Revista do Ano 2017

O escândalo Harvey Weinstein

Harvey Weinstein foi um dos nomes mais ouvidos em 2017. Não só pelo escândalo em que se viu envolvido, com mais de 80 mulheres a dizerem ter sido assediadas ou violadas pelo produtor, mas também pelo que resultou do caso. Homens e mulheres sentiram-se confiantes para denunciar as agressões sexuais que sofreram. Atores, políticos ou realizadores foram acusados de assédio sexual, com centenas - ou talvez, milhares - de mulheres e homens a contarem a sua história.

Os antecedentes de Harvey Weinstein

Harvey Weinstein começou a ficar conhecido em Hollywood quando, na década de 70, juntamente com o irmão Bob Weinstein, criou a Miramax, uma empresa de produção e distribuição de vídeos. Os irmãos começaram por lançar alguns vídeos de concertos, mas como os dois cresceram com o desejo de entrar na indústria cinematográfica, em 2005, saíram da produtora e criaram, The Weinstein Company, uma empresa de cinema independente.

Ao longo dos anos e durante décadas, circularam rumores de que Harvey exigia favores sexuais às mulheres com quem trabalhava, mas nunca foram além de algumas piadas ditas, por exemplo, em entregas de prémios.

A atriz Gwyneth Paltrow afirmou também numa entrevista, em 1998, que Weinstein podia coagir qualquer pessoa a "fazer uma coisa ou duas".

Já a viúva de Kurt Cobain, Courtney Love, deu um conselho às jovens atrizes, em 2005. "Se o Harvey Weinstein te convidar para uma festa privada no Four Seasons, não vás."

Em 2010, foi publicado o artigo "As mulheres de Weinstein", no qual era revelado que o produtor norte-americano costumava escolher jovens em Hollywood para implementar o "teste do sofá". Isto é, Harvey Weinstein escolhia jovens estreantes na indústria e exigia-lhes favores sexuais em troca de ajuda na carreira.

Em 2013, durante a cerimónia de entrega dos Óscares, o ator e comediante Seth MacFarlane voltou a tocar na questão, com uma piada típica de um discurso numa entrega de prémios.

Na entrega do Óscar para Melhor Atriz Secundária, Seth MacFarlane disse: "Parabéns, vocês as cinco já não precisam de fingir que estão atraídas pelo Harvey Weinstein". Um comentário que, na altura, despertou gargalhadas do público.

Em 2015, Harvey Weinstein foi questionado pela polícia de Nova Iorque sobre um caso de assédio sexual a uma modelo italiana de 22 anos. Ambra Gutierrez chegou a cooperar com as autoridades para obter um áudio em que o produtor admitia que a tinha assediado sexualmente. Contudo, assim que a investigação da polícia se tornou pública, os tablóides começaram a pintar a modelo italiana como oportunista e o tribunal acabou por arquivar o caso, alegando que não tinha provas suficientes para condenar o produtor norte-americano.

O caso voltou a ser falado em 2017, depois de se ficar a saber que Harvey Weinstein tinha pago um milhão de dólares (cerca de 852 mil euros) para silenciar a modelo italiana.

As indiretas, os conselhos e as piadas despertavam gargalhadas e a apreensão só surgiu este ano, quando as denúncias foram levadas a sério e o The New York Times relevou as décadas de assédio sexual do produtor.

A revelação do The New York Times

A 5 de outubro deste ano, o The New York Times publicou um artigo que viria a abalar não só Hollywood como também o mundo inteiro. O jornal norte-americano revelou que, durante décadas, Harvey Weinstein alcançou uma série de acordos extrajudiciais para pôr fim a denúncias de assédio sexual feitas por antigas funcionárias e colaboradoras, como atrizes.

Jordan Strauss

As acusações remontam aos anos 90, altura em que o produtor ainda estava à frente da Miramax. Na investigação do The New York Times, foram revelados dezenas de testemunhos de pessoas que trabalharam com Harvey , que facultaram detalhes sobre o seu comportamento com as mulheres.

Na altura em que o escândalo surgiu, Harvey Weinstein admitiu a forma errante como se tinha comportado com as companheiras de trabalho, pedindo perdão e uma segunda oportunidade.

Contudo, o que está feito já não pode ser desfeito. E a partir daqui, começaram a surgir vários relatos de mulheres que tinham trabalhado com o produtor e que tinham sido assediadas.

As vítimas de assédio sexual

Nas semanas seguintes à denúncia de um dos maiores escândalos de que há memória em Hollywood, foram surgindo nomes das vítimas de Harvey Weinstein.

