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Moscas e humanos com muitas semelhanças na alimentação

A forma como os mamíferos e as moscas se alimentam é semelhante, revela um estudo hoje divulgado, que utilizou uma nova tecnologia de investigação e que permitirá compreender e tratar disfunções como a obesidade ou a anorexia.

© Mike Hutchings / Reuters

O trabalho vem hoje divulgado na revista científica Nature Communications  e foi feito por investigadores do Programa Champalimaud de Neurociências,  em Lisboa, em colaboração com investigadores da Universidade de Washington,  Seattle, Estados Unidos.  

Carlos Ribeiro, um dos investigadores, explicou à agência Lusa que o  trabalho se centrou na chamada mosca da fruta e que, a par das revelações,  tem também como grande novidade a técnica de estudo, "com potencial para  avançar outros estudos, como os ligados à memória, aprendizagem ou interação". 
  
Para entender o comportamento e a forma como come a mosca da fruta,  os investigadores desenvolveram o que chamaram de "flyPAD", um dispositivo  sensível idêntico ao que é utilizado nos novos telemóveis de toque. "Cada  vez que a mosca toca na comida, o flyPAD deteta esse movimento, permitindo-nos  seguir e registar os detalhes da alimentação em alta resolução e em tempo  real", disse o investigador.  
  
Mas, depois, era necessário perceber quando é que o alimento chega ao  sistema nervoso das moscas. O que fizeram os investigadores foi colocar  no cérebro das moscas uma proteína do pirilampo e, no alimento, uma substância  capaz de ativar a proteína do brilho.  
  
Este método "simples" está a entusiasmar investigadores do mundo inteiro,  disse à Lusa Carlos Ribeiro, investigador principal do laboratório Behaviour  and Metabolism, do Programa Champalimaud de Neurociências. "Muita gente  vai utilizar esta tecnologia, com potencial para muitas outras coisas",  disse.  
  
Agora, acrescentou, a investigação vai continuar, para tentar perceber  a lógica de escolha de determinados nutrientes. O corpo dá instruções ao  cérebro sobre o que precisa? Que instruções são essas? Como é que o animal  sabe o que lhe falta?   
  
Estas são perguntas de Carlos Ribeiro, para as quais espera encontrar  as respostas, nos próximos tempos - porque entender nas moscas os genes  que levam à tendência para comer mais, pode "abrir portas" para o ser humano;  e porque, disse o investigador, "a estrutura de como a mosca come é muito  parecida com a dos ratinhos e, a certo nível, com a forma como os humanos  comem".  
  
Essa é já, salientou, uma das grandes novidades do estudo, a de que  "a mosca da fruta organiza a refeição em muitos aspetos igual a um ser humano". 
  
No trabalho hoje publicado, Carlos Ribeiro diz que o próximo passo é  usar a nova tecnologia para perceber como é que o cérebro regula a ingestão  de alimentos.   
  
"Queremos identificar os neurónios e os genes que controlam e estão  na base deste comportamento, em tempo real. Uma vez que a regulação da alimentação  parece ser semelhante entre moscas e vertebrados, existe a possibilidade  fascinante de os circuitos ou os genes usados para controlar a alimentação  em vertebrados serem semelhantes aos da mosca. Este estudo traz-nos assim  para mais perto de compreender como podemos escolher o que comemos e quanto  comemos", afirmou.   
  

Lusa

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