Opinião

Despertando, a propósito da visita de Marcelo a uma Igreja Adventista

Não sendo uma iniciativa inédita do Presidente da República, a visita a uma Igreja Adventista do 7º dia ocorre num momento decisivo. Ultrapassados os traumas da ditadura, percorridos 17 anos após a Lei da Liberdade Religiosa, consagrados os direitos e os deveres, desmontado o monopólio do pensamento religioso, permanece o desconhecimento e a indiferença quanto ao fenómeno religioso, perigosa e demagogicamente relacionado por alguns pólos de opinião com o fundamentalismo violento de inspiração islâmica ou, pior, com os movimentos migratórios.

Vivemos num tempo de crise ética, com impacto económico, social e existencial, a redefinir a secularização e a laicidade. Um tempo de novas exclusões, que persiste nas desigualdades sociais, no desperdício que atenta contra o planeta, no escândalo inaudito da criação de riqueza através de um lucro criminoso que subjuga o homem. Um tempo que é o da urgência do despertar da política e da corresponsabilidade, para reforçar e/ou reabilitar as liberdades. É um tempo de óbvias violações dos direitos humanos e da não menos óbvia incapacidade de uma governança global. "Um tempo com isto tudo e tudo o que isto implica na experiência religiosa, na inevitabilidade do encontro e da concertação das diferenças. É também o tempo de as religiões se redefinirem na globalização mediática, do não há longe nem distância, onde nada é totalmente privado e o fundamentalismo só cabe fazendo estragos. Estamos perto, muito perto uns dos outros, por força da tecnologia da comunicação e de uma linguagem mediática híper-emotiva, também ela geradora de equívocos que requerem novas ferramentas para melhor entender a comunicação. É por isso tempo de, abrindo-se umas às outras, as religiões assumirem os valores inalienáveis da dignidade humana, no dever da ética política. E, assumido este valores, não se remeterem ao silêncio" (1).

O papa Francisco vem insistindo na necessidade de construir pontes - não fosse um dos seus títulos o de pontífice... - entre religiões e credos, no que estes representam de ideal comum: a ética da relação.

Entre religiões e confissões não se confrontam teologias - seria um diálogo de surdos - mas debatem-se valores, solidificando a convivência, mesmo admitindo que esta não está isenta da dinâmica do proselitismo.

O relacionamento entre religiões e religiosos em Portugal é exemplar. Na forma ativa, com empenho e encontros inter-religiosos. Ou mesmo na forma inativa, em que a indiferença não produz intolerâncias assinaláveis. Para esta situação muito têm contribuido as lideranças religiosas pessoalmente empenhadas, o Estado - através da Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, de autarquias, da Comissão da Liberdade Religiosa e do Alto-comissariado para as Migrações - e a academia, com iniciativas que, sem grande eco mediático, pretendem levar ao cidadão comum o debate sobre a religião e a cidadania.

Veja-se o exemplo da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona - onde se instalou o Observatório para a Liberdade Religiosa -, que promove de forma organizada e estratégica, não confessional e abrangente, colóquios, conferências e simpósios e outras iniciativas junto da população em geral e da escola. Ou da Universidade Aberta, da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Católica que criaram também institutos próprios para este campo de ação.

Entende Soromenho Marques que a liberdade religiosa é a única que aparenta estar intocável na Europa. Até mais ver. Esta é uma Europa imprevisível, inquieta, refugiada nos seus medos e fantasmas. E que, "levada pelos seus medos e pelos seus fantasmas - que não consegue enterrar -, dá rédeas à demagogia" (2). A Europa vem revelando a fragilidade do humanismo nas contingências da religião. "Neste tempo conturbado que ergue muros ao diferente, a um outro que transporta também a diferença religiosa, Portugal ainda não foi posto à prova e o silêncio é uma insensatez. Como todas as liberdades, a religiosa também se trabalha. Nenhuma liberdade é absolutamente adquirida" (3).

Marcelo Rebelo de Sousa tem revelado esta sensibilidade desde o primeiro dia do mandato, quando, poucas horas depois da posse, participou numa iniciativa inter-religiosa na Mesquita Central de Lisboa. Voltará lá em Março, com António Guterres, para celebrar os 50 anos da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Na visita desde sábado a uma Igreja Adventista, o presidente lembrou a Constituição da República e a Lei da Liberdade Religiosa, instrumentos que, embora fundamentais, não asseguram por si só a prática da liberdade e da tolerância.

A Igreja Adventista tem desempenhado um papel importante na ação social e no debate sobre a liberdade religiosa, instituindo em Portugal, através da Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa (AIDLR), o prémio "Consciência e Liberdade" para trabalhos de investigação sobre o tema (4).

Há todo um trabalho a fazer, de conhecimento, proximidade e diálogo. Para, também através do pluralismo religioso, garantir aquilo a que Marcelo chamou a "vigilância na defesa dos valores éticos em que assenta a sociedade portuguesa".

Se os poderes publicos não adotam nenhuma religião, têm o "dever de colaboração com as igrejas e comunidades religiosas, considerando a sua representatividade, e tendo em vista a promoção dos direitos das pessoas, o desenvolvimento integral de cada pessoa, os valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da tolerância", disse o chefe de Estado.

Mas o Estado somos nós. E vamos vendo já no terreno iniciativas que incorporam esta prioridade. Sem grandes alaridos mediáticos, rasgando preconceitos e indiferenças, despertando de forma discreta a atenção para esta emergente necessidade: dialogar e valorizar na diferença religiosa os ideais comuns da ética e do humanismo.

(1) (2) (3) Intervenção do Observatório para a Liberdade Religiosa no evento Terra Justa, Fafe, em abril de 2016.

(4) O autor desta crónica teve a honra de, enquanto investigador em Ciência das Religiões, ser distinguido em 2013 pelo trabalho Da liberdade religiosa à urgência do diálogo – a experiência contemporânea.

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