Revista do Ano 2017

O Desporto em 2017

O ano desportivo de 2017 ficou marcado pela continuação da consagração de Cristiano Ronaldo como melhor futebolista do mundo; as suspeitas em torno do futebol português, motivadas pelo caso dos mails e pela Operação Jogo Duplo; a investigação a Jorge Mendes, José Mourinho e Ronaldo por suspeitas de fuga ao fisco espanhol; o tetracampeonato conquistado pelo Benfica; a longevidade de Pinto da Costa na presidência do FC Porto; a introdução do videoárbitro na Primeira Liga de futebol; a histórica participação de Portugal na Taça das Confederações; as conquistas mais relevantes dos treinadores portugueses no estrangeiro; a transferência mais cara da história do futebol (que envolveu um português); o apuramento inédito de Portugal para um Europeu de futebol feminino e as conquistas protagonizadas por portugueses no atletismo, no motociclismo, na canoagem e no futsal.

NO TOPO DO MUNDO

2017 acaba como começou para Cristiano Ronaldo. Depois da distinção em janeiro, o internacional português voltou a ser considerado pela FIFA o melhor futebolista do mundo, reconhecimento repetido mês e meio depois, na atribuição da quinta Bola de Ouro da carreira pela revista France Football.

Ronaldo continua a reforçar o estatuto de um dos melhores jogadores da história do futebol, um patamar que o próprio admite que ocupa... de forma isolada.

Neste último ano, o avançado do Real Madrid continuou a somar prémios, individuais e coletivos, e a bater recorde atrás de recorde. Messi está igualado mas, para Ronaldo, o fim de linha ainda está longe:

CLIMA DE SUSPEIÇÃO NO FUTEBOL PORTUGUÊS

Nem tudo foram boas notícias para o futebol português em 2017. A prová-lo estão dois casos, com um deles a encher horas de emissão televisiva, em espaços noticiosos e de opinião, bem como páginas de jornais, em papel e na internet.

Falamos do mediático caso dos mails e da Operação Jogo Duplo (já lá vamos).

A polémica estalou em junho quando o diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, prometia denunciar, num espaço televisivo do Porto Canal, um "esquema de corrupção para beneficiar o Benfica". Nessa noite de 6 de junho, leu um alegado mail trocado entre Pedro Guerra, comentador afeto ao Benfica, e Adão Mendes, ex-árbitro, no qual era referido que os encarnados controlavam a arbitragem na época de 2013/2014.

Daí em diante, semana após semana, no mesmo programa televisivo, entre serviços de bruxaria e atrizes norte-americanas (deu até para escrever um livro), o responsável pela comunicação dos dragões continuou a revelar trocas de correspondência eletrónica que envolviam pessoas ligadas ao Benfica e à arbitragem.

A resposta encarnada surge em novembro, num formato semelhante. O programa "Chama Imensa" é lançado na BTV e promete revelar os "nomes do novo Apito Dourado", numa estrutura alegadamente criada pelo FC Porto.

Já a resposta judicial ao caso está a ser dada pela Polícia Judiciária. Contudo, já em novembro, a Federação Portuguesa de Futebol anunciou ter feito uma denúncia à PJ e à Procuradoria-Geral da República da alegada partilha de documentos internos do organismo com pessoas externas. Isto aconteceu depois de ter sido noticiado que Pedro Guerra (o comentador afeto ao Benfica mencionado no primeiro mail revelado por Francisco J. Marques) teria recebido documentos internos da Federação, através de Horácio Piriquito, membro do Conselho Fiscal do organismo.

(Arquivo)

(Arquivo)

Um outro caso manchou a reputação do futebol português este ano. A Operação Jogo Duplo levou à detenção, em março, de cinco jogadores e um membro da claque Super Dragões, do FC Porto, por suspeitas de corrupção e combinação de resultados na II Liga. Todos acabaram por sair em liberdade.

Isto depois de, no ano anterior, quando o caso começou a ser investigado, 12 dos 15 arguidos terem saído também em liberdade, com apenas três a ficarem em prisão preventiva.

