Opinião

Vitória, sem festa

JOAO RELVAS

Quando passou pelo Couço – onde as histórias de resistência à ditadura se contam ainda na primeira pessoa –, o secretário-geral do PCP sublinhou um percurso. Aquele "enclave" comunista numa autarquia PS é paragem obrigatória em campanhas eleitorais. Esta "força" partidária (re)constrói-se na memória e nos símbolos. Ao recordar as palavras de um "velho camarada" no discurso da noite eleitoral, Jerónimo de Sousa realinhou por isso os cristais num momento difícil: "Os comunistas, por vezes, vão buscar forças onde elas não existem".

Não passaria pela cabeça de nenhum dirigente comunista que estas eleições reabilitassem os feitos dos anos 80, quando a APU conseguiu 55 presidências de câmara, ou dos anos 90, quando a já CDU se manteve sempre acima das 40 presidências. Mas não estava ao alcance das expectativas a derrocada em autarquias tão emblemáticas quanto Barreiro, Beja, Almada ou Castro Verde – estas duas últimas só conhecerem lideranças comunistas –, ou a grande perda de influência eleitoral em concelhos como Moita ou Seixal.

O que se passou? A pergunta foi feita quatro vezes, por diferentes jornalistas e de formas diferentes, na conferência de imprensa do secretário-geral do PCP, depois do histórico discurso da noite eleitoral. Jerónimo assumiu o desaire, sem hesitações ou subterfúgios: "É necessário não iludir que este resultado constitui um factor negativo". Com estas palavras, coloca as hostes na pragmática realidade que contextualiza o PCP e a CDU.

Ao assumir-se – embora na base de um compromisso de medidas e não de coligação de governo – como parte de uma solução de governo de esquerda sob liderança do PS, o PCP sabia que corria o risco de perder eleitorado, pelo efeito do já apelidado "abraço do urso". Mas, ainda assim, e em nome dos princípios base – repor direitos e evitar a permanência de um governo de "direita"– os comunistas avançaram. E aí está a fatura.

António Costa esforçou-se por não penalizar ainda mais ao dizer que a vitória do PS não é uma derrota dos "parceiros". As palavras do primeiro-ministro não deixarão de ser interpretadas no PCP apenas como uma cortesia verbal. Desafiado a explicar a hecatombe, e depois de, num primeiro momento, dizer que esta nada teria a ver com um eventual desgaste no tradicional eleitorado comunista pela viabilização do governo PS, Jerónimo reconheceria que a presença do governo na campanha passou ao eleitorado a ideia de que as mais valias desta solução se devem apenas ao PS e não também à intervenção dos partidos que compõem a CDU.

A campanha foi de resto "nacionalizada" com um alinhamento de tópicos sobre o Orçamento do Estado, que retiraram espaço ao debate sobre as realidades locais. Pouco se ouviu falar da desertificação ou do envelhecimento. Da sangria de serviços públicos – saúde, educação... – ou da urgente reorganização administrativa do Estado. Quem andou no terreno, percebeu que Jerónimo ainda tentou. Mas a dinâmica mediática foi tomada pela política nacional, pelos habituais incidentes e críticas entre líderes.

Foi também uma campanha estranhamente bivalente para o secretário-geral do PCP. Nos discursos diários aos militantes reunidos em jantares ou comícios, conseguia criticar o governo – porque, alega Jerónimo, o PS podia ir mais longe – e reivindicar a paternidade de algumas medidas. Intervenções inéditas, aparentemente confortáveis, mas estranhas para um eleitorado que, adjetivando o substantivo – "pelos trabalhadores e pelo povo" –, se habituou a conjugar o verbo "lutar" na oposição, com o "poder" como alvo.

Há na Europa uma reestruturação dos espectros políticos e partidários, com muitas variáveis para interpretar estas aparentes erosões nos eleitorados. Mas as circunstâncias imediatas e domésticas permitirão já algumas leituras.

No poder local não se confirma uma deslocação significativa de votos entre as duas forças partidárias à esquerda do PS. O Bloco de Esquerda não descola de uma imagem urbana e elitista e o PCP continua a ser uma referência nas autarquias, apesar dos maus resultados. O efeito "eucalipto" deu-se com o PS, o que só é novidade pela dimensão.

A solução de governo – a "geringonça", palavra colocada no comentário político para corroer – pode não cair por causa do desaire eleitoral da CDU nas autárquicas, mas o compromisso que a sustenta está agora sujeito a uma tolerância zero. O mais pequeno vislumbre de um incumprimento, de uma contrariedade, pode ser argumento para endurecer posições e fazer tremer a solução, vincando úteis diferenças. E há uma pergunta a contextualizar: a quem interessaria, no curto ou médio prazo, um cenário de crise com cisão no acordo e consequentes eleições antecipadas?

Com o fim deste cíclo eleitoral, tornou-se evidente que o modelo de campanha do PCP precisará de um ajuste. "Possivelmente, não fizemos tudo bem feito" admitiu Jerónimo. Embora reafirme a convicção de um "coletivo", de uma atividade política mais próxima e afetuosa, a capacidade de mobilização manifestada e mais uma vez testemunhada nas arruadas desta campanha não significa necessariamente maior implantação. A situação pode exigir um rejuvenescimento na forma, eventualmente no conteúdo, e não apenas na liderança. Aliás, se tivermos em conta as palavras de Jerónimo – "Quero, com uma grande sinceridade, afirmar que, apesar da dureza desta campanha, em termos físicos, anímicos, posso garantir que estou pronto para outra" –, os 70 anos de idade podem não representar um problema imediato.

Mas isto leva-nos inevitavelmente ao tabú da sucessão. As instituições são feitas de pessoas. Por mais coletivista que seja uma agremiação e por mais generosa que seja a disponibilidade pessoal, tudo tem um tempo. Este resultado eleitoral pode antecipar uma decisão, dando sequência ao debate interno, e discreto, sobre o homem ou a mulher que se segue. Uma nova geração de dirigentes está aí, na oportunidade de uma estratégia. Um novo ciclo começou.

Ao contrário de outras realidades partidárias, não haverá barões a condicionar a escolha. Umas mais representadas que outras, as várias sensibilidades e influências estão lá, nos diversos órgãos de um partido conhecido por pensar à distância, no longo prazo e sem alaridos. Será na intimidade que se definirá o(a) futuro(a) secretário(a)-geral. Só quem não conhecer o modus operandi da tradição enraizada na experiência da clandestinidade pode pensar que a praça pública será um palco privilegiado.

Sem festa, apesar da agitação de bandeiras, a noite eleitoral foi assim histórica no Centro de Trabalho Vitória. É certo que no discurso lido pelo secretário-geral do PCP se diz, num acervo de alguma altivez, que as populações que mudaram o voto "não demorarão a perceber o quanto errada foi a sua opção". Mas, ao admitir erros e consequentes maus resultados, Jerónimo abre um novo espaço na linguagem do PCP. Um sinal de lucidez para quem vier. Não há como negar as evidências. Por mais dispares e criativos que sejam os critérios de leitura, o sonho comanda a ação e a convicção, mas não pode cegar. A memória e os símbolos representam ideias que carecem de uma constante vibração com o tempo vivente, sob risco de uma erosão irreversível.

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