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Grande Reportagem Interativa

A Domesticação

As investigadoras Cristina Luís e Cleia Detry escrevem, para a Grande Reportagem SIC, sobre a história da domesticação.

De todas as transformações que a sociedade humana sofreu ao longo da sua história, uma das mais importantes - e talvez uma das menos conhecidas - é a chamada Revolução Neolítica. Este evento é interpretado economicamente como o surgimento de uma economia que se dedicava à produção de alimentos à base de plantas e animais domésticos e constituiu a base para as inúmeras alterações culturais vividas ao longo do período Neolítico.

A revolução Neolítica consistiu, assim, numa mudança nas relações entre o homem e a natureza, bem como nas relações entre os próprios seres humanos. A partir do Neolítico o homem, face ao mundo vegetal e animal, deixou de ser somente um predador e um consumidor. Passar também a cuidar, proteger, modificar e coexistir com as espécies por ele domesticadas.

Ao longo dos anos uma série de livros e artigos têm tentado elaborar uma definição satisfatória e geral sobre o que é um animal doméstico. É difícil formular uma definição de "domesticação" suficientemente geral para explicar a grande variação observada em diferentes espécies e ambientes de cativeiro, mas que seja específica o suficiente para explicar os processos biológicos envolvidos na passagem de um animal selvagem a doméstico.

Na realidade, doméstico e selvagem são os extremos de um contínuo ao longo do qual uma série de fatores ambientais, biológicos e culturais variam, e em que várias combinações de fatores podem ter contribuido para alterar o comportamento, a morfologia e a genética dos animais.

Um animal só pode ser considerado domesticado quando existe uma intervenção consciente e prolongada por parte dos seres humanos para controlar muitos ou todos os aspectos do seu ciclo de vida. Isso significa que a verdadeira domesticação é o ponto final de um processo contínuo em que mudanças morfológicas, genéticas e demográficas podem ocorrer nos seus estágios iniciais ou intermédios.

O Cavalo, à semelhança de outros animais, terá sido inicialmente domesticado para servir como fonte de alimento. No entanto produziu um enorme impacto junto das sociedades humanas pelo facto de ter constituído o primeiro meio de transporte rápido. Permitiu que as sociedades humanas pudessem deslocar-se a maiores distâncias aumentando não só a área onde se efetuavam as trocas comerciais como a comunicação entre as diversas culturas. Teve um papel importantíssimo na guerra, sendo, igualmente, um valioso e prestigiado animal em muitas culturas, onde funcionava como um sinal de nobreza.

Apesar do papel central que os cavalos têm desempenhado na história das sociedades humanas, o processo da sua domesticação não se encontra ainda bem compreendido, sendo alvo de grande discussão junto da comunidade científica. A domesticação do cavalo parece ter tido início na Ásia central, na região do Botai, no Cazaquistão, há cerca de 5 500 anos, a partir de um ancestral selvagem que hoje já não existe. É indiscutível que as sociedades humanas presentes nas estepes da Ásia central contribuíram significativamente para a domesticação do cavalo. No entanto, inúmeros trabalhos envolvendo análises genéticas têm demonstrado que os cavalos foram domesticados, independentemente, inúmeras vezes e em vários locais. Muita investigação tem vindo a ser feita sobre esta questão havendo mesmo uma hipótese que aponta para que a Península Ibérica tenha sido um dos locais onde o cavalo foi domesticado.

Independentemente do local e da data em que decorreu a domesticação do cavalo, interessa sobretudo realçar as adaptações que foram feitas na sua utilização ao longo da história e que têm permitido a sua coexistência com o homem há milhares de anos.

O Cão terá sido domesticado há cerca de 15 000 anos a partir do lobo, o seu ancestral selvagem, tendo sido a primeira espécie a ser domesticada pelo homem. Os pormenores da sua domesticação são ainda alvo de grande discussão entre os cientistas, havendo alguns que dizem mesmo ter encontrado vestígios de uma proto-domesticação na Europa e na Ásia com 30 000 anos. O centro da sua domesticação também é motivo de grande discussão. Há evidências de ter sido domesticado em várias regiões do globo isoladamente, nomeadamente na China, Médio Oriente e Europa.

Uma das hipóteses defendidas para a domesticação do lobo é a de que, aos poucos, os lobos menos medrosos se terão aproximado dos assentamentos humanos para aproveitarem os restos de comida, num processo de auto-domesticação. Esta aproximação entre lobos e humanos foi progressivamente aumentando, até que o homem começou também a seleccionar a sua reprodução e a mantê-los como parte da comunidade.

As razões para esta domesticação parecem derivar do acaso e do oportunismo do lobo, que aproveitou um nicho ecológico novo, beneficiando dos restos deixados pelo homem. Mas rapidamente esta relação se revelou muito útil também para o homem. O cão fornecia protecção ao ladrar quando estranhos ou outros predadores se aproximavam e também ajudava na caça de animais. Mais tarde foram ainda de grande utilidade no pastoreio, mas provavelmente a sua utilidade maior terá sempre sido a de fornecer companhia ao homem.

É curioso referir que tanto o cavalo como o cão muito mais raramente fizeram parte da dieta humana do que outras espécies domésticas tais como a vaca, o porco, a ovelha ou a cabra. São espécies que foram aparentemente domesticadas com outros objectivos que não o da alimentação e, muito provavelmente, em várias regiões do globo.

A sua importância para o homem foi, desde cedo, registada. Quer em gravuras rupestres, no caso do cavalo, quer através de enterramentos junto de humanos, no caso do cão.

Autoras:

Cristina Luís desenvolve investigação em história da domesticação animal e história da ciência, entre outras áreas.
É licenciada em Biologia, pós graduada em Filogenias e Genealogias de DNA e Doutorada em Biologia, com uma tese dedicada ao Cavalo do Sorraia. Actualmente é investigadora pós-doutorada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, em parceria com o CIUHCT-FCUL e com o CIES/ISCTE-IUL. Tem coordenado e participado em diversos projectos de investigação e de divulgação científica, com financiamento nacional e internacional, onde se destaca a coordenação de um projecto dedicado à história da domesticação do cavalo na Península Ibérica.

Cleia Detry tem dedicado boa parte da sua investigação ao estudo da domesticação e da evolução da relação homem-animal.
Licenciada em Biologia, especializou-se na área de Zooarqueologia, o estudo de restos de animais recuperados em sítios arqueológicos. Doutorou-se com uma tese dedicada ao estudo dos restos zooarqueológicos dos concheiros de Muge, entre eles o cão mais antigo da Península Ibérica. Trabalhou para o IGESPAR e em 2008 ingressou na Uniarq como investigadora pós-doutorada.

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