Crise Migratória na Europa

Aquarius forçado a pôr fim às missões de resgate

Guglielmo Mangiapane

Patrícia Almeida

Patrícia Almeida

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Jornalista

Médicos Sem Fronteiras e SOS Mediterrâneo atiram a toalha ao chão. A gota de água foram as acusações do Governo italiano.

"Este é um dia negro" disse Nelke Manders, diretor-geral dos Médicos Sem Fronteiras. A Europa não só não forneceu meios de busca e resgate, como sabotou ativamente as tentativas de salvar vidas".

E assim se anuncia o final de uma missão que, desde 2016, assistiu 30.000 pessoas do Mediterrâneo.

Os Médicos Sem Fronteiras apontam o dedo à Europa e ao Governo italiano. Roma acusa as associações que fretaram o Aquarius de despejar resíduos médicos potencialmente perigosos no mar. Os responsáveis pelo navio negam e acusam a justiça italiana de "criminalizar missões humanitárias de busca e salvamento".

"Este é o resultado de uma campanha sustentada, encabeçada pelo governo italiano e apoiada por outros estados Europeus, tirar legitimidade, difamar e obstruir organizações de ajuda que prestam assistência a pessoas vulneráveis"

"Nos últimos 18 meses, os ataques dos Estados da União Europeia à ajuda humanitária e operações de resgate foram baseados nas táticas usadas em alguns dos estados mais repressivos do mundo."

Mais de 2.000 pessoas perderam a vida no Mediterrâneo em 2018

Enquanto se joga o ping-pong das palavras, no mar perdem-se vidas. De acordo uma estimativa dos Médicos Sem Fronteiras só este ano terão morrido 2.133 pessoas, a maioria migrantes vindos da Líbia.

Bandeiras recusadas

O Aquarius está em escala técnica no porto de Marselha desde 20 de agosto, depois de ter sido notificado pelas autoridades de Gibraltar de que iria deixar de constar do registo naval.

Os responsáveis pelo navio tiveram de dar início a um novo processo de registo.

Em setembro tudo parecia estar resolvido. O navio ganhou novo nome, nova bandeira e voltou ao mar. "O Aquarius vai navegar sob bandeira do Panamá e teve de ser oficialmente renomeado como Aquarius 2", explicava à Lusa a responsável de imprensa, Mathilde Auvillain.

Mas tudo mudou em outubro. A Autoridade Marítima do Panamá retirou o pavilhão ao navio, com base em queixas das autoridades italianas de que o capitão se recusou a devolver à origem imigrantes e refugiados resgatados no mar. Mais uma acusação que as ONG negaram.

A última missão do Aquarius

Desde 4 de outubro que o Aquarius não se faz ao mar. Na última missão de busca e salvamento o navio atracou no porto de Marselha após o resgate de 58 pessoas.

O navio está "encalhado" em Marselha, França, mediante uma autorização "por razões humanitárias".

Só pode voltar a navegar se algum país lhe atribuir bandeira. Várias organizações de direitos humanos apelaram para a "atuação urgente" dos líderes europeus. O Bloco de Esquerda chegou a propor bandeira nacional, mas o ministro dos Negócios estrangeiros respondeu "não ser solução" para o Aquarius.

O Aquarius navegou por águas do Mediterrâneo, em missão humanitária com a SOS Méditerranée e os Médicos Sem Fronteiras, desde 2016, sempre com obstáculos.

Em agosto, após o resgate de 141 migrantes "esteve à deriva" depois de Itália e Malta ter recusado o desembarque dos migrantes.

O impasse durou alguns dias até vários países europeus, incluindo Portugal, aceitaram acolher os migrantes.

Juntamente com os navios de busca e salvamento anteriores dos Médicos Sem Fronteiras (Bourbon Argos, Dignity, Prudence e Phoenix) já foram resgatadas mais de 80.000 pessoas no Mar Mediterrâneo desde 2015.

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