Opinião

"Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe"

Volto à célebre frase de Maria José Nogueira Pinto, dirigida a Lobo Xavier, em 1995. Ficou célebre nos anais da política e é, ainda hoje, glosada em congressos e artigos sobre o que eles saberiam e, sobretudo, o que ambos sabiam que o outro sabia e que nós, cá fora, nunca soubemos. Passada a espuma da remodelação e da demissão do CEME, todos os dias Tancos tem novos episódios.

Rui Rio já tinha dito há várias semanas que "sabia" mais do que podia dizer mas que ia esperar que "todos soubessem" o que ele sabia. Sabia de alguma coisa, mas não contou tudo. Costa, no Parlamento, também disse que um dia "todos iam ficar a saber o que cada um aqui sabia". Dito assim diante dos deputados da Nação, cheira a ameaça.

E ainda há o PR. O Comandante supremo das Forças Armadas.

Que também não sabia de nada.

(não, Sr. Presidente. Não chega dizer, há mais de um ano, "que toda a verdade tem de ser apurada, doa a quem doer". Isso diz qualquer cidadão no café.)

A verdade é que parece que alguns sabem muito e que nós todos sabemos pouco.

Parece hoje mais claro, ainda assim, que já sabemos mais coisas sobre o encobrimento do que sobre o roubo.

E, neste caso, (querer) saber não é coscuvilhar nem espreitar pelo buraco da fechadura.

É fundamental saber quem sabia o quê e em que momento soube. E, já agora, como.

E, se quando esses que souberam, fizeram o quê com o conhecimento daquilo que sabiam.

Faz-me lembrar, isto tudo, uma polémica recente no Parlamento, em que afinal um ministro sabia, mas como não soube oficialmente, então jurou que não sabia de nada.

Tancos está cheio disto.

De depoimentos contraditórios.

De documentos que, afinal, ninguém sabe onde estão, mas que alguns juram saber que existem (ou existiram).

De negações de evidências ou de desafios à lógica.

Tancos já não é só o roubo - já de si grave - a remodelação - já de si tardia, a demissão do CEME - inevitável e atrasada.

Tancos é um novelo de Estado. Que, um dia, se se souber, não poupará quase ninguém.

Tancos será a pedra no sapato do Governo. Dos Militares. Do Presidente. Estará lá, a incomodar, a causar dor sempre que a pisarmos.

E, das duas uma:

- ou quem diz que nada sabe, devia ter sabido e, então, não ter sabido é grave;

- ou quem diz que nada sabe, sabia. E afinal é mentira que não tenha sabido.

Só para que saibam, não vamos descansar enquanto não soubermos.

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