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Perdidos e Achados

SÁBADO NO JORNAL DA NOITE

Perdidos e Achados

"Somos de Vilarinho, connosco ninguém se mete"

No dia 21 de Maio de 1972, a barragem de Vilarinho da Furna começava a funcionar pondo fim à esperança de 220 homens, mulheres e crianças de ali continuar a viver. Quando se estabeleceu Vilarinho da Furna não se sabe. O certo é que passava perto a via romana que ligava Braga a Astorga, em Espanha e que sete homens, que estariam a trabalhar nesse caminho, ter-se-ão chateado com o patrão e uma mão cheia desses terá acabado por assentar arraiais no fundo do vale, entre a Serra Amarela e a do Gerês, a 4 quilómetros da freguesia de Campo do Gerês, concelho de Terras de Bouro, distrito de Braga.

Vilarinho da Furna foi uma aldeia comunitária que se conservou até 1972.

Vilarinho da Furna foi uma aldeia comunitária que se conservou até 1972.

Homens e mulheres votavam, de 6 em 6 meses, para eleger 6 representantes da população. Havia ainda um juiz que era o chefe do governo de Vilarinho da Furna, também chamado Zelador.

Homens e mulheres votavam, de 6 em 6 meses, para eleger 6 representantes da população. Havia ainda um juiz que era o chefe do governo de Vilarinho da Furna, também chamado Zelador.

Vilarinho da Furna tinha mais terreno montanhoso e áspero, próprio para pasto, que terras férteis para a agricutura, embora ali se cultivasse, por exemplo, batata, milho, feijão, linho e até uva.
Gado era o que não faltava em Vilarinho da Furna. O pastoreio é actividade que exige grande cooperação entre todos. E essa é uma das explicações para os fortes laços comunitários que existiam em Vilarinho da Furna. A organização comunitária de aldeia manter-se-ia ao longo de todo o período de ditadura em Portugal num acto de resistência da população, tolerado por Salazar.
Homens e mulheres votavam, de seis em seis meses, para eleger seis representantes da população. Havia ainda um juiz que era o chefe do governo de Vilarinho da Furna, também chamado Zelador.
Os problemas da comunidade eram, assim, discutidos por todos. Vencia a vontade da maioria. Na reuniões da junta, uma vez por semana, decidiam-se os trabalhos que a comunidade tinha para fazer. Juntos arranjavam caminhos, muros, pontes, telhados, cabanas para os pastores pernoitarem.
O chefe decidia onde e quando os rebanhos pastavam e era juiz dos crimes cometidos, com excepção dos mais graves como o homicídio.
Havia também trabalhos agrícolas feitos pelo colectivo, como as vindimas.
Os antigos habitantes dizem que o trabalho era duro e muito, mas havia fartura. Dizem também que Vilarinho da Furna desapareceu porque o Estado português resolveu colonizar algumas aldeias ao permitir que o rio Homem engolisse a marca viva de usos e costumes de uma comunidade.

Jornalista: Catarina Neves

Repórter de Imagem: Rogério Esteves

Edição de Imagem: Ricardo Sant'Ana

Produção: Madalena Durão

Coordenação: Luís Marçal

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