Opinião

Religião e Política: perplexidades do caso brasileiro 

Poucos fenómenos são tão estudados como as dinâmicas evangélicas no Brasil. A academia brasileira produz anualmente dezenas de estudos sobre o protestantismo e o pentecostalismo. E parece haver sempre nova matéria para investigar. A experiência cristã no Brasil é cada vez mais diversa, incontrolável e insondável. Em reacção à tradição católica e as igrejas protestantes históricas, o Brasil acolhe movimentos periféricos que, pela proximidade informal, cativam crentes e simpatizantes. O que seria, em princípio, um sinal de rejuvenescimento do cristianismo, assume-se há muito como um problema social e político. Ao ampliar-se, este dinamismo evangélico criou estruturas de amplo poder, dominando vastos e importantes sectores da economia, finança e comunicação social. A relação entre religiosos e políticos tem produzido um ambiente por vezes promíscuo.

1. A intervenção política é também um desígnio cristão. Entendendo a política como exercício ético na gestão da polis, o próprio papa Francisco assumiu a reabilitação da política como prioridade, com sucessivos apelos aos leigos católicos para se envolverem na política, mas com intervenção delimitada. É obrigação de um cristão promover "o amor civil e político", defende, "o amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade" (Laudato Si, 231).

Ao dizer que "esta economia mata " (Evangelli Gaudium, 53) e que "a política não deve submeter-se à economia" (Laudato Si, 189), ao fazer a proposta de "um novo estilo de vida" (Laudato Si, Cap. VI) e ao reafirmar o pensamento social sobre o destino comum dos bens, condenando ao mesmo tempo derivas neo-liberais, Francisco reafirma, na sequência dos antecessores, a posição institucional da Igreja católica nos grandes debates políticos com impacto económico, social e ambiental.

Sabemos que as religiões produzem ideias e as ideias dão sustentação política e que os protagonistas da política se deixem influenciar por valores e convicções, também religiosas. É no compromisso ético, com propostas para uma organização comunitária no pressuposto da corresponsabilidade, que as religiões dão o maior contributo político.

2. Temos de revisitar o despertar dos direitos civis entre a riquíssima diversidade étnica e cultural, para ter o devido contexto da situação brasileira.

Embora com ruidosas e proféticas excepções – D. Hélder Câmara, mais recentemente, e o padre António Vieira, no século XVII, são porventura das mais estridentes entre as vozes católicas que deram o corpo às balas em nome do evangelho para defender as minorias subjugadas –, o Brasil da monarquia e depois dos coronéis desenhou-se também com a cumplicidade da hierarquia religiosa.

No século XX, pelo dealbar de uma nova consciência social do evangelho, a Igreja católica deixou a fazenda e os missionários partiram ao encontro das periferias. Chamavam-lhe teologia da libertação, que na prática significou a libertação da teologia. Em consequência – embora granjeando prestígio como Igreja do povo – à excepção do papel dos católicos nos meios mais urbanos da ditadura, a Igreja perdeu espaço de influência nas elites.

A fragmentação do cristianismo através das Igrejas evangélicas trouxe depois uma nova realidade na história religiosa do Brasil. As grandes metrópoles oferecem um vasto espaço de acção no domínio do religioso e com o aumento da população, aumentou também o movimento plural evangélico.

A favela, onde e a Igreja católica teve dificuldade em permanecer, passou a ser terreno para o crescimento evangélico, tendencialmente mais literal e fundamentalista na leitura da Bíblia, mais emotivo, e que, agregado às desigualdades sociais, dando respostas carismáticas onde elas escasseavam, acabaria por se espalhar de forma consistente por todo o Brasil cosmopolita.

Ao contrário do cristianismo católico, com balizas doutrinárias e limites na actuação política, os evangélicos definem as suas próprias regras de intervenção na comunidade. Se a um clérigo católico está em princípio vedada a ação política, admissível só em casos excepcionais, um pastor evangélico pode habilmente dar o salto para a política no Brasil. O sistema eleitoral é neste aspecto facilitador e boa parte das Igrejas evangélicas brasileiras entendem que a política é espaço de evangelização ativa.