O processo levou a Liga a criar um Departamento de Integridade Desportiva, com o objetivo de combater as apostas ilegais e os resultados combinados.

RONALDO, MENDES E MOURINHO SOB ALÇADA DO FISCO ESPANHOL

Os casos de fuga ao fisco protagonizados por desportistas tornaram-se, nos últimos anos, cada vez mais recorrentes. Mas quando as suspeitas recaíram sobre o melhor jogador do mundo, tudo ganhou uma dimensão diferente.

Foi em junho que o Ministério Público de Madrid acusou Cristiano Ronaldo de quatro crimes de fraude fiscal, com o avançado do Real Madrid a ser acusado de defraudar as Finanças em Espanha em 14,7 milhões de euros. Ronaldo dizia estar "de consciência tranquila":

A fuga ao fisco teria ocorrido entre 2011 e 2014 e o internacional português arriscava uma multa superior a 30 milhões de euros e até uma pena de prisão efetiva de pelo menos sete anos.

As suspeitas atingiram, de diferentes formas, várias estrelas do futebol espanhol e internacional, com a própria Gestifute - empresa de gestão de carreiras de desportistas, fundada pelo agente português Jorge Mendes - a ver-se envolvida.

Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo

Jorge Mendes e Cristiano Ronaldo

Sergio Perez

Chegou a ser noticiada a intenção de Ronaldo de sair de Espanha e deixar o Real Madrid mas tal não se veio a concretizar. Em julho, o craque português reiterou que "nunca houve ocultação nas declarações de impostos nem a menor intenção de evasão", durante o interrogatório num tribunal de Madrid.

Javier Barbancho

UM TETRA PARA A HISTÓRIA

No jogo jogado, que é o que verdadeiramente interessa, o Benfica confirmou, na última época, o período hegemónico que vive no futebol nacional, com a conquista do tetracampeonato (quatro títulos consecutivos) - um feito inédito na história do clube. O 36 foi confirmado com uma goleada caseira frente ao Vitória de Guimarães:

As águias terminaram a Liga com seis pontos de vantagem sobre o FC Porto (2.º classificado) e 12 sobre o Sporting (3.º) e fecharam a temporada em beleza, com a conquista da 26.ª Taça de Portugal da história do clube:

35 ANOS DE PINTO DA COSTA

Apesar da ausência de títulos nas últimas quatro épocas, 2017 foi especial para o mandato de Pinto da Costa. Tornou-se no presidente com maior longevidade na história do futebol - 35 anos.

São três décadas e meia marcadas pela conquista de dezenas de títulos no futebol e em diversas outras modalidades mas marcadas, sobretudo, pela ascensão do FC Porto a um estatuto de potência do desporto europeu.

A CHEGADA DO VIDEOÁRBITRO

Depois de muitos testes ao longo da última época e da estreia oficial na final da Taça de Portugal, o videoárbitro chegou para ficar esta temporada. Uma chegada que tem sido tudo menos consensual.

Esta primeira (quase) metade de campeonato tem sido marcada por críticas de treinadores e dirigentes, bem como diferentes polémicas motivadas pela atuação (ou ausência dela) do videoárbitro, com consequências bastante graves para os intervenientes.

Nem a divulgação das comunicações apaziguou a apreensão em torno do novo sistema. Ainda assim, o videoárbitro veio mesmo para ficar. Por cá e também lá fora. O Presidente da Liga pede tempo para que haja uma boa implementação do VAR:

DO TOPO DA EUROPA À ESTREIA NAS CONFEDERAÇÕES

Depois da histórica conquista do Euro 2016, em França, a seleção nacional ganhou direito a uma entrada inédita na Taça das Confederações - competição que reúne os melhores dos melhores nos diferentes continentes.

