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Um banco de sementes chamado "Arca de Noé"

No centro de Lisboa há um banco chamado carinhosamente "Arca de Noé", que conserva a 18 graus negativos e vigia a toda a hora os seus tesouros, um terço da flora portuguesa.

O banco de sementes A.L. Belo Correia não é o único do género em Portugal mas é o mais antigo banco de sementes de espécies autóctones em Portugal continental, conservando mais de 3.700 amostras de sementes, de 1.200 espécies (incluindo subespécies).

Está ali representada, num frigorífico em forma de cubo de quatro metros quadrados, mais de um terço da flora portuguesa e 60% das espécies protegidas de Portugal continental. É um dos maiores bancos da flora autóctone do país.E nele ainda cabem as sementes de centenas de espécies da área submersa pela albufeira de Alqueva e de outras zonas, além de 250 espécies de plantas do Jardim Botânico, ao lado do qual tem "sede" o Banco, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa.

Manuela Sim-Sim, a curadora do Banco, diz à Lusa que se guardam sobretudo sementes de plantas autóctones e explica depois: "No fundo somos um repositório vivo da biodiversidade, são sementes vivas, monitorizadas regulamente e aptas a germinar e a ser utilizadas num trabalho de investigação, numa reintrodução de flora, numa conservação de recursos".

É uma parte considerável da riqueza nacional conservada a frio, em tubos de vidro tapados com algodão e sílica-gel fechados a quente e selados com parafina, à guarda de Manuela Sim-Sim mas também da técnica Domitila Brocas e de Cristina Tauleigne Gomes, voluntária, uma botânica que se entusiasma a falar de plantas e dos seus nomes difíceis de pronunciar.

E enquanto Domitila Brocas explica o percurso das sementes no Banco, Cristina vai lembrando histórias de algumas, como a da planta silvestre que crescia em falésias do norte de Espanha e que por seleção de cultivadores se transformou nas atuais couves (a galega que é a mais próxima da original), da de Bruxelas, no norte da Europa, aos brócolos em Itália, entre outras variedades. Ou das cenouras, que já foram brancas.

Pelo caminho Manuela Sim-Sim fala também do tomilho e da alfazema, do rosmaninho, do medronho, da urze e do orégão, das orquídeas, narcisos e cravos, tremoços e carqueja, tudo plantas portuguesas.

"Grande parte da nossa flora é dominada por plantas herbáceas e arbustos, sendo as árvores em menor número", diz Manuela Sim-Sim. Chegam todas em sementes ao laboratório onde são limpas e sujeitas a um mês de secagem. Só depois são colocadas num tubo isolado com a sílica-gel (um alerta, porque passa de amarela a verde caso haja humidade) e parafina. Podem ficar assim anos e anos, na "Arca", com códigos associados a uma base de dados.Basicamente, numa situação excecional a "Arca" permitiria repor parte da flora portuguesa. É por isso que é tão ciosamente guardada, ligada a um alarme e vigiada duas vezes por dia, e uma outra arca frigorífica ao lado, vazia, para uma situação de emergência.

E nessa situação excecional seriam salvas primeiro as sementes assinaladas com uma cruz vermelha, em particular as espécies endémicas, prioritárias da "riqueza nacional".

Além da "Arca" o Banco tem câmaras de germinação, onde quando é necessário são colocadas sementes e se "imitam" as condições da natureza, como as horas de dia e noite, a temperatura e a humidade que a planta precisa. E depois há ainda uma carpoteca (coleção de frutos) e uma espermateca (coleção de sementes).

Manuela Sim-Sim gostava de chegar a 2020 com 75% da flora ameaçada salvaguardada, salientando que a flora ibérica é das mais diversificadas da Europa e fala das ameaças.

Por isso existe o Banco e dentro dele a "Arca". A nível global todos os anos se extinguem mais plantas do que as que são descritas como novas para a ciência. E depois as alterações climáticas também estão a mudar a flora a nível global e os seus padrões de distribuição, atingindo já a Europa, Portugal incluído.

Lusa