Opinião

Rio saiu do guião e fez bem. E tem espingardas?

Rui Rio respondeu bem ao repto de Luís Montenegro e tomou a decisão correcta de convocar um Conselho Nacional extraordinário para votar uma moção de confiança apresentada por si. São tudo coisas simples e intuitivas, mas num líder que nunca sai do guião que traçou, esta simples resposta “normal” deve ser assinalada.

Para um líder político, ir para um Conselho Nacional (CN) convocado pela oposição e com uma moção de censura na mesa é bem diferente do que agora se apresenta. Na verdade, para o resultado é a mesmíssima coisa, mas politicamente é diferente. A direção do PSD abandonou o estado de negação e partiu para a clarificação. Ainda bem.

A primeira questão que agora se coloca é simples: quem ganha o Conselho Nacional? A resposta não é fácil, apesar de haver muita gente nos bastidores com respostas prontas. De um lado e do outro. Rio está convencido de que ganha, Montenegro também. É natural que a vitória de um ou outro seja estreita, mas isso será indiferente. Naquela noite, por um voto se ganhará ou perderá.

Rui Rio cometeu um erro, com a melhor das intenções, no último congresso. Fez uma lista unitária ao CN com Pedro Santana Lopes. Não só essa lista não chegou para ter maioria, como deu metade dos lugares ao santanismo, que viu o seu chefe mudar de partido pouco tempo depois. Além disso, viu muitos conselheiros serem eleitos por outras listas dispersas, algumas com apoiantes seus.

É por isso que as contas são difíceis de fazer. Por isso, porque a lógica das distritais não reina neste órgão decisivo e também porque há muitas inerências com direito a voto. Muitas dessas inerências não costumam aparecer, mas num momento de tudo ou nada ninguém sabe.

Os próximos dias, poderão mostrar melhor o que podemos esperar. O risco de mudar de líder em cima de eleições é enorme, o de manter um líder que não tem conseguido marcar pontos na oposição também. Rio tem a seu favor a estabilidade, Montenegro a vertigem da mudança para tentar inverter as sondagens.

A centena e meia de conselheiros nacionais têm nas mãos uma decisão dificílima. Tudo o que correr bem ou mal daqui para a frente será julgado em função desse momento raro.

A contagem de espingardas não é um processo bonito mas faz parte dos partidos. E vai ser feita com promessas de lugares nas listas à mistura. De um lado e do outro.

Rui Rio costuma crescer nos confrontos e gosta de ter inimigos. A sua carreira política jogou sempre muito bem com essas variáveis. Mas a posição de presidente da câmara era mais sólida do que a de líder da oposição, que, como todos sabemos, é o pior emprego da política portuguesa. Contem-se, então, as espingardas.