Revista do Ano 2017

O rosto da tragédia

Pais perderam filhos. Filhos perderam pais. Netos perderam avós. Avós perderam netos. Famílias inteiras foram destruídas. O incêndio começou a 17 de junho em Pedrógão Grande e alastrou a Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera, Penela, Pampilhosa da Serra e Sertã e causou 64 mortos, mais de 200 feridos e prejuízos de centenas de milhões de euros. Um dos rostos da tragédia é Mário Pinhal, que durante a fuga às chamas viveu um autêntico inferno e que acabou por perder a mulher e as duas filhas.

A história de Mário Pinhal

Perante as chamas, muitos foram aqueles que tentaram fugir. O engenheiro da EDP, de 45 anos, fugiu da aldeia de Várzeas, onde o fogo consumiu grande parte da área.

Com ele seguiam os pais e a madrinha e, num outro carro, ia a mulher acompanhada das duas filhas de 12 e 15 anos. Mário Pinhal explicou que conseguiu salvar "a muito custo" aqueles que seguiam consigo. Os quatro sofreram apenas queimaduras em segundo e terceiro grau.

Contudo, num relato muito emocionado, admitiu: "Infelizmente, não as consegui salvar". Mário Pinhal perdeu a mulher e as duas filhas.

A mulher, diretora financeira de uma empresa de embalagens, na Póvoa de Santa Iria, em Loures, não conseguiu sobreviver aos incêndios, assim como as duas filhas do casal. Mário calcula que os airbags do veículo tenham disparado, deixando a mulher e a filha mais velha inconscientes.

Sobre o carro que conduzia, admitiu que teve de fazer várias manobras e que assistiu a um completo inferno durante a fuga. Os carros à sua frente estavam a arder e Mário Pinhal lembra como uma pessoa saiu de um dos veículos e começou logo a arder.

Mário Pinhal ficará como um dos rostos da tragédia de Pedrógão Grande, depois de perder a família naquele que foi um dos incêndios mais mortíferos em Portugal.

Os relatos da tragédia

O bombeiro que morreu a salvar vidas

Gonçalo da Conceição Correia era um bombeiro voluntário de Castanheira de Pera, que perdeu a vida a tentar salvar três pessoas que estavam encurraladas na chamada "estrada da morte", a N236. O bombeiro de 40 anos morreu no Hospital da Universidade de Coimbra, onde foi internado, depois de ter ficado gravemente ferido no combate às chamas.

Era um homem da terra, que foi lembrado pelos colegas como alguém excepcional.

A avó que perdeu o neto de 4 anos

Num relato emocionado, uma sobrevivente da tragédia de Pedrógão Grande contou que tinha perdido o neto de 4 anos e o genro. A mulher explicou como o pai tentou salvar o filho, fugindo às chamas que fustigavam a zona. Pai e filho acabaram por seguir até às "estrada da morte", onde um "pinheiro caiu em cima do carro".

A mulher que sobreviveu à "estrada da morte"

Celestina Costa esteve ao lado do bombeiro que morreu quando tentava salvar um casal de um carro. A peixeira, que sobreviveu às chamas da N236, relatou os momentos assustadores que passou e pediu desculpa por ter batido em vários carros a arder.

"Não sei se os acabei por matar, mas se os matei, peço desculpa porque ali era o 'salve-se quem puder'", confessou emocionada.

O homem que salvou a família numa carrinha em fuga por entre as chamas

Hugo Manuel Almeida Santos salvou-se a si e à sua família, ao fugir das chamas numa carrinha. "As labaredas batiam muito forte na carrinha, ainda fui contra um pinheiro e andei por valetas", contou o sobrevivente, cuja casa no concelho de Figueiró dos Vinhos ficou destruída.

"Temi pela vida de nós todos, pensei que ficávamos lá todos", repetiu, recordando que as chamas "bateram" de forma insistente na viatura, cujo controlo, "por várias vezes", sentiu que podia perder.

As imagens captadas no dia 17 de junho mostram um dos incêndios mais mortíferos de sempre em Portugal.

O homem que se escondeu em casa e esperou que o fogo passasse

António Abreu relatou os momentos de pânico e comparou o incêndio, que danificou a sua casa, a um furacão. "Uma coisa medonha, fora do normal", contou o homem, que se escondeu em casa e esperou que as chamas passassem. António revelou ainda como sobreviveu ao incêndio.

O trabalho que foi por "água abaixo" e a preocupação de uma filha

Uma mulher de Pessegueiro, uma das localidade atingidas pelas chamas, mostrou-se preocupada perante o "trabalho e o entusiasmo" que foi todo "por água abaixo".

Outra habitante local revelou a preocupação da filha, que não queria que a mãe tivesse ido para as zonas afetadas pelo fogo.

O casal inglês que salvou dezenas de pessoas

Um casal inglês de Graça, Pedrógão Grande, foi o salvador ocasional de dezena e meia de pessoas que seguiam no IC8, quando o fogo atingiu a vila, destruindo tudo à sua passagem. "A minha preocupação era ver se a casa estava bem", mas como a habitação estava segura, "abrigámo-nos e aguentámos duas ou três horas lá. Estávamos todos aterrorizados", explicou Ben, que diz ter feito o que era possível.