Asia Argento, a atriz italiana que revelou ao The New Yorker que tinha sido atacada por Weinstein em 1997, publicou uma lista com os nomes de alegadas vítimas do produtor norte-americano. Através do Twitter, e com a ajuda de outras vítimas, Asia Argento revelou as 82 mulheres que tinham sido "assediadas sexualmente/violadas/molestadas" por Harvey Weinstein.

As vítimas de violação

Não é só de assédio sexual que Harvey Weinstein é acusado. Pelo menos 12 mulheres alegam ter sido violadas pelo produtor, num espaço de tempo entre 1970 e 2013. Na galeria são apresentadas oito das mulheres, não estando presentes a antiga funcionária do produtor, uma aspirante a atriz e duas outras atrizes que pediram para ficar no anonimato.

  • Hope Exiner d'Amore, uma antiga funcionária do produtor, revelou ao The New York Times que tinha sido violada durante uma viagem de negócios a Nova Iorque, na década de 70. Na altura, Harvey Weinstein estava na casa dos 20 e a dar os primeiros passos no mundo cinematográfico.
  • A aspirante a atriz Lucia Evans revelou ao The New Yorker que depois de uma viagem de negócios em 2004, o produtor obrigou-a a fazer-lhe sexo oral.
  • Uma atriz pediu o anonimato ao Los Angeles Times para revelar que, em 2013, Harvey Weinstein forçou a sua entrada no quarto de hotel, "agarrou-a pelo cabelo, arrastou-a até à casa de banho e violou-a".
  • Uma atriz que pediu ao The New Yorker para ficar no anonimato revelou que o produtor a convidou para um quarto de hotel e "forçou-se nela sexualmente", apesar dos seus protestos.

As consequências

As repercussões do escândalo logo se fizeram sentir. E as consequências começaram a chegar não só a nível pessoal e profissional para Harvey Weinstein, como também nas denúncias de assédio sexual à volta do mundo.

A primeira consequência surgiu numa altura em que o caso ainda não tinha ganho tamanha repercussão. Três dias após o artigo do The New York Times, o produtor foi obrigado a abandonar a empresa de cinema que fundou com o irmão, The Weinstein Company.

O conselho de administração da empresa decidiu retirar o produtor, deixando o controlo do estúdio nas mãos do irmão, Bob Weinstein, e do diretor de operações David Glasser. A decisão foi anunciada através de um comunicado da The Weinstein Company.

"Face ao surgimento, nos últimos dias, de novas informações relativas à má conduta de Harvey Weinstein, os diretores da The Weinstein Company - Robert Weinstein, Lance Maerov, Richard Koenigsberg e Tarak Ben Ammar - decidiram rescindir com Harvey Weinstein"

E se o produtor norte-americano foi obrigado a retirar-se da própria empresa que fundou, outras organizações não se fizeram esperar.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas - responsável pelos Óscares - afastou o produtor. Em comunicado, o organismo, que integra membros como Tom Hanks ou Whoopi Goldberg, explicou que a decisão se baseou nos atos de Harvey Weinstein.

Também o Sindicato de Produtores de Hollywood (PGA, na sigla em inglês) oficializou a expulsão de Harvey Weinstein, explicando a sua decisão em comunicado.

"Dado o comportamento amplamente descrito do senhor Weinstein, com novos artigos ainda a emergirem, o conselho de administração do sindicato de produtores votou por unanimidade pela proclamação da exclusão vitalícia"

A Academia de Televisão dos Estados Unidos da América - responsável pelos Emmy - não ficou para trás e decidiu expulsar o produtor. Através de um comunicado de imprensa, a academia condenou os exemplos generalizados de "comportamento horrível" do produtor, e manifestou o seu apoio a todos os que estão a "erguer a voz contra o assédio em todas as suas formas.

Mike Blake

A nível pessoal, também não houve boas notícias para o produtor. Poucos dias após o artigo do The New York Times ser publicado, a mulher de Harvey Weinstein anunciou que o tinha deixado.

Segundo o The Telegraph, a designer de moda britânica considerou o comportamento do marido como "imperdoável" e disse ainda que o seu coração se partia "por todas as mulheres que sofreram tamanha dor". Georgina Chapman casou-se com o produtor, em 2007, com quem teve dois filhos: India Pearl Weinstein e Dashiell Weinstein.

A US Magazine avançou ainda que o produtor prometeu dar um terceiro filho à mulher, caso ela não o deixasse.

Perante o caso, a Procuradoria-Geral de Nova Iorque anunciou a abertura de uma investigação à empresa fundada pelo produtor, The Weinstein Company.

