Revista do Ano 2017

O campeonato dos e-mails

O futebol português ficou marcado pelo caso dos alegados e-mails de dirigentes do Benfica, expostos pelo diretor de comunicação do FC Porto. Durante meses, Francisco J. Marques usou um programa do Porto Canal para denunciar aquilo a que chamou de "um esquema de corrupção para beneficiar o Benfica", no qual foram envolvidos vários árbitros do futebol português. O caso não está nem perto de terminar, com as investigações da Polícia Judiciária e da Federação Portuguesa de Futebol ainda em aberto.

A revelação dos e-mails

"Isto que vou ler não denuncia nem mais nem menos que um esquema de corrupção para beneficiar o Benfica"

A 6 de junho, uma entrevista prometia dar que falar.

Num programa de opinião do Porto Canal, o diretor de comunicação do FC Porto acusou o Benfica de estar envolvido num esquema de corrupção. Francisco José Marques leu um alegado e-mail trocado entre Pedro Guerra, comentador afeto ao Benfica, e Adão Mendes, ex-árbitro, no qual era referido que o Benfica controlava a arbitragem na época de 2013/2014.

As reações não se fizeram esperar.

O Benfica repudiou e desmentiu "de forma veemente as falsas e absurdas insinuações" de Francisco J. Marques. No comunicado publicado no site oficial, o clube da Luz acrescentou que iria avançar com um processo crime "por difamação e outros processos que se justifiquem".

Perante a acusação a árbitros, a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) desafiou o clube do norte a apresentar "às instâncias competentes" dados sobre o caso.

"Se existe alguma veracidade nas graves acusações que fazem, devem, para bem do futebol, apresentar esses dados às instâncias competentes, PJ e MP, se é apenas mais uma diversão, então condene-se e penalize-se estes comportamentos de uma vez por todas"

O principal visado nas acusações do diretor de comunicação do FC Porto reagiu quase uma semana depois.

Num outro programa de opinião, Pedro Guerra disse que não se lembrava de ter trocado e-mails com o ex-árbitro, também visado nas acusações. O ex-diretor de conteúdos da BTV defendeu ainda que estava a ser vítima de uma cabala e apelou ao boicote dos árbitros nos jogos do clube dos dragões.

"Temos de lhe dar nota positiva"

Aquilo que poderia ser apenas mais uma troca de acusações entre dois clubes rivais, tornou-se algo mais e, uma semana depois das primeiras declarações, surgiram novas revelações.

O diretor de comunicação do FC Porto voltou ao Porto Canal para revelar uma nova troca de e-mails de Adão Mendes, mas desta vez com Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica. Os casos voltavam a remontar a 2014.

"A ser verdade, será que o homem é feio ou incompetente?"

Apesar de o futebol no relvado estar de férias, a polémica do caso continuou pelo verão a dentro, com Francisco J. Marques a revelar novos e-mails.

Desta vez, os visados foram Luís Filipe Vieira e o antigo presidente da Liga, Mário Figueiredo. O diretor de comunicação do FC Porto revelou uma alegada troca de correspondência eletrónica em que Paulo Gonçalves pedia a Mário Figueiredo a nomeação de Nuno Cabral, um delegado que se terá queixado de não ter feito qualquer jogo da Primeira Liga.

Mário Figueiredo terá enviado um e-mail ao presidente do Benfica num jogo de 2014 entre o Rio Ave e o Sporting de Braga, que, segundo Francisco J. Marques, mereceu uma resposta ao "estilo" de Luís Filipe Vieira.

Os alegados e-mails tinham vindo para ficar. E as reações não paravam.

O clube da Luz assumiu estar tranquilo face às denúncias e revelou a intenção de instaurar processos-crime aos dragões, assim como a reabertura do "Apito Dourado".

Nesta reação, entre muitas que ainda viriam, o diretor de comunicação do clube das águias escusou-se a confirmar a veracidade da correspondência divulgada, salientando que isso "competia ao Ministério Público". Luís Bernardo salientou também que a denúncia anónima ao Ministério Público favorecia os dragões, porque "se fosse o FC Porto a apresentar tinha de dar acesso a toda a informação que tem".

