sicnot

Perfil

País

Ciência "afeta a imagem que um povo faz da sua história", diz vencedor do Prémio Pessoa

O investigador Henrique Leitão, que hoje recebeu o Prémio Pessoa 2014, alertou para a falta de especialistas em história das ciências, lembrando que o modo como se faz ciência "afeta a imagem que um povo faz da sua história".

O Prémio Pessoa foi atribuído em 2014 a Henrique Leitão, historiador de ciência, que tem dedicado particular atenção à ciência portuguesa dos séculos XVI e XVII.

O Prémio Pessoa foi atribuído em 2014 a Henrique Leitão, historiador de ciência, que tem dedicado particular atenção à ciência portuguesa dos séculos XVI e XVII.

(LUSA/ ARQUIVO)

Para Henrique Leitão, historiador da ciência antiga portuguesa, "a questão principal não é saber se a ciência realizada em Portugal foi melhor ou pior, se foi mais ou menos", mas, "muito mais simplesmente, em saber exatamente o que foi feito, como e por que tomou essa conformação específica".

"Seria lamentável que pela simples razão de não sermos capazes de analisar e interpretar um certo conjunto de documentos históricos, de estudo especialmente difícil, aceitássemos ou propuséssemos uma ideia muito equivocada sobre a nossa própria história", assinalou, em Lisboa, na cerimónia de entrega do galardão, presidida pelo Presidente da República, Cavaco Silva.

Para o docente, "a ciência, o modo como historicamente a ciência foi, ou não, praticada afeta, de maneira determinante, a ideia de construção de modernidade, a imagem que um povo faz de si próprio e da sua história", bem como "a imagem que projeta para fora".

"Por detrás de questões tão arcanas e rebuscadas como a resolução de equações do século XVI ou as complexidades da astronomia teórica do século XVII, acaba inevitavelmente por ser construída uma certa imagem histórica de um país", frisou Henrique Leitão, que direcionou os seus interesses de investigação para a história e a filosofia da ciência, em particular para a evolução das ciências exatas entre os séculos XV e XVII.

O investigador, doutorado em Física Teórica pela Universidade de Lisboa, apontou que "são muito poucas" as pessoas em Portugal, e também no mundo, "com as competências necessárias" para fazer a história das ciências, dada a "combinação peculiar de capacidades históricas, científicas, matemáticas, linguísticas, filosóficas" que, "nos atuais sistemas de ensino, correspondem a carreiras completamente separadas".

"O problema que ainda hoje se nos depara é um desafio sobretudo académico, um desafio de erudição (...). Responder a este desafio está inteiramente do nosso lado", sustentou, evocando a falta de estudiosos com competências técnicas, filológicas e conhecimentos históricos para se debruçarem sobre a ciência portuguesa e a sua relação com as tradições islâmica e hebraica.

O Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros, é uma iniciativa do semanário Expresso com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, sendo atribuído anualmente, desde 1987, num reconhecimento do papel de uma personalidade portuguesa na vida artística, literária ou científica do país.

Henrique Leitão, 50 anos, investigador-principal no Centro Interuniversitário da História das Ciências e Tecnologia e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, foi o 28.º galardoado.

O júri do prémio, liderado por Francisco Pinto Balsemão, presidente do grupo Impresa, que detém o Expresso, considerou que, no seu percurso profissional, o cientista "combina a sólida formação científica com um conhecimento humanista, que o torna num verdadeiro cultor da interdisciplinaridade".

Enquanto comissário da exposição "360º Ciência Descoberta", realizada em 2013 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Henrique Leitão "deu a conhecer ao grande público a importância crítica que a Península Ibérica teve para o desenvolvimento científico e o progresso civilizacional".

O premiado é membro da Academia das Ciências e da Academia Internacional de História das Ciências e faz parte do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, órgão consultivo do Governo, presidido pelo primeiro-ministro, Passos Coelho.

O investigador editou, para a Academia das Ciências, a obra completa do matemático quinhentista Pedro Nunes.

Lusa
  • Henrique Leitão é o Prémio Pessoa 2014
    2:07

    Cultura

    Henrique Leitão é o Prémio Pessoa 2014. O historiador de Ciência tem estudado o contributo da Península Ibérica para o progresso da humanidade. O júri considera que Henrique Leitão combina formação científica com humanismo. O investigador é a 28ª personalidade a receber a distinção.

  • Aeroporto Cristiano Ronaldo? Nem todos os madeirenses estão de acordo
    2:21
  • Hotel inovador na Madeira
    2:23

    Economia

    O grupo Pestana está a construir no Funchal, um novo e único hotel, através de uma técnica inovadora que quase não utiliza cimento. Este vai ser o primeiro hotel do mundo construído com um sistema modular desenvolvido em Portugal. O hotel vai ter 77 quartos e vai ficar construído em apenas seis meses. O maior grupo hoteleiro português admite recorrer a este novo sistema em futuros hotéis.

  • Fatura da água a dobrar
    2:26

    Economia

    Desde o início do ano que a população de Celorico de Basto está a receber duas faturas da água para pagar. Tanto a Câmara como a Águas do Norte reclamam o direito a cobrar pelo serviço. Contactada pela SIC, a Entidade Reguladora esclarece que o município não pode emitir faturas e tem de devolver o dinheiro.

  • Vala comum com 6 mil corpos em Mossul
    1:43

    Daesh

    Há suspeitas de que o Daesh tenha criado uma vala comum com cerca de seis mil corpos a sul de Mossul, no Iraque. A área em redor estará minada. A revelação é de uma equipa de reportagem da televisão britânica Sky News.

  • A menina que os pais queriam chamar "Allah"

    Mundo

    ZalyKha Graceful Lorraina Allah tem 22 meses, anda não sabe ler nem escrever mas já está no centro de um processo judicial contra o Estado da Georgia, nos EUA. Os pais, Elizabeth Handy e Bilal Walk, apoiados por uma ONG, exigem na justiça que o nome seja reconhecido na certidão de nascimento para que a criança possa ser inscrita na escola, na segurança social ou nos registos e notoriado. O casal já tem um filho de 3 anos que se chama Masterful Mosirah Aly Allah.