Opinião

Vou só ali picar o ponto e venho já

A tradição do Parlamento revela, infelizmente, que ao longo de décadas, milhares de deputados passaram pelo hemiciclo, assinaram o livro de presenças - sim, era mesmo um livro, físico, com assinatura física - recebiam por isso a diária e, depois, iam à sua vida.

Quase todos o fizeram.

Não sei precisar o ano, mas lembro-me de uma reportagem da SIC que mostrava, numa véspera de fim de semana, a fila de deputados a assinar o livrinho e a irem embora, descontraidamente, para um fim de semana... ainda os trabalhos não tinham chegado sequer a meio.

Não sei porque estranhamos.

Os alunos usam o mesmo método na faculdade - passa a folha de presenças e uns assinam pelos outros;

Nas fábricas, os colegas picam o ponto dos que chegam atrasados e, com sorte portuguesa, «o chefe» dão dará pelo atraso.

Está tudo bem.

José Silvano estava em dois lugares ao mesmo tempo.

Em trabalho do partido e na Assembleia.

Não sei porque estranhamos.

Mais estranha é a justificação.

Que afinal não estava;

que não foi bem assim;

que alguém pirateou a password do deputado

que foi às 15.30, mas afinal foi às 17.00, e afinal, se calhar, foi logo de manhã.

Ferro Rodrigues tratou logo de esclarecer com «os serviços» e deixar claro que a password é atual; que o registo é das 15.30; que o deputado validou a presença;

Silvano já pede que lhe marquem faltas, apesar de dizer que afinal esteve no Parlamento noutros trabalhos que não no plenário;

Se esteve, porque pede - agora - para que lhe marcarem falta?

E nada disto teria grande importância,- no sentido em que já pouco nos espanta, e que o Parlamento não é mais do que o espelho, perfeito, do pais que temos - não fosse o banho de ética.

Mas na visão de Rui Rio, o «banho de ética» é só para alguns.

Os que lhe são próximos estão dispensados da ética.

São só «questiúnculas».

E esse é o problema.

Quando nascem, o Sol, a democracia e, já agora, os banhos de ética, deviam ser para todos.