirado diretamente do frasco para a seringa em que é administrado ao doente.
Na sessão de hoje, o presidente do coletivo insistiu com os dois médicos no sentido de saber se o Hospital de Santa Maria não devia ter internado os seis pacientes quando estes se dirigiram às urgências com "dores, ardor e dificuldades de visão" depois de terem sido inoculados a 17 de julho de 2009. "Podiam ter sido internados", admitiu o especialista Joaquim Canelas sem, porém, ter comentado a decisão dos colegas da Urgência que mandaram os doentes para casa apesar de lhes terem prescrito gotas.
O tribunal vai pedir lista dos médicos que atenderam os pacientes nas urgências enviando-os para casa apesar dos sintomas de pré-cegueira.
Na sessão de hoje depuseram ainda três das seis vítimas, um dos quais Walter Bom, que ficou totalmente cego.
Walter Bom, Maria Antónia Martins e Maria José Marques explicaram ao tribunal os sintomas que apresentaram depois de terem recebido injeções na vista no Hospital de Santa Maria. "Dores horríveis e muito ardor" -- foi como descreveram os sintomas que apresentaram ainda no dia em que tinham sido inoculados e que os levou a pensar que fosse normal por terem "levado injeções na vista".
"Durante quinze dias senti o olho esquerdo como se estivesse a grelhar", disse Maria José Martins que sublinhou ter "perdoado" já a quem lhe causou cegueira no olho esquerdo. "Não quero pensar mais nisto, eu perdoo a quem fez isto -- se até se perdoa a quem mata -- a única coisa que não perdoo é que nos fizeram isto e nunca se dirigiram a mim para pedir desculpa, o que é uma grande falta de humanismo", afirmou perante o coletivo Maria José Marques.
A próxima sessão do julgamento está marcada para 05 de março às 14:00. Para esta sessão o tribunal irá notificar Maria das Dores, uma das pacientes -- já que dos seis pacientes dois faleceram entretanto -- e cinco médicos.
Dos cinco médicos, cinco são oftalmologistas do Hospital de Santa Maria, e a outra -- Regina Lourenço -- a responsável pela produção de medicamentos daquele hospital à data dos factos. Esta médica já não se encontra a exercer naquela unidade hospitalar.
O coletivo agendou mais duas datas para novas sessões: 24 e 31 de maio, com sessões de manhã e à tarde.
Lusa
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