Festivais 2018

"Imagino que posso mudar a vida de alguém como eles mudam a minha"

Entrevista

Agencia Zero

Soraia Pires

Jornalista

Manel Cruz atuou esta sexta-feira no Palco Music Valley do Rock in Rio Lisboa. Depois do concerto, o músico falou sobre o trabalho atual e alguns singles mais antigos e contou ainda como foi a experiência de atuar na cidade do rock.

Como é que correu o concerto de hoje?

Manel Cruz: Correu bem. Eu acho que correu muito bem.

Apesar da chuva, tinhas ali um público muito fiel.

MC: Sim, apesar da chuva, tinha ali um público muito fiel e que criou um ambiente muito intimista. Foi fixe.

Sentiste muita diferença entre este palco e outros onde já atuaste, como o do Primavera ou o de Paredes de Coura?

MC: Não. Opá, uma coisa que tenho a dizer sobre este concerto - e não é que não tenha acontecido nos outros, mas a memória é curta - é que hoje estava um som do caraças. Que é uma coisa rara nos festivais, não porque não tenham bom material mas porque é difícil conseguires, nestes prazos pequeninos de montagem, uma cena rápida que soa bem e tal. Mas hoje correu bem, foi muito fixe.

Como é o teu processo criativo em relação às canções? Há uns tempos, numa entrevista, disseste que gostas de inventar. És assim com as tuas canções?

MC: Sim, basicamente é mesmo isso. É uma brincadeira, no fundo. É criar um lugar, quase uma brincadeira de puto e acho que essa é a parte mais fixe. Claro que no trabalho há momentos que são chatos, faz parte. Mas, acima de tudo, o impulso para fazer o que faço vem daí. No dia em que deixar de ter isso, não vou trabalhar mas passo a fazer outra coisa porque acho que isso é muito importante conseguirmos estar fixes com o trabalho. Gostarmos daquilo que fazemos é essencial.

Em relação aos teus trabalhos anteriores, os dois singles que lançaste ("Cães e Ossos" e "Ainda não Acabei") são mais positivos. Isto acontece porque estás numa fase mais tranquila da tua vida?

MC: Opá, efetivamente, acho que há coisa que estão a mudar. Não posso falar muito porque amanhã posso estar a tomar Prozac (risos), mas um exemplo disso é a questão do "ao vivo". Eu sempre fui mais de laboratório e da parte de não envolver tanto a minha pessoa física e sempre foi algo que me deixou alguma angústia porque é sempre mais confortável estar em laboratório, embora tentasse. E tentava gostar ao máximo de tocar ao vivo, mas não era a cena que mais gostava. Mas agora esta coisa tem outro lado: tem a parte do criar e a do tocar ao vivo e fiquei muito contente por ter percebido isso. Mas há coisas que contribuem para isso, talvez desmistificar algumas coisas. Deixares de dar tanta importância e perceber que és mais um no meio de milhentos e fazer mil coisas. Isso, por um lado, pode deixar-te desanimado mas é um alívio porque a tua responsabilidade é muito menor.

E também te dá mais liberdade para criar, não é?

MC: Sim, é isso. Há mais diversão. Esta coisa da ética e da estética estarem às vezes colados. Mas tem de ser muito mais livre do que isso. E às vezes pensas que estás a ser livre porque está a romper com isto e aquilo, mas depois não estás a romper com o mais importante que são os teus dogmas. E acho que isso é muito positivo. E depois há outro motivo pelo qual posso estar mais positivo que são as pessoas com quem estou a tocar. Sempre toquei com pessoas que gosto muito, mas neste momento da minha vida isso significa contribui muito para que as coisas aconteçam bem. Divertimo-nos muito, somos muito amigos, divertimo-nos cada vez mais nos ensaios e nos concertos. Quanto mais intimidade temos, mais nos divertimos, que era uma coisa que o Mário Pereira, o nosso técnico dos Ornatos Violeta, nos dizia: não te esqueças de curtir. E eu às vezes esquecia-me, estava muito concentrado para não falhar em nada. E agora se der um "prego" nos concertos, dou. Que se lixe. Eu acho que o pessoal até gosta mais quando sai um prego (risos).

Fomos ver alguns comentários que fizeram no YouTube em relação às tuas mais recentes canções ("Cães e Ossos" e "Ainda não acabei") e gostávamos de te ler alguns deles para depois nos dizeres o que fica daquilo que ouviste:

- És o melhor da atualidade. Lambuzo-me com as tuas letras. Muitos parabéns;
- Ainda bem que este homem não acabou. Obrigado, Manel;
- Tal como a minha irmã Inês disse: o poeta voltou... porque ainda não acabou. Obrigada;
- Esta música reconcilia-nos com a vida.

Portanto, as pessoas têm-te como um poeta...

MC: É gratificante ouvir estas coisas. É incrível. Ser poeta não interessa nada, interessa é o que eles têm a dizer. É muito bom ouvir isto, fogo. É o melhor que podia ouvir.

As pessoas sentem realmente muito com as tuas letras.

MC: Sim. Eu também tenho muitos artistas que mexem comigo e costumo fazer esse paralelo. Imagino que posso mudar a vida de alguém como eles mudam a minha...

Pões-te muitas vezes no papel dos fãs?

MC: Milhentas vezes. O paralelo é mesmo esse. Somos todos pessoas e aqui há uns tempos vi passar um ator das "Portas dos Fundos", muito engraçado. E ele estava a passar nas escadas e o meu impulso foi chegar-me perto dele, o impulso foi esse, do género: epá, eu conheço-o mesmo bem. E só quem andar a dormir é que não percebe que é esse o impulso. Às vezes pode ser estranho porque sabes que as pessoas conhecem aquilo que tu fazes e sabem que tu sabes que não as conheces. Mas, ao mesmo tempo, de alguma forma conhecem-te. Se calhar até te conhecem melhor do que tu.

Uma última pergunta: continuas a desenhar?

MC: Continuo, sim.

É algo que também te dá muito prazer como tocar ao vivo?

MC: Sim, dá-me um prazer imenso. Desde pequeno que desenho e sempre ocupou um papel muito importante na minha vida. Aliás, eu sempre tive aquela angústia da gaveta, sabes? De as coisas ficarem fechadas numa gaveta. Mas agora penso: opá, mas a gaveta existe. Está lá. E volta e meia pego nas coisas, imagino que vou lançar um livro assim. Mas aquele momento em que estou a desenhar é bom, é super relaxante e isso, por si só, já assume um papel. E penso sempre que vai haver um dia em que já não vou conseguir segurar na guitarra e a caneta é mais leve (risos). Tenho muita vontade agora de começar a fazer umas coisas no capítulo do desenho, porque nunca editei nada. Não editei nada, não é bem assim: quando era mais puto fazia bandas desenhadas, cheguei a colaborar com uns jornais, umas cenas mais casuais. E nunca se sabe.

Obrigada, Manel.

Veja aqui a entrevista.

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