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Reportagem Especial

Almaraz: Nuclear Até Quando?

Reatores I e II da central nuclear de Almaraz, na província de Cáceres, Espanha

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Nos anos de 1970 e 80, Portugal recusou a opção nuclear para produzir eletricidade. Mesmo ao lado, Espanha já tinha em marcha, desde a década de 60, um programa nuclear ambicioso, que chegou a prever 13 centrais de potência. A moratória nuclear espanhola travou sete projetos, nos anos 90, mas o país vizinho mantém em funcionamento cinco centrais nucleares, num total de sete reatores. Dois desses reatores, os da central nuclear de Almaraz, funcionam a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa.

Nos anos 80 o Plano Energético Nacional chegou a prever a construção de 4 centrais nucleares em Portugal. Primeira página do Expresso de 13 de agosto de 1983

Nos anos 80 o Plano Energético Nacional chegou a prever a construção de 4 centrais nucleares em Portugal. Primeira página do Expresso de 13 de agosto de 1983

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A proximidade, a idade da central – cujo primeiro reator entrou em funcionamento em 1981 –, e sucessivos incidentes, avarias e outras falhas têm suscitado nos últimos anos protestos dos ecologistas e perguntas de grupos parlamentares aos responsáveis da pasta do Ambiente em Portugal.

Mas foi a autorização dada pelo governo espanhol no final do ano passado para a construção de uma nova instalação para armazenamento temporário de resíduos radioativos de alta atividade, sem ouvir Portugal e sem fazer uma avaliação dos impactos transfronteiriços, que desencadeou a mais recente polémica e um diferendo com Espanha, em ano de Cimeira Ibérica.

"Não estamos disponíveis para continuar a correr esse risco", diz o presidente da Comissão parlamentar de Ambiente e deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Soares:

A questão de fundo prende-se com a intenção das empresas proprietárias da central – Iberdrola, Endesa e Gas Natural Fenosa – pedirem o prolongamento da licença da atual licença de exploração que expira em junho de 2020 para trabalhar mais 20 anos.

O francês Henri Baguenier, especialista em economia da energia, considera que não se pode dar uma autorização genérica para o prolongamento da vida das centrais nucleares em Espanha, ou em qualquer país do mundo:

O físico nuclear António Sá Fonseca, presidente da Comissão Reguladora para a Segurança das Instalações Nucleares, considera que os limites para o prolongamento da operação dos reatores nucleares se prendem com a resistência de determinados materiais:

Na Reportagem Especial, em breve no Jornal da Noite, quisemos saber o que acontece quando as centrais nucleares envelhecem, se a idade dos equipamentos pode comprometer a segurança, que destino é dado aos resíduos, e que risco representa a central nuclear de Almaraz a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa.

Estivemos em Almaraz, na província de Cáceres, e fomos a Madrid. Constatámos que a discussão também voltou à agenda política e mediática espanhola, porque a questão do envelhecimento das centrais e a intenção de prolongar a sua vida não se põe apenas em relação à de Almaraz.

O Governo espanhol liderado por Mariano Rajoy e a oposição têm visões diferentes sobre a ampliação do tempo de vida das centrais. O executivo minoritário o Partido Popular é favorável ao prolongamento e os partidos da oposição defendem o encerramento mais ou menos célere das centrais nucleares espanholas, estando em aberto qual das duas posições prevalecerá.

Chema González, ativista do Fórum Estremenho Antinuclear, acredita que essa oposição e a posição de Portugal serão a chave:

O que fazer se não se prolongar a vida das centrais é outra das questões em aberto, num país onde ainda não existe uma solução centralizada temporária, nem tão pouco uma solução definitiva, para os resíduos nucleares mais perigosos.

  • "O prolongamento da vida das centrais nucleares tem de ser visto caso a caso"
    3:42

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    O francês Henri Baguenier, especialista em economia da energia, considera que não se pode dar uma autorização genérica para o prolongamento da vida das centrais nucleares em Espanha, ou em qualquer país do mundo. Em entrevista à SIC, para a Reportagem Especial "Almaraz: Nuclear Até Quando?", o antigo professor do ISEG defende que o prolongamento "é uma questão de análise caso a caso", e lembra que a questão que se está a colocar em Espanha, coloca-se em muitos países, porque "o setor nuclear é um setor velho, em termos de capacidade instalada." O economista, que nos anos 80 foi um dos académicos que ajudou a travar a opção nuclear em Portugal, diz ainda que a grande diferença de há 20 anos para cá é que, "hoje, produzir eletricidade renovável é competitivo em relação a qualquer outra tecnologia".

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