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O Futebol como meio não farmacológico no combate à obesidade pediátrica

Carla Rêgo é pediatra no hospital CUF Porto e professora e investigadora da Universidade do Porto e da Universidade Católica. André Seabra é professor e investigador na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e coordenador do projecto Futebol é Saúde. Escrevem para a Grande Reportagem SIC sobre os resultados do futebol no tratamento da obesidade pediátrica.   


De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a obesidade é a maior epidemia do século XXI. 

Embora a susceptibilidade genética desempenhe um papel facilitador, é determinante para a expressão clínica da obesidade a acção de um ambiente obesogénico, característico não apenas das sociedades desenvolvidas mas, cada vez mais, das economias emergentes. 

A obesidade é hoje uma doença transversal às sociedades, às culturas e aos estratos sociais. 

O aumento exponencial da prevalência da obesidade, nomeadamente da obesidade pediátrica, torna esta doença crónica um problema major de saúde pública, à escala planetária. 

A International Obesity Task Force (IOTF) estima que aproximadamente uma em cada 5 crianças tem excesso ponderal, existindo na Europa cerca de 3 milhões de crianças obesas. 

Em Portugal, a situação merece particular atenção. À semelhança de outros países mediterrânicos (Grécia, Itália e Espanha), regista uma das maiores prevalências europeias. De acordo com os dados da OMS e da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, para o período de 2009 - 2012 a prevalência de excesso de peso e obesidade é de cerca 30% e de 12% respectivamente, transversal à idade pediátrica (3-15 anos). 

Recentemente, o EPACI Portugal2012 (Estudo do Padrão Alimentar e do Crescimento na Infância) alertou para o início precoce, nos primeiros anos de vida, do excesso de peso nas crianças portuguesas. Registou, aos 12-36 meses de idade, prevalências de 31,4% e 6,5%, respetivamente, de excesso de peso e obesidade.    

Caracterizada pela elevada plasticidade biológica e comportamental, a idade pediátrica é determinante na criação de hábitos e padrões.  

Os estímulos externos, como o ambiente nutricional, desencadeiam mecanismos de adaptação aguda e apresentam uma não desprezível capacidade de modelar a expressão do fenótipo biológico e também do “fenótipo comportamental”. A este fenómeno se denomina de “programação”. 

É evidente na literatura a demonstração de uma elevada estabilidade das “adaptações” precoces, bem como das suas consequências, ao longo da vida. Como exemplos podem referir-se a estabilidade, ao longo da vida, quer da obesidade quer da sua comorbilidade quando estas ocorrem em idade pediátrica ou, ainda, a “estabilidade” do gosto pela prática desportiva, quando iniciada e mantida desde cedo.


Pertinência do tema

A genética humana, como caçadores recolectores que originalmente somos, está “programada” para oscilações de oferta alimentar, para o consumo de alimentos pouco densos sob o ponto de vista energético e sobretudo para um estilo de vida activo. 

Basta olhar a oferta alimentar e as rotinas diárias das crianças/adolescentes da actualidade, para se constatar a notória “desadaptação” da nossa programação genética. 

No que respeita à actividade física e à sua relação com a obesidade pediátrica, e embora a literatura documente resultados pouco consensuais (na maioria das vezes por diferenças metodológicas entre estudos ou pelo uso de marcadores somáticos pouco sensíveis para avaliar o efeito do exercício), ela é reconhecida como um componente fundamental não apenas na prevenção, mas também no tratamento da obesidade e da sua comorbilidade (cardiometabólica e comportamental). 

Precisamente tendo em conta a mudança do paradigma de vida da humanidade, as recomendações actuais apontam para a necessidade de crianças e jovens realizarem pelo menos 60 minutos diários de uma atividade física aeróbica, de intensidade moderada a vigorosa. E de participarem, três vezes por semana, em exercícios de força que provoquem algum impacto no sistema musculo-esquelético. 

Os programas propostos a crianças e jovens com excesso de peso e obesidade centram-se, essencialmente, em actividades individuais (natação, marcha, corrida, remo, actividades em circuito), sendo escassos os programas de intervenção com enfoque em actividades e desportos de equipa. 

Em Portugal, mais de 60% das crianças e dos jovens não cumpre estas linhas de recomendação, podendo a causa ser a dificuldade da implementação desses programas em escolas/comunidades ou o facto de as actividades serem sentidas como impostas, pouco agradáveis e pouco motivantes. 

A criança, e particularmente o adolescente obeso, não é ágil nem veloz, apresenta pouca resistência à solicitação física e tem uma forte inibição em expor o seu corpo. 

É expectável que não exista prazer e até se associe algum desconforto à prática de atividade física, gerando consequentemente desmotivação e abandono. 