Nodeirinho, Valongo, Vila Facaia, Escalos Fundeiros foram aldeias atingidas pelas chamas. As imagens do impacto das chamas mostram a paisagem, as casas, as viaturas e os moradores que resistiram.

O pânico perante a intensidade das chamas

Uma habitante relatou os momentos de pânico sentidos durante os incêndios e explicou que mesmo dentro de um tanque, cheio de água, ela, o pai e os vizinhos "não aguentavam" com o fumo.

O jornalista que testemunhou o combate às chamas

Na altura dos incêndios, o repórter de imagem da SIC Rui Caria levou a máquina fotográfica e andou pela noite em Góis, onde testemunhou o combate às chamas. O resultado foi uma fotogaleria e um relato pessoal de "dias tumultuosos para o jornalismo".

A "estrada da morte"

Estrada Nacional 236, ponto de ligação entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera. À primeira vista era a estrada mais segura para atravessar perante as chamas, que estavam a ameaçar a alternativa, a IC8. Uma ilusão. A EN 236 era uma brutal armadilha: o caminho para a morte.

Aqueles que conseguiram escapar às chamas daquela que ficou conhecida por "estrada da morte" relataram momentos de pânico, com o fumo a impedir que as pessoas conseguissem ver aquilo que estava à sua frente.

Na "estrada da morte" morreram mais de 40 pessoas das 64 vítimas mortais na tragédia de Pedrógão Grande.

Pessoas carbonizadas pelas chamas dos pinheiros "que caíam para cima dos carros". Pessoas que tentaram fugir a pé e não conseguiram. Pessoas atropeladas por condutores que não viam nada à frente por causa do fogo.

Na estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera morreram 47 pessoas, 30 dentro das viaturas e 17 foram encontradas na estrada. Todas cercadas pelo fumo e pelas chamas. Não conseguiram voltar para trás.

Um drone captou imagens da estrada onde a maior parte das vítimas morreu.

Após o elevado número de vítimas mortais, ficou uma pergunta no ar: porque não foi cortada a Estrada Nacional 236?

A GNR disse que, na altura, não havia qualquer indicador de risco em seguir pela estrada em qualquer dos sentidos. O comando geral da Guarda referiu ainda "dificuldades nas comunicações" e concluiu que o fogo terá atingido a estrada de "forma totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina, surpreendendo todos", incluindo os militares da GNR destacados para o local.

Carlos Gama e a família passaram pela Nacional 236 no dia 17 de junho e descreveu o que aconteceu e como outro condutor o deixou passar, já com o carro debaixo de fogo.

As perguntas e respostas

Desde as primeiras horas do incêndio, várias perguntas foram feitas. Perguntas que foram atiradas de entidade para entidade e de organismo para organismo.

Perante a falta de respostas, foi criada uma Comissão Técnica independente de Peritos para investigar a tragédia de Pedrógão Grande. Após a investigação, os peritos concluíram que houve falhas no comando durante os fogos e que a Proteção Civil falhou ao não mandar retirar a população das aldeias mais afetadas.

O relatório da Comissão Técnica denunciou vários responsáveis pela tragédia. O ex-presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil é um dos apontados.

O relatório entregue em outubro no Parlamento apresentou uma lista dos erros cometidos ao longo do dia 17 de junho. Desde logo, houve uma profunda desvalorização do incêndio às primeiras horas, o que o tornou incontrolável.

A comissão de peritos apresentou ainda uma lista de recomendações perante os incêndios. Algumas das propostas foram a criação de uma Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais, o "devido enquadramento" das Forças Armadas no âmbito do Sistema Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais, a alteração profunda dos princípios do Sistema Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios, entre muitas outras.

Os incêndios de outubro

As consequências do incêndio de 17 de junho ainda se faziam sentir, quando uma nova tragédia aconteceu em Portugal.

Um novo incêndio florestal deflagrou na região Centro e provocou a morte de pelo menos 45 pessoas e cerca de 70 feridos. A lista oficial das vítimas mortais pode vir ainda a subir para 50, pois dois homens continuam desaparecidos e três mortes não terão sido contabilizadas.

Os fogos atingiram particularmente 27 concelhos da região Centro e destruíram cerca de 800 habitações permanentes e quase 500 empresas. Assim como em Pedrógão Grande, o prejuízo ascendeu a dezenas de milhões de euros.

Além de habitações e empresas, as centenas de incêndios que deflagraram no dia 15 de outubro, o pior dia de fogos do ano, segundo as autoridades, também provocaram elevados prejuízos na agricultura e na agropecuária, a morte de milhares de animais e a destruição de extensas áreas de floresta, deixando em risco milhares de postos de trabalho e o suporte económico de muitos dos concelhos afetados.

Desde 2000, morreram pelo menos 200 pessoas em incêndios florestais em Portugal. A galeria em baixo mostra a cronologia dos piores anos em matéria de vítimas mortais causadas pelos fogos.

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