Opinião

O arruaceiro, o fascista e as viagens deles todos 

Não creio que eleitos e eleitores estejam cada vez mais afastados.

Pelo contrário.

Cada vez mais o Parlamento é o real espelho do País.

De um País de esquemas, de triunfo dos interesses, de compadrios e caciquismos, de favorecimento de amigos, de pequenas fraudes e desvios.

O País do desenrasca.

Do xico-espertismo.

Da cunha.

Os deputados representam o povo e, parece-me, representam-no muito bem. Porque o povo que estes 230 eleitos representam também é assim.

Não passa faturas, não pede faturas; declara o salário mínimo; tem sempre um primo, cunhado, amigo de um amigo ou tio da mulher que trabalha num qualquer organismo público e, portanto, consegue a licença que não sai, a consulta para já, o exame para amanhã ou colocar o filho na escola que quer com a morada falsa da casa de uma avó da cunhada do ex namorado da prima.

O deputados representam um povo e comportam-se como ele; insultam-se na comissão ou no hemiciclo, tal como dois amigos se insultam numa conversa de café quando o tema é se o árbitro devia ou não ter marcado penalti.

Os deputados “mitram” as viagens, pedem descidas de classe para levarem companhia, trocam passwords para marcar presença. Tal como o povo que representam “mitra” o papel e a fotocopiadora do patrão para os livros escolares ou as teses dos filhos, leva as canetas e blocos da empresa para casa, pede ao colega para picar o ponto ou deixa o casaco nas costas da cadeira um dia inteiro, para dar a ideia de que está a trabalhar, mas de momento “não se encontra”, porque foi só ao bar, ao WC ou fumar um cigarrinho.

O princípio é o mesmo, a escala é que é diferente.

E, depois, quando a coisa aperta, são todos umas “virgens ofendidas”, vejam lá o que foi acontecer.

O exemplo, meus senhores, vem de cima. Os vossos eleitos olham para cima e não veem nada diferente do que eles fazem cá em baixo. Só a dimensão da coisa é que é diferente. Isto é tudo igual.

Mais uma vez, os regulamentos e as leis, que são os senhores deputados que fazem, devem ser claros, transparentes, percetíveis pelos vossos eleitores, sem truques, tibiezas ou duplas interpretações.

O que mina a democracia é os habitantes da casa dela não se darem ao respeito, permitirem espetáculos indignos e comportamentos de miúdos de escola.

O que descredibiliza o regime é quem se aproveita dele e acha isso normal, tolerável, admissível, até “imoral”, desde que seja, nem que remotamente, legal.

Está tudo a passar-vos ao lado.

A democracia passou das ruas, dos salões e do Parlamento para as redes; a influência passou para o “escrutínio” direto e perigoso; as eleições são prececionadas, cada vez mais, como uma obrigação e não como uma oportunidade.

Depois, queixam-se da abstenção, do populismo, dos extremismos.

Ou, se calhar, pensando melhor, cada povo tem os deputados que merece.

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