Opinião

Marcelo acertou: há um novo ciclo à direita

Assunção Cristas sai destas autárquicas como a política que soube arriscar. Mostrou a todos que o seu feeling estava certo. Fez história e ganhou autonomia. Deixou para trás a liderança de Paulo Portas. Já não é órfã de nenhum pai. Tornou-se mãe de uma nova era do CDS e marca um novo tempo à direita. Passos Coelho é agora uma sombra. Marcelo tinha razão: hoje começa um novo ciclo.

A política não são só favas contadas e o CDS habituou-se a conviver com essa realidade. Aliás, quando avançou para a corrida a Lisboa, Assunção Cristas sabia que punha em causa a sua liderança caso não conseguisse superar o resultado de Paulo Portas nas célebres eleições do “eu fico!”. Nessa altura o ex-líder ficou pelos 7%, um resultado que se tornou fasquia obrigatória. Cristas teve razão e preparou com tempo esta vitória – sim, é uma grande vitória para o CDS. Começou há um ano a volta por Lisboa e quando Passos Coelho saiu do marasmo e escolheu Teresa Leal Coelho, Cristas já levava vários pontos de avanço.

Mas a culpa não é de Teresa Leal Coelho, nem de Álvaro Almeida, nem dos outros candidatos do PSD que perderam estas eleições. A responsabilidade é apenas e só de Passos Coelho. Pela forma como conduziu erradamente a escolha dos candidatos, pela forma como menosprezou estas eleições, pela forma como permitiu que o país lhe virasse as costas. Passos é agora uma sombra na política nacional. Ou melhor, deixa o PSD, o partido grande, na sobra da conquista do CDS, um partido que sempre foi suplementar. O xadrez à direita altera-se radicalmente para as legislativas de 2019. Cristas tem na mão peso político suficiente para preferir ir sozinhas às eleições. E se for para ir em coligação, Cristas tem mais peso negocial.

Entre as vitórias de uns e as derrotas de outros, há um dado importante que sai destas eleições: o recuo do centro-direita. O PSD, que sempre foi um grande partido autárquico perde nos centros urbanos, confirma uma trágica “ruralização” e permite o crescimento do PS. Isto obriga a repensar o centro-direita em Portugal. Mas antes Passos terá de decidir o que quer fazer. Será que depois desta debacle ainda consegue ganhar umas eleições diretas no partido? Acredito que se Passos não sair pelo seu próprio pé, terá vida muito difícil no partido. Já não tem mais nada a que se agarrar. Em 2013 o resultado também foi humilhante e, ainda assim, Passos conseguiu ganhar em 2015, mas nessa altura Passos Coelho era primeiro-ministro e depois dessas autárquicas conseguiu a saída limpa que lhe deu a narrativa para ganhar as legislativas.

Passos não devia sair assim: humilhado. Tem um passado importante que devia preservar. Foi primeiro-ministro num tempo incrivelmente complexo e exigente. O PSD está chocado e prepara-se para o combate. Marcelo tinha razão: estas autárquicas são mesmo o ponto de partido para o novo ciclo da direita. Cristas veio confirmar o que era evidente.

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