"Os ficheiros são de mensagens do Fernando Gomes"

Um novo dia, um novo e-mail revelado.

Segundo Francisco J. Marques, o ex-presidente da Mesa da Assembleia Geral da Liga de Clubes, Carlos Deus Pereira, enviou um e-mail com mensagens privadas de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, para o ex-diretor de conteúdos da Benfica TV, Pedro Guerra.

A relação com os árbitros no futebol português já tinha visto melhores dias e o caso veio para piorar.

A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol anunciou que queria ver o caso esclarecido até ao início da época, algo que não aconteceu. O líder da APAF Luciano Gonçalves pediu ainda que nem o organismo, nem os árbitros "sejam utilizados como arma de arremesso".

"Esta pessoa é amante de fulaninho tal. Eles têm isto sobre árbitros"

E bem a propósito, Francisco J. Marques surgiu uma vez mais no Universo Porto para dizer que tinha e-mails em que Nuno Cabral, ex-delegado da Liga de Clubes, informava Pedro Guerra sobre a vida íntima de alguns árbitros de futebol.

"Assim, metemos pressão no Conselho de Disciplina para sancionar o Futebol Clube do Porto e o Sporting de Braga como deve ser."

Noutra alegada troca de e-mails, o diretor de comunicação do FC Porto acusou Paulo Gonçalves de pressionar o Conselho de Disciplina para castigar o FC Porto e o SC Braga. O alegado e-mail dizia respeito a uma conversa entre o assessor jurídico do Benfica e o diretor de comunicação dos encarnados, Luís Bernardo.

"A atriz norte-americana Eva Mendes mandou um email imagine-se para quem... Para o Paulo Gonçalves"

Desta vez, Francisco J. Marques revelou uma alegada troca de e-mails entre o árbitro João Pinheiro e Nuno Cabral, na altura delegado da Liga. Em causa, estava uma nota menos positiva por parte do árbitro de Braga.

Através do Universo Porto, o diretor de comunicação do clube deu a entender que o delegado Nuno Cabral terá alegadamente utilizado um correio eletrónico com um nome fictício, neste com o nome da atriz norte-americana Eva Mendes, para servir de intermediário entre o árbitro e Paulo Gonçalves do Benfica.

"Sempre o Paulo Gonçalves"

Os alegados e-mails continuavam a surgir.

A 19 de setembro, o diretor de comunicação do FC Porto revelou um e-mail onde um funcionário judicial e ex-observador de árbitros da Primeira Liga informava o Benfica sobre uma notificação ao treinador Rui Vitória. O e-mail foi alegadamente enviado para Paulo Gonçalves, assessor da SAD encarnada.

Por entre alegados e-mails, reações e ataques, o Benfica recorreu a tribunal no início de setembro.

O clube da Luz avançou com uma providência cautelar contra o FC Porto, tentando deste modo impedir que o clube da Invicta continuasse a divulgar os e-mails da alegada correspondência entre elementos dos encarnados e figuras ligadas à arbitragem ou à Liga de Clubes. Na providência cautelar interposta no tribunal Cível do Porto, as águias pediam que a divulgação que vinha a ser feita por Francisco J. Marques no Porto Canal fosse proibida.

Contudo, o tribunal rejeitou a providência cautelar do Benfica e, por consequência, os dragões podiam continuar a divulgar a alegada correspondência eletrónica do clube da Luz. No acórdão, o Tribunal Cível do Porto considerou que algumas das afirmações, a serem comprovadas como verdadeiras, se revestiam de manifesto interesse público.

No entanto, o tribunal esclareceu na altura que a legalidade da obtenção dos e-mails iria ser posteriormente determinada em processo crime.

Perante a decisão, o Benfica anunciou que iria recorrer para o Tribunal da Relação.

Os serviços de bruxaria

"Estamos a falar de bruxaria"

Desta vez, Francisco J. Marques acusou o Benfica de recorrer a "bruxaria".

O diretor de comunicação do FC Porto revelou um alegado contrato trocado entre Luís Filipe Vieira e Armando Nhaga, um suposto comissário nacional da polícia da Guiné-Bissau. De acordo com Francisco J. Marques, os pagamentos a Armando Nhaga serviam para ajudar o Benfica a vencer as provas em que estava envolvido.