O produtor é ainda alvo de uma investigação policial em Nova Iorque e no Reino Unido.

As reações

Logo após o escândalo rebentar, várias personalidades condenaram publicamente o produtor.

Através de um comunicado, Meryl Streep revelou que tais notícias "espantaram aqueles cujo trabalho ele defendeu ao financiar causas mercedoras", ao mesmo tempo que salientou a coragem das "mulheres destemidas que falaram em denúncia destes assédios". A atriz trabalhou com Harvey Weinstein frequentemente em filmes distinguidos pela Academia de Hollywood, como "A Dama de Ferro" (2011), clarificando que o produtor sempre a "respeitou na relação profissional que estabeleceram", fazendo com que Streep não se apercebesse da conduta ofensiva do fundador da produtora e distribuidora de filmes Weinstein.

As atrizes britânicas Kate Winslet e Judi Dench reagiram através da Associated Press, classificando as denúncias como "uma situação horrível, da qual não tinham qualquer conhecimento", com Winslet a admitir que "esperava que este tipo de histórias fossem apenas rumores".

Também Jennifer Lawrence reagiu, manifestando a sua gratidão "pela coragem demonstrada pelas mulheres afetadas por estas ações nojentas".

Emma Thompson revelou à BBC o desejo de muitas pessoas, de que este escândalo pudesse revelar a "infeção" de assédios sexuais não só no meio cinematográfico em Hollywood, como também na sociedade.

Ryan Murphy, Judd Apatow, Mark Ruffalo, Brie Larson e Julianne Moore condenaram os atos do produtor influente na indústria, através de mensagens no Twitter. Já a atriz e produtora Lena Duham abordou e desenvolveu o tópico num artigo de opinião no The New York Times:

"Os casos de assédio sexual não são inéditos e ignorar a má conduta continua a ser algo típico para os homens de Hollywood"

Também na política houve reações, com o ex-Presidente norte-americano Barack Obama e a candidata às eleições de 2016 nos Estados Unidos Hillary Clinton a juntarem-se à longa lista de figuras que condenam o assédio sexual de que foram vítimas dezenas de mulheres.

Mas houve outro tipo de reações ao caso, como a do realizador norte-americano Quentin Tarantino.

"Eu sabia o suficiente para fazer mais do que fiz. Foi mais do que os boatos normais ou rumores. Eu sabia que ele tinha feito muitas dessas coisas"

Numa entrevista ao The New York Times, o realizador norte-americano afirmou que "sabia há décadas" de alguns casos de conduta imprópria de Harvey Weinstein e salientou ainda que tinha remorsos por não ter assumido as responsabilidades na altura.

O realizador explicou que sabia da conduta de Weinstein em primeira mão através da atriz Mira Sorvino, que chegou a namorar com Tarantino e de uma outra atriz que recusou revelar o nome. Quentin Tarantino acrescentou que também sabia do acordo alcançado com a atriz Rose McGowan.

#MeToo

A partir de determinada altura, já não se tratava apenas do produtor de Hollywood nem da indústria cinematográfica.

Uma das vítimas de Harvey Weinstein percebeu que tinha de levar a discussão sobre o assédio a outro patamar. Através do Twitter, fez um apelo a todas as mulheres: "Se foste assediada ou agredida sexualmente escreve 'eu também' como resposta a este tweet".

Foi aqui que foi criada a hashtag MeToo (eu também, em português).

Em menos de 24 horas, 53 mil pessoas tinham deixado comentários. A iniciativa de Alyssa Milano teve eco um pouco por todo o mundo. Com mulheres, famosas e anónimas, a relataram as suas experiências através das redes sociais e com a hashtag.

Lucy Nicholson

#MeToo tornou-se a imagem de marca de todas as pessoas que sofreram assédio.

A meio de novembro, centenas de mulheres manifestaram-se em Hollywood, para chamar a atenção sobre os casos de assédio sexual que envolviam figuras da indústria cinematográfica. Com t-shirts com mensagens como "Me too", as mulheres concentraram-se perto da entrada do teatro Dolby que acolhe anualmente a cerimónia dos Óscares.

Os movimentos e iniciativas levaram homens e mulheres a revelarem os assédios que tinham sofrido, alguns dos quais às mãos de outras personalidades famosas.

As outras denúncias

O escândalo de assédio sexual começou com Harvey Weinstein, mas já não é só o produtor o visado. Atores, realizadores, políticos. A galeria apresenta as várias personalidades acusadas de assédio sexual e violação.

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