Opinião

"Que queres ser quando fores grande?"

Quando as luzes se acendem e os tons se melodiam, abrem-se "aspas" na rotina. Diz-se... Natal! Ao mito quase perdido nas teias do quotidiano, junta-se um misto de calor humano e afetos reciclados. A época combate a frieza das relações superficiais para reconstruir a utopia da felicidade, a experiência da solidariedade.

Mas o que nos distingue neste tempo e fora dele? Com que mãos enfeitamos a árvore? Se for o caso, com que barro moldamos o presépio?

As narrativas evangélicas, que desenham os contornos culturais do "nosso" Natal, fazem a deriva para a infância. Dizer natal, é dizer criança, fragilidade, proteção e... escândalo. Sim, porque isto de um Deus se dizer na fragilidade e precisar de proteção é uma provocação escandalosa à razoabilidade.

Pelo menos uma vez no ano, sintonizamos o olhar e a ideia. Ao mais próximo damos presentes. Para o que mais precisa, sabemos que nos é exigida uma presença. Mesmo que não o façamos, pelo menos uma vez no ano, andamos sintonizados.

Trago, da idade dos sonhos e das consoadas em família, uma pergunta para a qual ainda não obtive resposta - não me incomodo, mais importante que obter respostas às perguntas que conseguimos fazer, é ter a capacidade de fazer mais perguntas às respostas que julgamos ter -, e me tem acompanhado: "Que queres ser quando fores grande?"

Não me quedo pelas semânticas possíveis de uma pergunta tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexa. Seria perder tempo. Se somos em relação, não somos sem uma cainhada partilhada, um percurso na construção permanente de um nós. Neste caminho, chegar a "grande" é também acumuluar conceitos e preconceitos. E para conjugar o transitivo "querer", teremos de retomar o equilíbro ético de Cortella, entre o quero, o posso e o devo: encontraremos a harmonia quando o que queremos ser é o que podemos ser, o que podemos ser é o que devemos ser e o que devemos ser é o que queremos ser.

Prefiro acreditar que este é o tempo dos que recusam a falência da esperança, como diria Paulo Freire. Não a esperança de "esperar", mas a esperança de "esperançar", dos que atuam na Procura e não ficam parados na expectativa.

Assim, teremos sempre de fazer a pergunta que nos persegue: "Que queres ser quando fores grande?" Ou, dito de outra forma: "O que andas a fazer?" Mais do mesmo? Incompleto porque sobretudo ou apenas tu, agarrado aos teus preconceitos? Ou o aventureiro que quebra barreiras, disponível para um outro que vem e está aqui ao lado, sem o qual não és?

Enredados no cinismo de interesses mesquinhos e necessidades superfluas, numa hipocrisia disfarçada de astúcia, privilegiamos a aparência dos acontecimentos e das pessoas. Para salvar a pele ou subir a montanha, esmagamos um outro, tantas vezes inadvertidamente porque nem questionamos eticamente os atos e os gestos.

Há um filme nas salas de cinema a sondar-nos neste natal. É sobre a dificil inclusão social de uma criança particularmente inteligente, que quer ser astronauta "quando for grande", mas com uma doença rara que lhe deformou o rosto. Um filme raríssimo de sensibilidade e foco. Perante o embate dos primeiros dias de bulling na escola, a mãe conta-lhe o segredo da essência: "a aparência revela o que foste até aqui, o coração há-de revelar o que vais ser daqui por diante".

Para conhecer realmente alguém, é preciso estar disponível para lhe dar atenção, vendo, para lá da carapaça superficial, a matéria não visível a que chamamos metaforicamente... "coração". Um pequeno grande passo para evitar a falência da esperança. E as luzes acendem-se e os tons melodiam-se...

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