Cultura

Portal do Fado constitui base de dados de letras e músicas

O site Portal do Fado iniciou uma base de dados on-line constituída pelas letras dos fados com os respetivos autores, a partir dos contributos dos utilizadores.

"A ideia começou por termos imensos pedidos de letras e quais as músicas, nomeadamente os [fados] tradicionais", explicou à Lusa um dos proprietários do site, Sérgio Miranda.



O site www.portaldofado.net é visitado diariamente por cerca de 2.500 pessoas, com uma acentuada fatia percentual de estrangeiros, disse à Lusa o responsável.



A equipa do Portal do Fado projetou uma base de dados que além das letras incluísse os autores, os intérpretes que gravaram, o ano de criação e outras observações de interesse.



Na área do fado esta é uma questão sensível pois uma mesma letra pode ser cantada em músicas diferentes, assim como uma música pode servir a centenas de letras diferentes.



O essencial para que melodia e letra se conjuguem é a métrica.



Sérgio Miranda reconheceu que "é uma teia complicada" mas sublinhou a necessidade de "uma memória correta" desta tradição, tanto mais que "muitas vezes surgem letras adulteradas" e autores incorretos ou nem sequer mencionados.



O investigador José Manuel Osório, por exemplo, contou à Lusa que o fado "Mãos Sujas" de Frederico de Brito, que está registado, foi durante anos atribuído a outra pessoa que "calmamente recebia os direitos de autor".



Sendo uma tradição marcadamente oral, facilita algumas trocas e involuntários erros, disse Miranda.



O gestor do Portal do Fado citou vários exemplos de cruzamentos que "baralham".



"O fado 'Rosa da Madragoa' foi criado pela Lucília do Carmo, mas a Raquel Tavares também o canta e há pequenas alterações", disse.



"A Amália por exemplo, recuperou muitos fados que eram interpretados por outras fadistas", acrescentou.



Entre outros, do repertório de Amália consta "Fado Faia", uma criação de Berta Cardoso, e também "Fado do Ciúme" ao qual cortou uma estrofe e que foi uma criação de Maria Alice.



"Nestes casos toma-se como criador o primeiro, apesar de nem sempre se ter a certeza absoluta, e acrescenta-se os outros que também gravaram o mesmo fado", esclareceu.



Um exemplo é "Fui ao Baile", criado no teatro de revista por Maria José da Guia, mas que foi gravado por Fernanda Baptista que a substituiu no teatro.



Outras situações são por exemplo, referiu, o tema "Toada do Desengano" que Mariza criou na melodia do Fado Franklin de Sextilhas, e Luísa Rocha gravou este ano, no Fado Acácio, "sendo o mesmíssimo poema de Vasco Graça Moura".



A base de dados será preenchida pelos utilizadores cabendo aos gestores do Portal fazer a confirmação e procurar as fontes seguras da autoria, o que passa por "um trabalho mais sério com a Sociedade Portuguesa de Autores, mas também instituições que estão no meio como o Museu do Fado ou a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF)".



A equipa do Portal, constituída por Sérgio Miranda (designer gráfico) e Miguel Amaral (guitarrista de fado), reconhece que a base de dados é uma ciclópica tarefa.



Iniciada há cerca de um mês, a base de dados tem já registados 333 fados de Lisboa, 14 de Coimbra e ainda 19 na categoria "vários" em que se incluem temas como "Senhor Extraterreste" (Carlos Paião) criação de Amália, ou "A Morte Saiu à Rua" (José Afonso) criado pelo próprio autor.



Lusa