Cultura

Lembra-se de Tintim? O repórter belga faz 90 anos

Yves Herman

Criado pela mão de Hergé, o universo de "As Aventuras de Tintim" conquistou milhares de fãs ao longo de 90 anos. Por ocasião do seu aniversário, a 10 de janeiro, fazemos uma viagem pela banda desenhada e recordamos algumas personagens.

"Les aventures de Tintin", no original, é obra de Georges Remi – Hergé, como é mais conhecido – e nasceu em 1929 no suplemento infantil Le Petit Vingtième. Publicada semanalmente, a banda desenhada era transformada em livro no final de cada história. O protagonista, um jovem repórter belga, conquistou o mundo.

O sucesso foi tanto que, 17 anos mais tarde, já depois da estreia em Portugal, Tintim ganhou uma revista com o seu nome, Le Journal de Tintin, um periódico que reunia as aventuras do repórter. Traduzido em mais de 50 línguas e com mais de 200 milhões de cópias vendidas, Tintim tornou-se um clássico dos “7 aos 77”.

A chegada a Portugal

Portugal foi o primeiro país não francófono a traduzir Tintim. Publicado pela primeira vez na revista “O Papagaio” - um suplemento infantil da Rádio Renascença - foi importado pelo diretor, Adolfo Simões Muller, que, numa visita à Bélgica, foi surpreendido pela qualidade da obra de Hergé.

O primeiro número em português surgiu em abril de 1936 com “Tim-Tim na América do Norte”, o terceiro episódio concebido pelo autor, em que o personagem viaja até Chicago, nos Estados Unidos, para combater os criminosos da cidade. Para além da tradução, “O Papagaio” foi pioneiro ao dar cor a Tintim, que até então se apresentava a preto e branco.

O nacionalismo da época transformou Tintim num repórter ao serviço da revista portuguesa, e em vez de visitar o Congo, no segundo episódio, visitou Angola, na altura colónia portuguesa. Num dos quadrados do original “Tintim no Congo”, uma aula de Geografia com um mapa da Bélgica é também transformada numa aula de Matemática na versão portuguesa.

Tintim pintou as páginas da revista juvenil durante 12 anos. O então diretor assegurou que a sua saída não simbolizaria o fim da personagem e levou-a consigo para outras publicações que dirigiu - “Diabrete”, “Cavaleiro Andante”, “Foguetão” e “Zorro” - até que, em 1968, chegou a revista “Tintim”, que continuou com as aventuras do personagem que lhe deu nome.

Da imprensa para os ecrãs

O êxito internacional da banda desenhada levou à adaptação aos ecrãs. Em solo português, Tintim estreou numa versão animada na RTP, nos anos 80, numa série com cerca de 100 episódios de apenas cinco minutos cada. Alguns anos mais tarde, foi transmitida também no Canal Panda, na RTP2 e na SIC K.

Em 1991, surgiu aquela que será, porventura, para os fãs, a série mais famosa, e que pode ser revista na Netflix.

As aventuras de Tintim não se limitaram à série de sucesso que conquistou os portugueses e, já na década de 40, o personagem de Hergé se passeava pelo cinema. O primeiro filme surge em 1947, “Le Crabe aux Pinces d'Or” (em português, “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”), uma longa-metragem de animação “stop-motion” que contou apenas com uma exibição pública.

“Tintin et le Mystère de la Toison d'Or” foi a primeira adaptação ao cinema com cenários e atores reais, o denominado “live-action”. Realizado por Jean-Jacques Vierne, foi exibido pela primeira vez a 6 de dezembro de 1961.

Esta aventura leva o repórter belga e o Capitão Haddock a Istambul, onde se vêm envolvidos no mistério do navio Tosão de Ouro. A sequela “O Mistério das Laranjas Azuis” não teve o mesmo sucesso.

Tintim teve direito a mais duas longas-metragens animadas, em 1969 e 1972: “O Templo do Sol” e “O Lago dos Tubarões” respetivamente. Cerca de quatro décadas depois, voltou ao grande ecrã por força do sonho de Steven Spielberg, numa adaptação audiovisual mais moderna.

Sabia que...

Na tradução para a língua portuguesa, houve alterações que provocaram alguma polémica? Milou, o fiel companheiro de Tintim, passou a ser a cadela Rom-Rom. Apesar de ter sido sempre um cão, e com outro nome, a parecença de Milou com Milú, nome de uma jovem que na altura cantava nas emissões radiofónicas de «O Papagaio», terá originado a troca de sexo.

Hergé criou personagens portuguesas? Oliveira de Figueira foi uma delas. Era um comerciante lisboeta, que em “Os charutos do faraó” vende as suas mercadorias no deserto de Khemed, um país fictício da história. Em “Tintim no Congo”, o repórter é assediado por três representantes de jornais, um deles do “Diário de Lisboa”. Por último, um físico da Universidade de Coimbra participa numa expedição em “A Estrela Misteriosa”.

Hergé foi acusado de racismo? O episódio que transporta Tintim até ao Congo foi acusado por várias vezes de racismo, mas em 2007, um congolês decidiu mesmo levar o caso a julgamento. Mbutu Mondondo exigia que as edições desta história fossem retiradas do mercado ou, em alternativa, acompanhadas de um prefácio que explicasse o contexto político e cultural da altura. O homem, que viu os pedidos serem recusados pela Justiça belga, criticava a apologia da colonização e a superioridade da raça branca sobre a negra.

Tintim foi símbolo de resistência ao terrorismo? Em março de 2016, os internautas recorreram à imagem do personagem para reagir ao ataque em Bruxelas que fez mais de 30 mortos. As “lágrimas” de Tintim refletiram a onda de solidariedade pelo mundo, depois de explosões no aeroporto e metro.

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Objetos relacionados com o universo Tintim valem centenas de milhares de euros? É o caso da capa original de "Tintim no Tibete", vendida por 285 mil euros num leilão em Paris, em 2014, e dos desenhos vendidos por 364 mil euros no Texas, EUA, no verão do ano passado.

Há uma “The Tintin Shop” em Lisboa? Abriu em março de 2018 e é a primeira loja oficial de Hergé em Portugal. Há livros, figuras de ação, t-shirts e muitas outras peças de coleção. Fica na Rua da Junqueira e diz ser uma porta aberta para os maiores fãs.

Facebook The Tintin Shop Lisboa

Há quem se intitule de Tintinófilo? Em Portugal, há vários blogues e clubes de fãs das Aventuras de Tintim. Há mesmo quem combine encontros para partilhar a paixão. Timtim por Timtim, Tintim em Portugal ou o Blog Tintinófilo são algumas das plataformas portuguesas que reúnem informações e partilham novidades sobre o universo do repórter belga.

90 anos depois, Tintim mantém-se um clássico. A obra de Hergé continua a chegar ao público mesmo depois da sua morte, em 1983. A sequela do filme produzido por Spielberg em 2011 deverá chegar às salas de cinema nos próximos três anos.

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