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A Dieta Mediterrânica

O sociólogo Jorge Queiroz foi o responsável técnico pela candidatura transnacional da Dieta Mediterrânica a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. É autor do livro “Dieta Mediterrânica, uma herança milenar para a humanidade”. Dirige atualmente o Museu Municipal de Tavira. Escreve sobre a Dieta Mediterrânica para a Grande Reportagem SIC. 


O termo “dieta” deriva do grego díaita, que significa estilo de vida. 

A Dieta Mediterrânica é um conjunto de saberes-fazeres dos povos de cultura mediterrânica resultante de vivências comunitárias ancestrais, de conhecimentos empíricos e evolução tecnológica, processos de agricultura e pescas, produção e confeção de alimentos, sociabilidades e convivialidades, tradições orais, simbologias e rituais de celebração. 

A mesa é o lugar central para o convívio e transmissão de conhecimentos entre gerações. 

A Dieta Mediterrânica acompanha os ciclos astrais, equinócios e solstícios, os trabalhos agrários, as festividades cíclicas, com alimentos e pratos característicos para cada época do ano. 

Está intimamente ligada à agricultura de proximidade, à protecção da biodiversidade, representando culturas de partilha e entre ajuda, o que induz também níveis mais baixos de stress.  

A Dieta Mediterrânica é um modelo cultural que integra um padrão alimentar de grande riqueza e variedade nutricional, reconhecido como de excelência pela Organização Mundial de Saúde.

A história recente do seu reconhecimento mundial teve origem nas investigações promovidas na década de 50 do século XX por uma equipa internacional dirigida pelo fisiólogo norte-americano Ancel Keys, sobretudo pelo impacto do estudo “Seven Countries – a Multivariate Analysis of Death and Coronary Heart Disease” , no qual se apresentaram conclusões da amostra de um inquérito realizado a mais de doze mil indivíduos adultos da Grécia, Itália, Jugoslávia, Japão, Dinamarca, Holanda, Finlândia e Estados Unidos da América.

Os resultados revelaram acentuada diferença na incidência de doenças cardiovasculares e coronárias, bem como na longevidade das populações, indicadores estes favoráveis aos países mediterrânicos comparativamente com as regiões mais ricas e desenvolvidas do norte da Europa, EUA e Japão. 

O consumo excessivo de gorduras animais, a baixa ingestão de vegetais e fibras e o sedentarismo provocam alterações nos níveis de colesterol e a progressão, até hoje, de uma verdadeira epidemia de “doenças da civilização”: doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, vários tipos de cancro e outras “doenças não-transmissíveis” que, no seu conjunto, são a primeira causa de morte a nível mundial. 

De acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura – 70% das doenças no ser humano têm atualmente origem na alimentação, sobretudo pelo consumo excessivo de produtos de origem animal e de produção industrial e pelas “doenças que viajam”, distribuindo patogénicos.

A Dieta Mediterrânica caracteriza-se pela frugalidade e simplicidade, pelo consumo de alimentos frescos, de acordo com a época do ano e produzidos, de preferência, localmente. 

O vinho, em especial o vinho tinto, que tem propriedades antioxidantes, é aconselhado às refeições, com moderação. Ao longo do dia devem ingerir-se água e infusões.

No conjunto de países associados à Dieta Mediterrânica, Portugal destaca-se pelo elevado consumo de peixe, apresentando o 3º consumo per capita mundial, e pela riquíssima gastronomia, com muitas variantes regionais, que acompanham as estações do ano com produtos sazonais: os caldos, ensopados e sopas de legumes no inverno. As saladas, gaspachos e pratos frescos no verão. 

A inscrição da Dieta Mediterrânica na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO ocorreu a 4 de Dezembro de 2013 na 8ª Conferencia Intergovernamental realizada em Baku no Azerbaijão. 

Integra sete Estados e respectivas comunidades representativas. 

Além de Portugal/Tavira, inclui também a Croácia/Hvar e Brac, Chipre/Agros, Espanha/Sória, Grécia/Koroni, Itália/Cilento e Marrocos/Chefchaouen.

Tavira é a comunidade representativa da Dieta Mediterrânica em Portugal. A cidade foi escolhida pela sua história milenar, testemunhada nas estruturas arqueológicas resultantes da presença de civilizações mediterrânicas – fenícia, romana e árabe – pelo seu “hinterland” relativamente preservado, pela diversidade de paisagens – como o ecossistema da Ria Formosa, o “barrocal” e a serra – pela riqueza da pesca (de atum, bivalves, polvo, entre outros) e pela abundância de produtos da terra inseridos no padrão alimentar mediterrânico, como é o caso do figo, da amêndoa, da alfarroba, dos primores, dos citrinos, do mel, da vinha, do azeite e do pão serrano.




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