Segundo o FC Porto, teria ainda sido Rui Gomes da Silva a assinar o contrato de serviços de "bruxaria" em nome do Benfica.

A declaração de Francisco J. Marques mereceu uma reação do próprio presidente, que afirmou que "não havia bruxo".

Luís Filipe Vieira foi mais longe, dizendo que os encarnados "não praticavam atos à margem da lei" e que o "conflito suicida" criado "acabaria por vitimar quem o desencadeou".

O presidente das águias reagiu ainda com ironia às acusações de usar "bruxaria", dizendo que o "feiticeiro-mor ou o principal bruxo" seria o treinador Rui Vitória, que as "fantasia mais deslumbrantes" eram de Jonas, que os "segredos mais poderosos" eram de Luisão e que a "poção mais forte" era de Fejsa.

Já o comentador da SIC Rui Gomes da Silva garantiu que não assinou qualquer contrato com um bruxo da Guiné-Bissau e que a assinatura que aparecia no alegado contrato não era sua.

As investigações

No dia seguinte ao primeiro e-mail revelado pelo diretor de comunicação dos dragões, o Ministério Público confirmou ter recebido uma denúncia anónima em que o Benfica era acusado de corrupção, evidenciando ainda que a mesma tinha sido encaminhada para o DIAP de Lisboa, com vista à instauração de um inquérito.

Depois foi a vez do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, que anunciou que iria ser aberto um inquérito a "eventuais atos de corrupção". Através de um comunicado, o organismo explicou que o processo iria seguir para a Comissão de Instrutores da Liga de Clubes.

A 17 de junho, a Polícia Judiciária confirmou que tinha em mãos os e-mails alegadamente enviados por um responsável do Benfica a um árbitro. E no dia 23 do mesmo mês, foi o próprio FC Porto que confirmou ter entregue à Polícia Judiciária toda a documentação que tinha sobre o caso dos e-mails do Benfica.

Na altura, Francisco J. Marques também chegou a ser ouvido pela PJ. O anúncio foi feito através de um comunicado do clube:

"Através do seu diretor de informação e comunicação, satisfez o pedido da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária e entregou-lhe toda a documentação disponível em suportes originais do denominado dossiê e-mails de e para o SL Benfica"

As buscas

A 19 de outubro, foi dado um novo passo no caso dos e-mails.

A Polícia Judiciária fez buscas em instalações do Benfica e nas casas de vários dirigentes encarnados. Para além do Estádio da Luz e das casas de Luís Filipe Vieira, Pedro Guerra e Paulo Gonçalves, foram ainda feitas buscas em Guimarães, Santarém, Gaia e Coimbra.

A Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa confirmou ainda a investigação a um suspeito e, através de um comunicado, deu conta da emissão de 10 mandados de busca domiciliária e não domiciliária, no âmbito de uma investigação em curso pelos crimes de corrupção passiva e ativa, por parte da nona secção do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa.

"No inquérito investiga-se a prática, por parte de um suspeito, dos referidos crimes, relacionados com os denominados e-mails do Benfica. A operação encontra-se em curso, contando com a presença de quatro magistrados do Ministério Público, dois juízes de instrução e 28 elementos da PJ, incluindo inspetores e peritos financeiros e contabilísticos e informáticos"

Após as buscas, ficou-se a saber que o assessor jurídico do Benfica tinha sido constituído arguido porque a condição de Paulo Gonçalves como advogado obrigava a que fosse constituído arguido para ser alvo de buscas.

As reações não se fizeram esperar, com o diretor de comunicação do FC Porto a mostrar-se satisfeito com as buscas efetuadas pela Polícia Judiciária e a falar num sentimento de dever cumprido.

Já o Benfica congratulou-se com a visita da Polícia Judiciária às instalações do clube, considerando que esta apenas pecava por muito tardia.

"Até que enfim que cá vieram. Perante as insinuações, sugestões feitas relativamente a factos fraudulentos praticados pelo Benfica, todos queríamos, avidamente, o único meio para destruir essas acusações, que era este episódio que se passou aqui hoje. Que a PJ cá viesse para verificar em pormenor se era verdadeiro. Estávamos desejosos que isso acontecesse"

Em declarações à BTV, o advogado do Benfica lamentou também a ausência de "celeridade na investigação", considerando que a mesma acabou por permitir "sistemáticas ofensivas ao Benfica, enquanto instituição, diretores e funcionários".