Após uma estreia tremida frente ao México, dois triunfos sólidos, perante a anfitriã Rússia e a Nova Zelândia permitiram o apuramento para as meias-finais.Lá, Portugal caiu apenas no desempate por penáltis, diante da congénere chilena. A honra nacional ficou salvaguardada no jogo de atribuição dos 3.º e 4.º lugares, com a equipa comandada por Fernando Santos a fechar a participação no pódio:

Na final, a vitória sorriu à campeã mundial Alemanha:

Em outubro, e após uma fase de qualificação quase imaculada (9 vitórias em 10 jogos), os campeões europeus carimbaram o passaporte para o campeonato do mundo, que decorre no próximo ano, na Rússia, e onde, na fase de grupos, Portugal vai medir forças com Espanha, Marrocos e Irão.

UM JARDIM DE MOURINHOS POR ESSE MUNDO FORA

A combinação entre ser treinador de futebol e ser português simboliza cada vez mais uma parceria que só pode dar em sucesso. Os últimos anos têm confirmado essa tendência e a última época não foi exceção. Leonardo Jardim e José Mourinho foram os expoentes máximos desse estatuto.

Jardim teve a capacidade de tornar risíveis os muitos milhões gastos pelo rival PSG em contratações e salários. Levou o Mónaco ao título francês, após um jejum que durava há 17 anos, e atingiu as meias-finais da Liga dos Campeões, numa temporada de recordes para a equipa monegasca (156 golos em todas as competições; 31 jogos consecutivos a marcar no campeonato e 52 pontos, em 57 possíveis, nos 19 jogos caseiros).

Mourinho mostrou que está como o vinho do Porto e, na época de estreia no Manchester United, comandou os red devils nas conquistas da Supertaça, da Taça da Liga Inglesa e, mais importante, da Liga Europa.

Destaque ainda para o título ucraniano alcançado por Paulo Fonseca no Shakhtar Donetsk (um ciclo triunfal que prossegue esta temporada, com o emblema do leste da Europa a impor a primeira derrota da época ao milionário Manchester City, de Guardiola) e para Carlos Queiroz, que conseguiu qualificar a seleção iraniana para o Mundial 2018.

Paulo Fonseca celebra com os jogadores do Shakhtar

Paulo Fonseca celebra com os jogadores do Shakhtar

Gleb Garanich

Carlos Queiroz

Carlos Queiroz

Jason Reed

MILHÕES INÉDITOS POR NEYMAR

No último mercado de transferências, os clubes voltaram a movimentar muitos milhões de euros, de forma a garantir as melhores contratações. A ida de Dembelé de Dortmund para Barcelona (105 M€), a curta viagem de Mbappé do Mónaco até Paris (empréstimo com cláusula de compra obrigatória fixada nos 180 M€) e até a saída do português Bernardo Silva do Mónaco para o Manchester City (40 M€) foram bons exemplos desse forte investimento.

Ainda assim, nenhuma delas superou aquela que passou a deter o estatuto de transferência mais cara da história do futebol: o Paris Saint-Germain contratou o avançado brasileiro Neymar ao Barcelona por 222 (!) milhões de euros.

O estado de graça na Catalunha já tinha há muito acabado para Neymar. A saída era uma exigência pessoal e a abertura de portas, aliada aos petrodólares que comandam o PSG, foram suficientes para convencer o jovem craque a tornar-se o novo príncipe da capital francesa.

Christian Hartmann

Uma transferência recorde que teve o carimbo de um português: Antero Henrique. O ex-vice-presidente do FC Porto assumiu a direção desportiva do PSG e, logo no primeiro mercado, viu-se envolvido num dos negócios mais mediáticos da história do futebol.

Antero Henrique

Antero Henrique

JOS\303\211 COELHO

AS SENHORAS TAMBÉM TÊM O DOM

2017 foi um ano histórico para o futebol feminino português, com a seleção nacional a participar, pela primeira vez, na fase final de um Europeu da categoria.

A estreia não foi tão negativa, como muitos preconizavam, e apesar de não terem passado a fase de grupos, as jogadoras portuguesas alcançaram outro feito histórico: a primeira vitória de sempre em Europeus, frente à Escócia (2-1).

