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Cientistas descobrem bactéria resistente a antibióticos no Rio Ave

Quatro estirpes de bactérias foram isoladas na água do Rio Ave, todas 'Escherichia coli', com grande capacidade de resistência aos antibióticos, incluindo aqueles que se usam exclusivamente nos hospitais para tratamento de infeções graves (carbapenemos), avisou hoje um cientista.

© Fabrizio Bensch / Reuters

Em declarações à Lusa, via telefónica, o cientista Paulo Martins Costa, um dos membros da investigação desenvolvida em parceria entre o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e a Universidade de Friburgo na Suíça, afirmou que os genes responsáveis pelas resistências das bactérias descobertas "são idênticos aos identificados em bactérias isoladas em hospitais, como, por exemplo, a 'Klebsiella pneumoniae', no Hospital de Gaia.

"As estirpes eram resistentes a todos os 20 antimicrobianos testados, incluindo o imipenem, um antibiótico de última linha que se usa com muita contenção e apenas quando o tratamento com outros antibióticos de primeira e segunda linha não seja eficaz", explicou à Lusa Paulo Martins Costa, médico veterinário e professor no ICBAS.

A recolha de amostras de água foi feita em seis pontos do rio Ave, desde a nascente até um troço abaixo de Santo Tirso, onde já em 2010 a mesma equipa tinha isolado uma outra estirpe (também resistente ao imipenem), portadora do mesmo gene identificado na bactéria responsável por um grave surto de infeção no Hospital de Vila Nova de Gaia em Agosto 2015 e que, segundo informou o Ministério da Saúde, colonizou um total de 103 doentes.

Para os investigadores, o impressionante neste estudo foi o isolamento simultâneo de diversas estirpes multirresistentes num pequeno volume de água (200 mililitros), recolhido num açude em Azenha Velha (Riba D'Ave), sendo legítimo extrapolar que estas perigosas bactérias estivessem presentes em grande número no caudal do rio, alto devido às chuvas de inverno.

Dos contactos que os investigadores estabeleceram com unidades de saúde na bacia do rio Ave, nenhuma tinha isolado anteriormente bactérias semelhantes.

Por outro lado, mesmo admitindo que os exemplares encontrados no Ave possam ter origem em pessoas que estiveram em países em que estas as bactérias têm vindo a ser encontradas (EUA, Colômbia ou França), fica por explicar a "abundância" num caudal de inverno, segundo o especilista.

Outra hipótese remete para a possibilidade de aquelas bactérias poderem ser enriquecidas por algum poluente químico existente no rio.

Em termos científicos, o estudo elege o meio ambiente como um ponto crítico em que as bactérias podem evoluir e ficarem mais perigosas e resistentes aos antibióticos.

Numa perspetiva mais orientada para a saúde pública, Paulo Martins indica que não se pode esquecer que a água dos rios é utilizada para a irrigação de culturas agrícolas e para atividades de recreio.

"Adicionalmente, aves e outros animais que vivam nas imediações deste curso de água, podem vetorizar estes microrganismos para outras paragens. Significa, portanto, que estas bactérias poderão infetar e colonizar animais e humanos, diminuindo a eficácia dos antibióticos e deixando os sistemas de saúde mais fragilizados para o tratamento de infeções", concluiu.

O cientista considera a "batalha difícil", mas necessária para que as bactérias multirresistentes não cheguem aos cursos de água, aconselhando, por exemplo, que as autoridades portuguesas da Saúde, como do Ambiente, a evitarem tratamentos com antibióticos, que podem não estar a ser usados de forma correta.

O objetivo da investigação foi traçar a "contaminação fecal" do rio Ave e "qual era o paralelismo entre essa contaminação orgânica e a presença de macro-invertebrados, pequenos animais que são indicadores da qualidade da água.

O estudo conclui que à medida que as recolhas de água no rio Ave se vão aproximando da foz daquele curso de água, há "mais presença de contaminação fecal".

O cientista considera a "batalha difícil", mas necessária para que as bactérias multirresistentes não cheguem aos cursos de água, aconselhando, por exemplo, que as autoridades portuguesas da Saúde, como do Ambiente, estejam mais atentas aos efluentes hospitalares, onde as fezes e urinas dos doentes que consomem antibióticos, podem não estar a ser tratados de forma correta.

Lusa