Opinião

O Santa Clara foi o meu primeiro clube

O Santa Clara foi o meu primeiro clube.

Eu ainda nem sabia o que era um clube, na verdade.

Nem o que significava ser adepta. Nem muito menos as regras do futebol.

Ou de qualquer outro desporto.

Acho que nem tinha idade para perceber os conceitos 'regras' ou 'futebol".

Mas já gostava do Santa Clara porque o meu pai era do Santa Clara.

E olhem que não era fácil para ele, sportinguista, ser de um clube que usava equipamento vermelho e tinha um símbolo parecido com o do Benfica.

Mas o amor não se explica, claro.

E eu, como todas as meninas, amava o que o meu pai amava.

Ele teve um cargo qualquer de dirigente e ia muito a jogos e a treinos.

De várias modalidades.

E levava-me.

A minha mãe, que também ia, fazia tricot ou lia um livro porque, suponho, não tinha qualquer paciência para aquelas horas em pavilhões ou ao frio, em campos pelados.

Em casa nunca me disseram, como agora há quem volte a defender, que as meninas e os meninos se vestem de forma diferente ou brincam com jogos diferentes.

E os meus amigos, provavelmente para não desagradarem ao meu pai, lá me deixavam jogar à baliza, nas tardes em que não chovia a cântaros, e o relvado do jardim se transformava num estádio com adeptos, equipas, protestos e impropérios contra o coitado que ficava de árbitro.

Os outros jogadores eram todos rapazes, e mais velhos do que eu, que não tinha, sequer, força para segurar a bola quando a chutavam.

Mas tenho algumas cicatrizes que provam que me atirava para o chão na tentativa, vã, de não levar uns belos frangos.

O meu pai morreu em 1979.

Eu nunca mais joguei futebol.

Nem vivo na ilha, no meio do oceano mar, há muitas décadas.

Mas em dias como o de hoje, e desde que o Santa Clara subiu à primeira divisão, estes 1.400 quilómetros que me separam de S. Miguel, parecem-me o oceano inteiro.

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