13.02.2009 19:43

Detectives contratados pelos McCann quiseram tramar Gonçalo Amaral

 
 

A Método 3, a agência espanhola de detectives contratada pelo casal McCann, tentou seduzir o advogado de Leonor Cipriano a mudar o rumo da defesa. Os operacionais da agência quiseram fazer de Gonçalo Amaral – o ex-coordenador da PJ de Portimão e responsável pela investigação do desaparecimento de Madeleine e de Joana, filha de Leonor Cipriano - o principal alvo, através do cruzamento de ambos os casos.

O contacto foi feito, ainda durante o período em que os detectives espanhóis investigavam o caso de Madeleine McCann, 3 anos, desaparecida na Praia da Luz , no Algarve, a 3 de Maio de 2007. Os operacionais da agência contactaram o advogado algarvio, João Grade dos Santos, pedindo-lhe apoio nas investigações. "Disseram-me que me contactaram por eu estar a trabalhar num assunto que, segundo eles, tinha semelhanças" , esclarece o advogado.



João Grade dos Santos despertou o interesse da Método 3 por estar a defender oficiosamente Leonor Cipriano num processo onde era arguido Gonçalo Amaral, acusado, pelo Ministério Público, de omissão de denúncia de actos de tortura, concretizados por outros 3 inspectores da PJ, durante o interrogatório à mãe de Joana Cipriano. O processo, ainda em curso, envolve 5 elementos da Judiciária e foi aberto na sequência de uma queixa apresentada pela directora da cadeia de Odemira.



Em Fevereiro de 2005, o Expresso publicou um conjunto de fotografias de Leonor Cipriano, onde a reclusa aparece marcada nos olhos e no rosto. As marcas denunciaram ter existido uma agressão.



A mãe de Joana, a menina de 8 anos que desaparecera em 2004 na aldeia de Figueira, no Algarve, tinha sido condenada a 16 anos de cadeia, pela morte e ocultação do cadáver da filha.



No contacto que fizeram com João Grade dos Santos, os detectives da Método 3 falaram especificamente de Gonçalo Amaral: "é óbvio que tinham de falar: era o inspector mais badalado do momento - ironiza o advogado - afinal esteve na investigação aos dois casos" , conclui. Na abordagem, os detectives realçaram as vantagens da proposta: "referiram-me que dinheiro para despesas não era problema" , sublinha o advogado.



Leonor Cipriano foi defendida por João Grade dos Santos durante toda a fase de inquérito mas, nas vésperas do arranque do julgamento, a cliente prescindiu dos serviços do advogado.



Meses depois de ter recusado a proposta de colaboração com a Método 3, João Grade dos Santos foi trocado por Marcos Aragão Correia, um jovem advogado com escritório na Madeira. Era-lhe conhecida uma fugaz, mas simbólica, passagem pelo continente: Aragão Correia participara nas buscas de Madeleine , como médium. O advogado tivera visões do cadáver da menina na barragem do rio Arade, em Silves. "A Polícia Judiciária - reconhece - desvalorizou completamente essas pistas, apesar de eu ser advogado; já a Método 3 mostrou-se muito interessada" , acrescenta.

Mas o interesse da agência assentaria raízes noutro objectivo: os detectives precisavam de um advogado que assumisse o cruzamento dos casos Maddie e Joana.



Aragão Correia aceitou aquilo que Grade dos Santos rejeitara: "Os detectives vieram ter comigo e disseram-me - nós estamos muito preocupados porque há um elemento comum aos dois casos, Gonçalo Amaral, que não está interessado em procurar as crianças, só está interessado em incriminar os pais. Aconteceu no caso Maddie e também no caso Joana - A Método 3 pediu-me para me envolver no caso, não me pediu para ser advogado da Leonor, pediu-me para fazer algumas investigações enquanto advogado". Marcos Aragão Correia aceitou o desafio e quando consultou o caso Joana identificou-se, de imediato, com a tese dos detectives espanhóis. "Fiquei indignado - recorda - achei que o Sr. Gonçalo Amaral tinha um interesse oculto em incriminar sistematicamente as mães, sem ter provas contra elas".



Dando sequência ao interesse que manifestara pelo caso, Marcos Aragão Correia visita Leonor Cipriano na cadeia de Odemira e acaba por sair da visita muito perto de se tornar o substituto de João Grade dos Santos: "Foi a Leonor que me pediu. Disse-me que nunca ninguém a tinha defendido assim. Depois de muito reflectir decidi aceitar, e comuniquei ao Dr. João Grade dos Santos a decisão da Leonor ".



Assim que Marcos Aragão Correia assumiu a defesa de Leonor, o processo, relativo ao julgamento de Faro contra os 5 inspectores da PJ, muda de rumo. É o próprio quem assume essa inversão: "O grande pesadelo do Gonçalo Amaral foi eu ter entrado no caso" , alerta.



Paulo Pereira Cristóvão, ex-inspector da PJ e um dos 5 arguidos de Faro, acusa Marcos Aragão Correia de ter tentado fazer "um negócio" com os arguidos. "E esse negócio era: acusem todos o Gonçalo Amaral que eu faço com que a Leonor Cipriano diga que os senhores nada têm a ver com isto - ora acordos desses, só em Hollywood!" ironiza Pereira Cristovão.



Marcos Aragão Correia não desmente a existência do acordo, mas alega que o mesmo está relacionado com "um desabafo de um dos arguidos" que lhe chegara aos ouvidos. "Esse arguido fez chegar um mail a um amigo meu onde apontava as culpas para Gonçalo Amaral" , denuncia o advogado.

Marcos Aragão Correia confessa que a opinião negativa, sobre a forma como Gonçalo Amaral investigou os casos Maddie e Joana, não a partilha, apenas, com a Método 3, contratada pelo casal Mcccan. O advogado alimenta o enigma: "Se estou a tomar partido por uma das partes, é óbvio que essa parte me está a dar apoio moral" . Aragão Correia só não esclarece quem, realmente, estará por detrás deste puzzle: "o contrato de sigilo que me liga à Método 3 impede-me de divulgar pormenores relativamente à investigação privada" , conclui.



Contactada pela SIC, a Método 3 entendeu não se pronunciar. Já o porta-voz do casal McCann, alega que a família não comenta ângulos que considera negativos.






Jornalista: Pedro Coelho

Repórter de imagem: Luís Pinto

Edição de imagem: Ricardo Tenreiro

Grafismo: Isabel Cruz

Produção: Anabela Bicho; João Nuno Assunção

Coordenação: Cândida Pinto

Direcção: Alcides Vieira


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