João Correia relembrou ainda as queixas do Benfica quanto à violação do seu sistema informático. Na altura, também a SAD encarnada disse que ficava a aguardar as investigações aos autores e materiais da violação do sistema informático.

A origem dos e-mails

Apesar da polémica dos e-mails e daquilo que podem vir a significar, a origem dos mesmos continua incerta e pode vir a trazer problemas para o FC Porto.

O Benfica já exigiu uma investigação para se descobrir a origem dos e-mails e requereu ainda a abertura de um processo por violação de correspondência privada, assim como ações ao presidente portista, Pinto da Costa, e à administração do FC Porto, por alegado "crime económico", por posse de informação comercial.

Já a Polícia Judiciária está também a investigar a forma como os e-mails foram obtidos pelo clube da Invicta.

A investigação da PJ segue vários parâmetros: se os e-mails foram obtidos de forma ilegítima para tentar perceber se houve um crime de acesso ilegítimo e ainda apurar a questão da investigação desses mesmos e-mails. Se o acesso foi ilegítimo e a divulgação não foi consentida, pode configurar um crime de revelação de correspondência.

Na investigação de corrupção desportiva, será preciso que o Ministério Público valide o conteúdo dos e-mails como prova. Se o acesso for ilegítimo, é pouco provável que o Ministério Público o faça.

Perante a incógnita, o diretor de comunicação do FC Porto explicou como teve acesso à alegada correspondência eletrónica. Francisco J. Marques disse a correspondência eletrónica chegou até às suas mãos através de um e-mail de "um contacto".

"O Polvo Encarnado"

As acusações do FC Porto ao Benfica, no caso dos e-mails, passaram da televisão para livro.

Francisco J. Marques em coautoria com Diogo Faria, comentador do Porto Canal, escreveram um livro com o título "O Polvo Encarnado". O tema do livro é o Benfica e os autores prometeram novas revelações que comprovam a alega influência do Benfica no funcionamento do futebol português.

Na apresentação do livro, que aconteceu a meio de novembro, o diretor de comunicação do Porto explicou que o livro sistematizava as situações que envolviam o Benfica no futebol português.

Contra-ataque mediático?

A 20 de novembro, o Benfica lançou uma novidade que podia ser lida como um contra-ataque ao FC Porto, que usou o Universo Porto para revelar os alegados e-mails.

O programa "Chama Imensa" foi lançado na BTV, prometendo a revelação dos "nomes do novo Apito Dourado". O programa serviria para fazer a "divulgação pública e denúncia de quem lidera as reuniões, os nomes e quem é quem" na estrutura criada pelos dragões.

De acordo com o comunicado oficial do Benfica para apresentar o programa, era o FC Porto quem liderava a rede de corrupção no setor da arbitragem "no tempo do Apito Dourado" e continuava agora a liderar e a "usar os mesmos métodos".

Durante o primeiro programa "Chama Imensa", o Benfica associou os nomes dos árbitros Luís Ferreira e Vítor Ferreira ao alegado esquema de corrupção que envolve o FC Porto. Perante a situação, os dois árbitros avançaram com uma queixa-crime contra o Benfica.

O caso Piriquito

A meio de novembro, a Federação Portuguesa de Futebol anunciou ter feito uma denúncia à Polícia Judiciária e à Procuradoria-Geral da República da alegada partilha de documentos internos do organismo com pessoas externas. Isto aconteceu depois de ter sido noticiado que Pedro Guerra, afeto ao Benfica, terá recebido documentos internos da Federação, através de Horácio Piriquito, membro do Conselho Fiscal do organismo.

Por consequência, o membro do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Futebol demitiu-se. No entanto, Horácio Piriquito garantiu que não passou qualquer documento confidencial a Pedro Guerra. No final de novembro, o Ministério Público confirmou que foi instaurado um inquérito a Horácio Piriquito, por alegada partilha de documentos internos do organismo com pessoas externas.

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