Opinião

Do muro que o México ia pagar a um sinal de conluio com a Rússia

Donald Trump encerrou o Governo americano por causa de um muro que o México ia pagar. A chantagem orçamental não funcionou e há a ameaça de declarar uma “emergência nacional” para construir o muro na fronteira Sul. O resultante espectáculo quase ofuscou um importante sinal de conluio entre a campanha de Trump e Rússia.

Um cenário digno do teatro do absurdo apoderou-se da política americana. Para chantagear o Congresso e obter fundos para a construção de um muro na fronteira com o México, Trump ameaçou encerrar o Governo e declarou-se orgulhoso disso. Quando três semanas de encerramento não funcionaram, proferiu um discurso descrevendo uma crise inexistente na fronteira. Quando a opinião pública não acreditou, ameaçou declarar uma “emergência nacional” para justificar a construção do muro, “emergência” que não passa de uma manobra negocial. Na última sessão de negociações com os legisladores sobre o orçamento, Trump abandonou a sala.

O Governo encerrou parcialmente e as consequências são drásticas, tudo por causa de um muro que, prometeu Trump centenas de vezes, o México ia pagar.

Mas enquanto esta crise consumia quase todo o oxigénio do habitat político, uma crise dormente despertou: oChairman da campanha eleitoral de Donald Trump, Paul Manafort, é acusado de partilhar informação privada da campanha com um indivíduo ligado aos serviços de inteligência russos. A confirmar-se, este pode ser o mais importante indício, à data, de conluio entre a campanha de Trump e Moscovo. O procurador especial Robert Mueller investiga, há 18 meses, alegações de que a campanha e Moscovo coordenaram acções de apoio à eleição de Donald Trump. Alega-se, ainda, que o interesse de Trump no apoio russo e em boas relações com o presidente Vladimir Putin visava criar um ambiente favorável ao seus negócios privados na Rússia.

As novas revelações foram acidentais. Em documentos apresentados a um tribunal em Washington, os advogados de Paul Manafort não bloquearam devidamente a versão pública de uma alegação em que refutavam uma acusação de Mueller.

A acusação refere que Manafort partilhou resultados de sondagens privadas efectuadas pela campanha de Trump, com Konstantin Kilimnik, ligado à secreta militar russa (GRU). Não se conclui, do excerto divulgado, se Trump tinha conhecimento dessa partilha de informação, mas o senador democrata Mark Warner – membro da Comissão dos Serviços Secretos – e muitos analistas, crêem que não há fumo sem fogo.

Isto é “o mais perto que chegámos do conluio”. Se há provas “de que o chairman da campanha do presidente partilhou dados confidenciais da campanha com um operacional da inteligência russa, como e que isso não prova um esforço para colaborar”? – perguntou Warner numa entrevista à cadeia de televisão CNN.

Enquanto não se obtém resposta aquela pergunta, outros analistas afirmam acreditar que Mueller nunca teria formalizado a acusação em causa sem provas sólidas. Manafort, já condenado por oito crimes de fraude fiscal e bancária, que o sujeitam a um máximo de 80 anos de prisão, tentou evitar um segundo julgamento, através de um acordo de delação premiada com Mueller, mas este acusou o ex-chairman da campanha de Trump dementir aos procuradores e requereu a anulação do acordo. Foi nesse contexto que foi agora revelado o contacto suspeito com o operacional russo.

Apesar da muita especulação sobre a investigação, Mueller e a sua equipa são esfíngicos na sua postura pública, mas este incidente levanta um pouco do véu sobre os dramas que nos últimos 18 meses se desenrolam dos bastidores.

Podemos estar mais perto de saber, na famosa formulação do senador republicano Howard Baker, durante o inquérito de 1973 ao escândalo Watergate: “O que sabia o Presidente e quando o soube”?

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