Cimeira do Clima

Ano de 2018 está em vias de se tornar um dos mais quentes de sempre

© Stephane Mahe / Reuters

O ano de 2018 deverá terminar no 4º lugar dos mais quentes jamais registados, alerta a ONU, avisando para a extrema urgência da situação num relatório publicado na véspera da cimeira do clima COP24. É que as temperaturas globais estão em vias de aumentar entre 3ºC a 5ºC até ao final do século, muito acima do limite estabelecido no Acordo de Paris de 2ºC.

Na declaração provisória sobre o estado do clima mundial, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) diz que a temperatura média à superfície do globo, nos 10 primeiros meses do ano, era superior em quase 1ºC em relação aos valores da era pré-industrial (1850-1900).

Por essa razão "2018 anuncia ser o quarto ano mais quente alguma vez registado", afirma a agência da ONU para o clima.

Mais ainda: a tendência do aquecimento global a longo prazo "é evidente e prossegue", declarou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas

OMM

Temperaturas globais podem aumentar entre 3ºC a 5ºC

Uma vez que a emissão dos gases com efeito de estufa - os principais responsáveis para o aquecimento global - continua a aumentar, a "temperatura (global) arrisca aumentar entre 3ºC a 5ºC até ao final do século se esta tendência se mantiver", alerta o responsável da OMM.

"Se continuarmos a explorar todos os combustíveis fósseis que conhecemos, o aumento da temperatura será consideravelmente mais elevado", garantiu.

Este relatório surge a três dias do início do COP24, cimeira do clima a decorrer em Katowice, Polónia, onde a comunidade internacional vai analisar o Acordo de Paris e a meta estabelecida de limitar o aquecimento global a 2ºC, ou seja, 1,5ºC em relação aos níveis verificados na Revolução Industrial.

Segundo os peritos da ONU, é tecnicamente possível alcançar esse objetivo se alterarmos o nosso modo de vida, os sistemas energéticos e as redes de transporte.

COP24: Ambientalistas entre o ceticismo e alguma esperança

Especialistas e responsáveis mundiais reúnem-se entre domingo e 14 de dezembro em Katowice, na Polónia, na 24.ª Conferência das Partes (COP24) da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, mas ambientalistas ouvidos pela Lusa revelam mais ceticismo do que esperança em bons resultados e pedem coragem política.

"As pessoas estão preocupadas com as alterações climáticas, mas não estão dispostas a mudar. Estarão os governos dispostos a mudar as condições das pessoas?", pergunta Eugénio Sequeira, presidente da Liga para a Proteção da Natureza (LPN).

Francisco Ferreira, da organização ambientalista ZERO, diz tratar-se de uma reunião muito importante e decisiva, porque serão aprovadas as regras do Acordo de Paris sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa, alcançado há precisamente três anos, bem como o aumento da ambição das metas aí traçadas, insuficientes para garantir que a temperatura não aumenta mais de 1,5º celsius em relação aos níveis pré-industriais, valor acima do qual os efeitos das alterações climática se tornarão extremos.

Mas Eugénio Sequeira e João Branco, presidente da associação ambientalista Quercus, são menos otimistas. "As expectativas não são grandes porque as coisas não estão a correr bem a nível global", disse João Branco à Lusa.

Eugénio Sequeira, especialista em desertificação, até diz que espera muito da COP24 mas acrescenta que é pouco provável que tal aconteça, "porque os políticos reagem à opinião das pessoas e se as pessoas não querem mudar os políticos podem não estar dispostos a mudar".

Mas, frisa, "é preciso que se faça alguma coisa", é preciso que o mundo se adapte às alterações climáticas e que minore os seus efeitos. E dá um exemplo português, o do montado no Alentejo, que "defende" o país do deserto, mas que está a ser afetado pela mudança no clima. "As pessoas não reagem a isto. E como as pessoas não reagem os políticos não reagem".

É por isso que, diz, tem esperança que os políticos percebam a responsabilidade que têm e que tenham coragem para tomar medidas durante a reunião na Polónia.

Francisco Ferreira, que estará na COP24, diz que se os políticos tiverem coragem para tomar medidas "é papel das organizações ambientalistas apoiar e informar sobre as consequências de não as tomar".

O responsável da ZERO lembra o último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que adverte sobre a necessidade de transformações "rápidas e sem precedentes" nos sistemas de energia, transportes, construção e indústria para limitar o aquecimento global.

Para o ambientalista, não se pode perder mais tempo e a COP24 tem de ser decisiva.

"Políticos e população têm que ser informados, os relatórios científicos estão aí, e as populações que não querem aumentos de impostos nem ser penalizadas acabarão por ser confrontadas com a "hora da verdade". Tem de haver habilidade política dos decisores para envolver as pessoas", diz.

Medianamente otimista quanto a resultados, Francisco Ferreira afirma que pior era não existir este tipo de reuniões e que alguns avanços têm sido feitos, acrescenta que a pressão para decidir está a aumentar e deixa um aviso: "Na Polónia temos de apontar o caminho para grandes decisões. Adiar decisões vai sair muito caro".

João Branco tem uma visão mais pessimista, e ainda que considere a COP24 importante também diz que pode ser para "cumprir calendário", tanto mais que uma coisa é o que se diz nestas reuniões e outra as reais políticas dos países.

"O consumo e a produção de petróleo continua a subir. Hoje são quase 100 milhões de barris por dia, contra os 90 milhões de 2013. Todos os dias, inclusivamente em Portugal, há novos investimentos na exploração do petróleo", afirma.

Portugal, nas palavras do presidente da Quercus, até é um país com reais preocupações ambientais. Mas Portugal representa 0,15% da população mundial, "e países como a China, a Rússia, o Brasil, a África do Sul, exploram todas as fontes de gás, petróleo e carvão".

João Branco é cético quanto à COP24, questiona novas metas de redução de emissões de gases quando "nem sequer estão a ser cumpridas" as atuais, garante que há emissões de dióxido de carbono não contabilizadas e adianta que há falta de informação geral. "Procure os compromissos de cada país sobre o Acordo de Paris e não vai encontrar. Se queremos saber as emissões de cada país não conseguimos".

Nas declarações à Lusa João Branco coincide com Francisco Ferreira quando diz que com os compromissos atuais as temperaturas vão subir mais de três graus no fim do século. E coincide com Eugénio Sequeira, quando refere que as alterações climáticas causam fenómenos extremos, mas também estão a causar alterações mais subtis, como a destruição do sobreiro.

E coincidirá com os dois na ideia de que as atuais gerações pouco estão a fazer pelos seus filhos e netos. E até por elas próprias.

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