A chamada “bancada da Bíblia” tem hoje um peso determinante na vida política brasileira e muitas Igrejas evangélicas não resistem à tentação do poder, ali, onde entendem ser capazes de influenciar a decisão política. Pelo meio, também há quem transporte interesses menos legítimos, facilmente sintonizáveis com os corredores do exercício político.

3. Um candidato à presidência do Brasil, qualquer que seja, tem de ter em conta este factor. Mas nunca um candidato, apesar deste caldo complexo, foi tão tomado pela influência religiosa, tendo-a e usando-a como instrumento para as narrativas da sua própria campanha. E o que torna o caso raro é precisamente o pêndulo da oportunidade.

Não foi de dentro para fora, mas de fora para dentro. Não sendo inédito, é estranho, perigosamente estranho, ver protagonistas da política a invocar as narrativas religiosas, descontextualizadas, condicionando o discurso político.

Em certa medida, estamos diante do mesmo mecanismo legitimador da intervenção alcorânica na organização da umma, com o poder legislativo islâmico tomado pela moral normativa dos textos religiosos, ou seja, recusando a priori o princípio da laicidade.

A história já mostrou o que significa a instrumentalização da religião. E onde esta instrumentalização pode levar. Espanta que a história se repita com esta facilidade. Convém no entanto sublinhar a pluralidade do movimento evangélico no Brasil. As lideranças evangélicas dividiram-se até entre candidatos a apoiar nestas eleições, com pastores a alertarem para os perigos do candidato que reivindicou ser um enviado para “uma missão de Deus”.

4. Os equívocos da usurpação são tremendos. E nem surpreende o mediático momento de oração do neo-presidente com um pastor evangélico, antes de se dirigir ao país. Quando o novo presidente do Brasil se assume como «messias» – curiosamente também o é de nome – aí sim, pode dar-se um passo catastrófico no (des)equilíbrio da laicidade.

Noutras circunstâncias, o «messianismo» é estrada fértil de ditaduras, seja um Grande Líder ou esteja disfarçado de «passarinho» que canta ao ouvido de quem se entende «escolhido».

Tome-se como outro exemplo o primeiro discurso após a vitória, quando citou o evangelho de João: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. E acrescentou: “A Verdade vai libertar este grande país”.

Se fosse pastor numa igreja, estaria a falar a linguagem do crente. Com letra maiúscula, a “Verdade”, além de ser substância filosófica, é a essência da fé cristã, é Cristo – “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo, 14). Mas é perturbador perceber os equívocos gerados por um aparente desacordo que, mais do que ortográfico, é interpretativo. É que, à excepção dos votantes cristãos minimamente conhecedores da Bíblia, a palavra terá sido entendida com a letra minúscula, como substantivo feminino – “verdade” –, o que carrega em si a ideia de uma justiça que faz «limpeza». Uma “verdade que liberta”, instrumental, sem valor teológico, é arma de arremesso e legitimação sem limites para combater a falsidade. No holocausto era o trabalho de libertava nos campos de concentração. Radicalmente…

As narrativas biblicas, como outros textos sagrados, são perigosas quando descontextualizadas. Sustentam e preservam os mais sublimes valores do humanismo, mas podem também ser acha de uma fogueira ou combustível num incêndio.

5. Ignacio Ramonet analisou o conceito de “messianismo mediático”. Inspirado nos tele-evangelistas americanos, antevia a ascensão de líderes religiosos capazes de concentrar expectativas, nos quais os crentes depositariam fé para encontrar a solução, de preferência pouco dolorosa, para os seus problemas.

O que o sociólogo não imaginava era que o século que está a reconstruir o sentimento religioso voltaria a ser tempo e a oferecer espaço para as mais básicas demagogias religiosas, condicionando e até pervertendo a narrativa política.

Talvez esta preocupação seja exagerada. Pode não passar de mera instrumentalização. Afinal, os politólogos têm esgrimido outras variáveis, com mais peso do que a questão religiosa, para explicar o efeito “ele sim”.

Nota: Antes que alguém compare o incomparável, acrescente-se que faz todo o sentido, em nome da Liberdade Religiosa e da decência republicana, ouvir um político ou um jornalista despedir-se com o tradicional "Até amanhã, se Deus quiser"...

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