Opinião

O último adulto na sala

A notícia caiu como uma bomba, ao fim desta quinta-feira, em Washington. O general James Mattis, numa carta dirigida a Donald Trump, anunciava a sua demissão do cargo de secretário da Defesa – o ministro da Defesa Nacional no sistema americano.

Na missiva, Mattis, o respeitado marine com 40 anos de serviço, sublinha que Trump deve escolher “um secretário da Defesa cujos pontos de vista estejam mais alinhados com os seus”, denunciando publicamente o protesto implícito na sua decisão.

As divergências entre Trump e Mattis não são recentes. Mas a gota de água foi a decisão anunciada esta semana, de retirar todas as tropas americanas da Síria – cerca de 2.500 soldados – onde treinavam e apoiavam as milícias curdas que fazem frente ao Daesh.

Numa reunião na Casa Branca, todos os mais altos responsáveis se manifestaram conta a decisão: o secretário da Defesa, James Mattis, o secretário de estado, Mike Pompeo, o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, Joseph Dunford, o Chefe de Gabinete, John Kelly (também ele um general), e outros.

Trump, que disse publicamente saber mais do que os seus generais, ser uma pessoa de inteligência superior e quando precisa de conselhos “falo comigo porque, em primeiro lugar, tenho um cérebro muito bom e já disse muitas coisas”, decidiu ao contrário. A retirada das tropas americanas da Síria foi elogiada por Vladimir Putin, da Rússia, e do agrado de Recep Erdogan, da Turquia. Washington ficou em choque, por não compreender o que leva um presidente a decidir a favor dos adversários do seu país, mesmo tratando-se de Trump, para quem a fasquia já está no chão.

Putin, o mais forte aliado do regime de Bashar al-Assad passará a ser o comandante incontestado da Síria. O Irão, que Israel considera uma ameaça, fica com rédea mais livre. A situação oferece a Benjamin Netanyahu a possibilidade de atacar os iranianos, numa altura em que, na frente doméstica, é assediado por investigações de corrupção.

Outro beneficiário, e sabe-se agora, o catalisador da retirada, foi Erdogan que na sexta-feira (14 de Dezembro), conversou telefonicamente com Trump para discutir a intenção turca de lançar uma ofensiva no Nordeste de Síria, exactamente onde actuam os curdos, apoiadas pelas tropas americanas que agora serão retiradas.

Numa espantosa narrativa da agência noticiosa Associated Press (AP), ficamos a saber que Erdogan colocou Trump na defensiva e este, ao invés de seguir o conselho unânime da sua equipa de segurança nacional, cedeu sem uma única contrapartida, tal como nas cimeiras com Putin e Kim Jong-un. Segundo a AP, o recuo de Trump – o negociador exímio, o dealmaker – foi tão súbito e inesperado que surpreendeu o próprio presidente turco.

Com a retirada dos soldados americanos Erdogan tem a oportunidade de esmagar os curdos, odiados pelo regime turco, e que asseguravam uma das frentes avançadas de combate aos cerca de 30 mil terroristas do Daesh que ainda controlam algumas áreas da Síria. Independentemente do argumentário trumpiano, não foram definitivamente derrotados.

Inicialmente, chegou a recear-se que Trump estivesse a fazer o favor a Erdogan de lhe permitir dizimar os curdos a troco de este deixar em paz Muhammad bin Salman. O líder turco é um adversário feroz do príncipe herdeiro saudita, que Trump defende apesar da sua responsabilidade no assassínio e desmembramento de um jornalista no consulado saudita em Istambul. As motivações da subserviência do presidente americano ao saudita são um mistério. Mas essa não foi a razão.

O motivo para a cedência à Turquia é porque ela representa uma “vitória” que o presidente americano apresenta à sua base. Numa mensagem na rede social Twitter, declara o Daehsh derrotado e a razão para o regresso das tropas a casa.

O consenso nos conselheiros de segurança nacional dos Estados Unidos é de que o Daesh não está definitivamente derrotado. Mas isso não move esta Casa Branca. A “vitória” era precisa, num final de ano desastroso, com Washigton solidária com Mattis e contra Trump, os mercados em queda livre, a investigação das suas ligações a Putin (e possíveis motivações financeiras da sua política para com a Rússia) a levar ex-assessores e amigos à prisão, o governo à beira de encerrar por falta de orçamento, a incapacidade de financiar a construção do muro na fronteira que, na campanha eleitoral, Trump jurava seria pago pelo México, e Kim Jong-um a dizer que, afinal, a desnuclearização da Coreia do Norte fica dependente da cessação da ameaça nuclear americana. “Ele gosta de mim e eu gosto dele,” disse Trump, sobre Kim, há três meses. “Ele escreveu-me cartas bonitas. São grandes cartas. E apaixonamo-nos”. Em Junho, Kim “prometeu” desnuclearizar o seu pais e Trump acreditou.

Agora que Mattis, o último adulto na sala, está de saída (o Chefe de Gabinete, Kelly, sai no fim do ano; o general H.R. McMaster saiu há meses), Trump está sozinho em casa, a brincar com os fósforos, sem nenhum dos experientes generais que tentaram cercear os seus piores instintos. Obviamente, Pompeo e Bolton, que apesar da sua postura em certos casos radical, traziam a esta administração um sentido de estratégia, não têm influência sobre Trump, a quem preocupa mais a sua base do que a segurança nacional.

Movido por uma impulsiva obsessão de agradar a essa base e a ditadores que no futuro possam ser, sonha, parceiros de negócios, receia-se que o pior de Trump ainda esteja para vir.

Nota: Devido a novas informações, entretanto disponíveis, a primeira versão desta crónica foi actualizada pelo autor.

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