DIOGO PINTO-FPF

O próximo desafio? Chegar ao Mundial 2019, que se vai realizar em França.

DIOGO PINTO-FPF

AO RITMO VITORIOSO DE NELSON E INÊS

O atletismo português continua a prestigiar-se por esse mundo fora. E se um (Nelson Évora) já nos habituou a voos triunfais, a outra (Inês Henriques) marchou para um ouro que nunca ninguém antes havia conquistado.

Comecemos pelas senhoras. Foi nos Mundiais de atletismo deste ano, que decorreram em Londres, que Inês Henriques se tornou a primeira campeã mundial de sempre dos 50 km marcha, na estreia da prova no feminino em campeonatos do mundo.

Não só venceu como bateu um recorde mundial... que já lhe pertencia:

Foi, de forma meritória, recebida em festa no regresso a Portugal, com a certeza de que uma das principais missões - "dar o exemplo e fazer a diferença" - tinha sido cumprida. Depois da estreia nos Mundiais, a marchadora portuguesa quer agora que a prova feminina de 50 km se estenda também aos Europeus do próximo ano.

A outra medalha portuguesa conquistada na capital britânica foi alcançada por um expert nestas andanças. Nelson Évora saltou para o bronze - a oitava medalha em grandes competições na última década - com 17,19 metros.

Aos 33 anos, Évora voltou a subir ao pódio "contra tudo e contra todos". O apelo após mais uma conquista? "Nunca desistam e rodeiem-se de pessoas positivas". Palavras de um campeão.

SPEEDY OLIVEIRA

Do tartan para as pistas. Muda a superfície mas em nada se altera o talento luso para triunfar por esse mundo fora. Exemplo disso é Miguel Oliveira.

O piloto português alcançou um brilhante 3.º lugar no Mundial de Moto2 (segunda categoria do motociclismo, logo a seguir ao MotoGP), num fim de época dourado. Não foi uma nem duas, foram três as vitórias de Miguel Oliveira nos últimos três Grandes Prémios da temporada.

E porque a pressa, neste caso, dificilmente é inimiga da perfeição, o piloto luso não quer sair do pódio... nem 'a brincar'.

MEDALHAS APIMENTADAS

Fernando Pimenta tornou-se, nos últimos anos, uma das maiores referências da canoagem internacional e 2017 foi de ouro para o canoísta português.

Depois da prata em K1 5.000 e do título europeu em K1 1.000 metros, em julho, Pimenta queria mais e, apenas um mês depois, chegavam os Mundiais. Após uma prata que não foi ouro por milésimos de segundo, em K1 1.000, o tão ambicionado título mundial chegou em K1 5.000 metros. À chegada a Portugal, o sentimento era de missão cumprida:

Nos Europeus de julho, destaque também para a prata alcançada pela dupla Joana Vasconcelos e Francisca Laia em K2 200 metros.

RICARDINHO OU RICARDÃO?

O nome em nada lhe diminui o talento incomparável para o futsal. A prová-lo esteve a distinção, pela quarta vez (terceira consecutiva), como melhor jogador do mundo.

No clube, o Inter Movistar, alcançou o título europeu. Ao serviço da seleção, vai tentar ajudar Portugal a conquistar um inédito título europeu, no próximo ano, na Eslovénia.

  • Sérgio Conceição elogia prestação dos jogadores menos utilizados
    0:45

    Desporto

    No final do jogo entre Vila Real e FC Porto, que os dragões venceram por 6-0, Sérgio Conceição destacou a qualidade apresentada pelos jogadores menos utilizados no plantel, que tiveram a oportunidade de jogar. O treinador dos azuis e brancos sublinhou ainda que o segredo da vitória esteve no respeito pelo adversário.

  • Portugueses têm menos filhos do que gostariam

    País

    A diretora da representação do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) disse esta sexta-feira que em Portugal a fertilidade desejada está bastante abaixo da realizada, tendo o país uma taxa de fecundidade baixa.