Se associarmos a estes sentimentos uma não rara atitude de bullying psicológico por parte dos colegas de equipa e até dos treinadores, é fácil compreender o ciclo vicioso que torna cada experiência negativa numa barreira a qualquer outra futura tentativa de reaproximação da atividade física, suportada numa quebra progressiva da auto-estima e da autoconfiança e num agravamento da frustração. 

É precisamente na promoção de dois destes conceitos – prazer e motivação – que se centra o projecto “Futebol é saúde – O Futebol como meio não farmacológico no combate à obesidade pediátrica”, recentemente patrocinado pela UEFA e que envolve uma equipa multidisciplinar de profissionais das áreas do desporto, da medicina, da nutrição, da farmácia e da psicologia.   


O Projecto

O Futebol é um dos desportos mais populares, é praticado no mundo inteiro, é acessível a todas as classes sociais e económicas e tem sido recentemente apontado como uma actividade eficaz na melhoria de diversos indicadores de saúde em adultos. 

Tradicionalmente praticado na sua estrutura formal (11x11), mas também em estruturas de jogo mais reduzidas (3x3, 5x5, 7x7), exige dos seus praticantes um elevado dispêndio de energia, uma enorme participação da componente aeróbica e, em muitos momentos da sua prática, frequências cardíacas (FC) médias superiores a 75% da FC máxima. 

O Futebol recreativo envolve também um conjunto variado de acções com elevada intensidade (sprints, saltos, remates) que estimulam o sistema muscular e esquelético dos seus praticantes. 

Em Portugal, o Futebol é a actividade desportiva com maior popularidade em todas as idades, classes sociais e económicas.

É um desporto capaz de oferecer às crianças e jovens, independentemente do seu peso corporal, oportunidades de diversão, recreação e sucesso, particularmente quando praticado de uma forma recreativa e treinado por profissionais motivados e sensibilizados.

Este projecto-piloto envolveu crianças e adolescentes com idades entre 8 e 13 anos e consistiu num treino de 7,5 horas de Futebol distribuídas por 3 dias da semana durante 6 meses, num ambiente altamente motivante em que cada adolescente era activamente incentivado e sistematicamente confrontado com o seu progresso.

Os resultados demonstraram uma redução significativa do Índice de Massa Corporal, da gordura corporal total, da gordura intra-abdominal, e um aumento da massa muscular, do conteúdo mineral ósseo e da densidade mineral óssea. 

Mas a vantagem da prática recreativa e bem orientada de Futebol, segundo protocolos de programação de treino e objectivos bem definidos, não se esgota na melhoria de marcadores somáticos associados a saúde. 

Efectivamente, e no que respeita aos marcadores de risco cardiometabólico, observou-se uma redução significativa no valor do colesterol total (CT), colesterol das LDL, triglicerídeos e pressão arterial diastólica e um aumento do colesterol das HDL. 

Registou-se ainda uma redução significativa nos marcadores de inflamação e de stress oxidativo (resistina, leptina e fracção oxidada das LDL).

Também na vertente comportamental se registaram mudanças significativas com a aplicação deste programa piloto de intervenção na obesidade pediátrica, particularmente nas variáveis de auto-percepção psicológica. 

Uma melhoria da imagem corporal, da auto-estima, da qualidade de vida e da percepção de sucesso pessoal e competência física foi observada em todos os participantes, mas, mais importante ainda, de referir o desenvolvimento de uma atitude de maior motivação intrínseca para a participação em actividade física. 

Salienta-se igualmente uma melhoria muito significativa da aptidão cardio-respiratória e, consequentemente, uma maior aptidão para realizar exercício prolongado com menos fadiga.

 

Considerações

A eficácia de programas recreativos de futebol em indicadores de saúde, na aptidão física e no bem-estar psicológico de crianças e jovens com excesso de peso e obesidade tem sido pouco investigada a nível mundial. 

Em Portugal, de acordo com o nosso conhecimento, não existe qualquer investigação ou programa de intervenção que tenha procurado compreender a eficácia do futebol recreativo na obesidade pediátrica e suas comorbilidades, pelo que estamos certos que este projecto permitirá equacionar a utilização deste “desporto rei” como uma forma eficaz e não dispendiosa, mas particularmente “não farmacológica”, de prevenção/redução deste grave problema de saúde pública, cujas consequências as médio-longo prazo ainda nos são impossíveis de imaginar. 


[Equipa de Investigadores: Susana Vale, Maria José Carvalho, Elisa Marques, Sandra Abreu (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto; CIAFEL); Sandra Torres (Faculdade de Psicologia, Universidade do Porto); Ana Seabra (Escola EB 2,3 Perafita); Henrique Nascimento, Luís Belo e Alice Santos-Silva [Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), Universidade do Porto. Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto]


Nota: por decisão do 1º autor o artigo não é escrito ao abrigo do “Acordo Ortográfico” 

 


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