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Muros em 360º

Muros. A queda do Muro de Berlim em 1989 marcava o fim da Guerra Fria. Nessa altura existiam 15 muros no mundo. Hoje existem quase 70, muitos deles crescem numa Europa mergulhada em dúvidas e intolerâncias. Neste ano de 2017 , a União Europeia está em plena crise dos 60, cortada por decisivas eleições em França e na Alemanha. Veja em 360º os três principais muros da Europa numa reportagem SIC/Expresso.

Calais. A vista do farol de Calais para o Canal da Mancha é tranquilizadora. Águas calmas, gaivotas em voos rasantes, pescadores desportivos no molhe. A vista para o Canal é frenética. Centenas de navios e ferries zarpam e atracam no Porto de Calais no mais intenso movimento de circulação marítima do mundo entre a França e o Reino Unido. Dentro de cada ferry seguem camiões de mercadorias. Os camiões têm sido a miragem para muitos refugiados que chegaram à Europa. Nos últimos anos em Calais montou-se um verdadeiro negócio de traficantes, passadores que esgueiravam pessoas para dentro dos camiões. O governo de França e do Reino Unido decidiram acabar com isto.

Todo o porto de Calais está revestido a vedações, muros metálicos estendem-se ao longo do auto-estrada e havia o plano de avançar para o betão. As primeiras placas de betão ainda foram erguidas nas margens do autoestrada mas depois o projeto caiu por terra. Londres e Paris desistiram porque o enorme campo de refugiados conhecido como a Selva que existia junto ao cruzamento que dá acesso ao Porto, foi desmantelado.

Hoje os muros metálicos mantém-se numa afirmação de autoridade. O que era a Selva é hoje um enorme espaço vazio mas interdito. Em letra muito miúda pode ler-se numa placa a proibição de avançar pelo descampado. Caso se perca a informação surgem rapidamente polícias a lembrarem que aquele não é um território de acesso ao comum dos mortais. Está limpo, está vazio, é proibido . Em nome dos refugiados ou dos imigrantes ou dos desesperados que deixaram de ter tecto, ou dos que procuram melhores condições de vida, erguem-se muros.


Roszke no sul da Hungria fica no meio do furacão anti-imigração. Não se passa nada em Roszke. É uma pequena aldeia de 2.300 habitantes repleta de murmúrios. Um refugiado em Roszke é um estranho numa terra estranha. Roszke dá nome a um campo de trânsito para quem queira entrar na União Europeia via Hungria. O governo de Budapeste gastou 323 milhões de euros a erguer 157 quilómetros de muros metálicos ao longo de toda a fronteira entre a Hungria e a Sérvia. Toda essa região é patrulhava dia e noite por milhares de militares e polícias. Há caçadores de imigrantes treinados para dissuadirem qualquer estrangeiro de entrar, há milícias operacionais, o muro está sólido.

Quem se atreve a tentar pedir asilo à Hungria é levado para contentores que fazem lembrar celas cercadas por altas vedações. Aí podem permanecer meses, anos, o tempo de um processo. São escrutinados, interrogados, espremidos até que as autoridades de imigração húngara decidam se alguém merece dar início ao pedido de asilo. Não é possível falar com ninguém entre os muros metálicos, a vigilância é total e cerrada. São raros os que se atrevem a passar por esse processo mas o governo de Budapeste mantém a propaganda anti-imigração, a ameaça permanente do exterior para alimentar a democracia iliberal os olhos postos nas eleições do próximo ano.


Já no próximo outono será a Alemanha a ir a eleições. Angela Merkel leva 12 anos de governo e é acusada de ter sido permissiva com a entrada de refugiados. Mais de um milhão e 200 mil chegaram à Alemanha. A integração ainda é escassa é variável dependendo das zonas.

Dresden é uma cidade que se tem erguido sistematicamente contra a presença de refugiados ou estrangeiros, Berlim já é diferente, uma cidade mais aberta cosmopolita.


Berlim tem inscrito na sua história recente um muro que dividiu alemães. Em 1961 foi erguido o muro de Berlim que se tornou num violento símbolo da Guerra Fria, dividindo dois blocos de influência internacional: o soviético e o ocidental. A memória dos 28 anos de muro na cidade é dolorosa. Milhares de famílias separadas, as mortes dos que se projectavam em fuga desesperada, as diferenças psicológicas que o muro ia criando, para além das políticas e economicas.

Na noite de 9 de novembro de 1989 houve jubilo , o muro deixava de existir, podia escolher-se o bairro preferido para viver, abraçar a família que estava tão perto e tão longe. O muro de Berlim foi erguido para reter uma população, para travar a fuga dos alemães de Leste . Hoje os muros são erguidos para impedir a entrada dos que fogem aos conflitos, ao desespero económico , à escassez. Como se um muro fosse solução para o movimento de pessoas.

Cândida Pinto e Rogério Esteves, SIC

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